Resenha: Kamelot — Dark Asylum (2026)

Na estrada há quase quatro décadas, os norte-americanos do Kamelot editaram recentemente “Dark Asylum”, seu novo trabalho de inéditas, pela gravadora Napalm Records.

O décimo quarto registro chega três anos após o excelente “The Awakening”, lançado em março de 2023. Mais uma vez, o grupo oferece aos fãs um disco maduro, honesto, bem produzido e com a mesma qualidade musical apresentada nos trabalhos anteriores. Antes de adentrar as melodias de “Dark Asylum”, é preciso conhecer a trajetória do grupo, que pode ser dividida em três fases distintas.

A primeira teve Mark Vanderbilt nos vocais. Ele foi responsável por “Eternity” e “Dominion”, os dois discos que formam os pilares dessa longa história. A continuação e a ascensão vieram com Roy Khan, que deixava o Conception para assumir os vocais no lugar de Vanderbilt. A fase atual conta com Tommy Karevik, ex-vocalista do Seventh Wonder, que substituiu Roy Khan, mantendo o nível musical intacto e, ao mesmo tempo, equilibrando duas fases distintas: passado e presente.

A chegada de Karevik trouxe certamente, além de uma nova voz, o equilíbrio perfeito entre as novas e as antigas composições, sem descaracterizá-las. Assim, agradou em cheio aos fãs que ainda lamentavam a saída de Roy Khan.

Reprodução

A escolha certa para os vocais

Diferentemente de algumas bandas, o Kamelot acertou em cheio na escolha do novo frontman, que encarou a missão não apenas como um vocalista substituto, mas como o cara que veio pra ficar, mantendo o legado construído por Vanderbilt e Roy Khan.

Basta lembrar que, além de cinco álbuns oficiais, já são quatorze anos como frontman. Sua entrada trouxe novo fôlego ao grupo, já que sua voz poderosa combinou perfeitamente com a sonoridade dos norte-americanos. Com seu timbre agradável, Tommy Karevik deu continuidade à história musical da banda, que se manteve no caminho certo, agradando não apenas aos novos fãs, mas também aos antigos.

Vale lembrar que, na era Khan, foram lançados sete trabalhos de excelente qualidade, com destaque para a quadra formada por “The Fourth Legacy”, “Karma”, “Epica” e “The Black Halo”. Particularmente, considero que são discos que representam muito bem a essência do Power Metal, assim como o crescimento do Kamelot como banda ao redor do mundo.

O novo capítulo com Tommy Karevik

O novo capítulo — e o primeiro com Karevik — teve início em 2012, com o lançamento de “Silverthorn”, álbum que marcou sua estreia e mostrou o tiro certeiro que a banda deu ao recrutá-lo.

Sua consagração veio nos trabalhos seguintes, que mostraram inclusive sua capacidade interpretativa ao cantar os clássicos da fase Roy Khan sem descaracterizá-los.

Sobre “Dark Asylum”: produzido por Sascha Paeth e lançado em 28 de agosto pela gravadora Napalm Records, o disco contém 15 novas faixas distribuídas ao longo de aproximadamente 52 minutos e traz o Kamelot executando a mesma fórmula musical de outrora. Ou seja, tudo aquilo que ouvimos desde o já mencionado “Silverthorn”.

Mantendo a tradição de convidados especiais, o álbum reúne nomes como Tobias Sammet (Avantasia, Edguy), Ignacia Fernández (Decessus) e Clémentine Delauney (Visions of Atlantis), além da soprano Rannveig Sif Sigurðardóttir, da vocalista Sólveig Sara Leupold e da violinista Elena Lea-Sophie Fischer (Eluveitie), todos presentes para dar ainda mais brilho ao disco.

Porém, como fã, vejo alguns pontos que merecem observações nesta nova fase da banda, principalmente após a entrada de Karevik. Um deles é a conexão entre os discos, que aparentemente se ligam uns aos outros em todos os aspectos possíveis: capas, letras, sonoridade, clipes e convidados especiais. Todos esses fatores se tornaram característicos e começam a ficar repetitivos.

Reprodução/Facebook Oficial

Quando a fórmula começa a se repetir

Desde a participação especial de Shagrath (Dimmu Borgir) em “The Black Halo” (2005), interpretando Mephisto na faixa “March Of Mephisto”, a banda optou por adicionar composições com vocais extremos, trazendo convidados como Alissa White-Gluz, Lauren Hart, Melissa Bonny e, recentemente, Ignacia Fernández, vocalista da banda chilena Decessus, de Melodic Death Metal.

Não vou dizer aqui que são escolhas errôneas; ao contrário, são excelentes vocalistas. Porém, ao ouvirmos essas faixas separadamente, entramos, literalmente, em um déjà-vu. Ou seja: já ouvimos isso uma, duas, três vezes — e a repetição começa a incomodar.

Outro fator que “atrapalha” um pouco o andamento de “Dark Asylum” é a quantidade de músicas nele apresentadas: quinze no total. Apesar de três delas terem curta duração, ainda assim o disco soa exagerado, já que algumas canções parecem desconexas e, honestamente, poderiam ficar de fora. Isso definitivamente não mudaria o resultado final (opinião pessoal).

Mas, afinal, o disco traz destaques e/ou músicas de impacto? Evidentemente, meu caro Watson! Os bons momentos estão presentes na trinca formada por “Ashen World”, canção que abre o disco apresentando belas orquestrações e poderosas camadas de vozes em seu refrão, além dos vocais agressivos de Ignacia Fernández; pela faixa-título, “Dark Asylum”, com suas belas harmonias; e por “Sanctuary”, com as participações de Clémentine Delauney, do Visions of Atlantis, e Ignacia Fernández.

* “Ashen World” e “Sanctuary” foram os primeiros singles, e ambos ganharam videoclipes.

Ainda falando de destaques, temos “One Last Masquerade”, com a presença de Tobias Sammet, do Avantasia; “Godlike Alchemy”, faixa que apresenta belas passagens orquestrais; e “The Sleeping Mind (Orphic Paradigm)”, composição que nos remete a trabalhos como “Epica” (2003) e “The Black Halo” (2005), destacando os agudos perfeitos de Tommy Karevik.

* “Godlike Alchemy” ganhou um excelente lyric video.

Entre grandes acertos e faixas desconexas

“Kaleidoscope”, “Enigma (Think of Me)” e “Cassandra’s Disease” também aparecem na lista de ótimas composições, com destaque para Oliver Palotai e suas linhas precisas de teclados, além das orquestrações muito bem executadas.

Em “Ivy, My Dear”, surge aquela parte “desconexa” da qual falei. Apesar da interpretação brilhante de Karevik, ainda há algo muito estranho que não se encaixa. Mesmo que suas melodias soem agradáveis, a impressão é que estamos ouvindo algo dos finlandeses do Nightwish, principalmente na parte instrumental.

O mesmo acontece em “Beneath the Moon (Tunglið)”, quando volta aquela sensação de que ainda estamos ouvindo algo do Nightwish da fase Floor Jansen. Apesar das participações especiais de Rannveig Sif Sigurðardóttir, Sólveig Sara Leupold e Elena Lea-Sophie Fischer, fica a impressão de que essa música definitivamente não deveria estar aqui.

O disco se encerra com a instrumental “Sanctum Requiem”, outra faixa que não faria diferença caso não estivesse presente. Antes dela, porém, a banda atira mais uma flecha certeira com a estupenda “The Puppet King”, uma baita música na qual eu apostaria minhas fichas para ser o próximo single. Em síntese, é uma canção perfeita para fechar o disco.

Apesar dos pormenores aqui descritos, Thomas Youngblood continua sendo um gênio como guitarrista, líder e compositor, e essa genialidade se reflete mais uma vez no novo trabalho da banda, que oferece aos fãs momentos grandiosos.

Photo: @timtronckoe

Entrosamento e estabilidade

Outro fator que merece atenção é o entrosamento entre os músicos. A última troca de integrante aconteceu em 2019, quando Alex Landenburg assumiu a bateria. Essa solidez faz toda a diferença e talvez seja um elemento importante na hora de compor e lançar um novo disco. A propósito, a maneira como Alex toca bateria lembra bastante o que Casey Grillo fez quando esteve na banda.

“Dark Asylum” (o álbum) carrega a responsabilidade de repetir o sucesso dos discos anteriores, agradar aos velhos fãs e manter seu lugar entre as bandas de Melodic Power/Symphonic Power Metal.

Ao final, estamos diante de um novo capítulo na história do Kamelot, que se mantém como um dos grandes nomes da música pesada da atualidade, lançando trabalhos relevantes e conquistando fãs ao redor do mundo.

Nota: 8,5

Integrantes:

  • Thomas Youngblood (guitarras)
  • Tommy Karevik (vocal)
  • Sean Tibets (baixo)
  • Oliver Palotai (teclados)
  • Alex Landenburg (bateria)

Faixas:

  1. Sanctorium
  2. Ashen World
  3. Dark Asylum
  4. Sanctuary
  5. Nocte Veritas
  6. One Last Masquerade
  7. Ivy, My Dear
  8. Godlike Alchemy
  9. The Sleeping Mind (Orphic Paradigm)
  10. Kaleidoscope
  11. Enigma (Think of Me)
  12. Cassandra’s Disease
  13. Beneath the Moon (Tunglið)
  14. The Puppet King
  15. Sanctum Requiem
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