Resenha: Hibria — On The Shortness Of Life (2026)

Um renascimento após três décadas

O Hibria surgiu em 1996, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e chega a 2026 após uma profunda reformulação. Com o guitarrista Abel Camargo permanecendo como o único integrante da formação original, havia grande expectativa em torno do rumo que esse novo lineup seguiria.

Felizmente, Abel Camargo parece ter encontrado o time certo, e On The Shortness Of Life surpreende em praticamente todos os aspectos. Da musicalidade às performances individuais, culminando no conceito lírico, o quinteto promove um renascimento completo após três décadas de existência.

Além de demonstrar enorme talento, Vicente “Velles” Telles forma uma dupla de guitarras incrível com Abel Camargo. Na cozinha, o grupo celebra o retorno do baixista Benhur Lima, depois de cerca de dez anos afastado, enquanto William Schuck comanda a bateria com maestria. O maior destaque, contudo, é sem dúvida o novo frontman, Ângelo Parisotto. Dono de identidade própria, timbres ímpares e alcance impressionante, o vocalista estreia à frente do Hibria mostrando, literalmente, a que veio.

A inquietação diante do tempo

On The Shortness Of Life nasce do incômodo provocado pela percepção de que o tempo passa sem necessariamente ser vivido. Inspirado em Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca, o álbum confronta o descompasso entre aquilo que somos, o que poderíamos ser e o que nos tornamos quando cedemos à pressa, ao medo e às expectativas alheias.

As músicas percorrem um despertar doloroso: partem da recusa em viver no automático, avançam para o choque com o mundo e atravessam o cansaço da resistência, a invisibilidade e o enfrentamento contínuo das próprias contradições. Não há, porém, promessa de redenção ou paz definitiva, mas a clareza de que não teremos tempo extra — existem apenas o instante presente, o corpo, a consciência e a escolha de como habitá-los. Mais do que acumular dias, viver significa dar forma ao tempo e aprender, enquanto ainda é possível, a não desperdiçar a própria existência.

Quando compreendemos a proposta lírica, o resultado final se revela ainda melhor do que parecia. E não se engane: a tarefa era extremamente desafiadora. Não se trata de uma história convencional, com personagens seguindo um roteiro ficcional, mas de conceitos abstratos e complexos. O disco poderia facilmente cair em uma armadilha comum, recorrendo a uma infinidade de vinhetas, passagens intimistas ou faixas low profile para conectar suas ideias, o que tornaria a audição tediosa. Definitivamente, não é isso que encontramos: o álbum transborda energia contagiante, reúne diversas músicas explosivas e oferece momentos de genuína empolgação.

Um despertar em alta velocidade

Undying abre o álbum de maneira acelerada e com muito bom gosto. Em pouco mais de quatro minutos, o Hibria demonstra intensidade e refinamento técnico. A música também se encaixa no conceito como um gesto consciente de renascimento: rejeita a vida conduzida pela inércia e apresenta uma vontade interior disposta a romper com o peso do passado.

Em Fire Away, esse despertar dá lugar ao confronto com os próprios demônios e simboliza a luta constante contra tudo aquilo que nos limita, nos arrasta para baixo e fere quem está ao nosso redor. Musicalmente, a faixa investe em um Power Metal veloz e visceral, apoiado por um refrão de fácil assimilação e pelos solos inspirados que Abel Camargo e Vicente “Velles” Telles entregam.

Pulse fecha a trinca inicial com uma dose extra de peso, evidencia o alto nível de inspiração do grupo e surpreende pelas performances individuais impecáveis. William Schuck e Benhur Lima dão um show na condução rítmica, enquanto Ângelo Parisotto demonstra toda a sua versatilidade ao explorar diferentes facetas da própria voz dentro de uma única composição. No plano conceitual, a música representa o choque entre a consciência recém-desperta e um mundo que tenta sufocá-la. Ainda assim, o eu lírico escolhe sentir, colidir e sangrar: prefere as cicatrizes de uma vida intensa à anestesia de uma existência que nunca alcança a plenitude.

Na sequência, Persist volta a pisar no acelerador sem qualquer cerimônia e deixa claro que este é um dos discos mais agressivos da discografia do Hibria. Como assíduo garimpeiro do gênero, arrisco dizer que também figura entre os lançamentos mais “porradas” da atualidade. A narrativa, entretanto, avança para a decisão de atravessar os conflitos. A música compreende a lucidez como um exercício contínuo de resistência, no qual cada acerto ou revés confirma uma vida conduzida com intenção. Persistir, portanto, não significa insistir cegamente, mas reafirmar todos os dias a escolha de continuar.

Entre a dissolução e a reconstrução

Melting Alive mantém os bumbos duplos de William Schuck trabalhando a todo vapor. O baixo também ganha bastante evidência, com linhas caprichadíssimas de Benhur Lima, enquanto as guitarras voltam a chamar a atenção. Em meio a uma multidão que apenas sobrepõe solidões, o eu lírico enfrenta a invisibilidade, o apagamento e a anestesia coletiva. O conflito já não envolve somente o indivíduo, mas também um mundo que esvazia a vida e transforma pessoas em presenças incapazes de realmente se encontrar.

Já em Against the Wall, não existe mais espaço para recuar ou se dissolver. Não surge exatamente uma esperança, mas uma clareza austera: mesmo entre ruínas, ainda podemos escolher permanecer de pé e edificar algo novo. Esta figura facilmente entre as melhores composições do álbum — e talvez até do ano. Assim, após um início lento e climático, a música ganha corpo, peso e velocidade até atingir seu clímax: uma sessão de solos em formato de duelo, na qual Abel Camargo e Velles incorporam o espírito das grandes duplas do passado.

Perto do fim, Animus surge como uma síntese após o confronto com o limite, enquanto o eu lírico encontra uma presença mais inteira. Depois de encarar o vazio, ele escolhe habitar o próprio tempo com propósito e precisão. A faixa reúne excelentes riffs e traz mais uma atuação espetacular de William Schuck, mantendo o trabalho em altíssima temperatura. Caso essa fosse a última música do tracklist, o disco já garantiria uma nota elevadíssima. No entanto, o Hibria guardou sua maior surpresa para o final.

O épico que aponta para o futuro

On the Shortness of Life é nada menos que um épico de 17 minutos, no qual o Hibria coloca em evidência, em momentos distintos, as principais qualidades de cada integrante. A canção encerra o álbum como um manifesto e revela por completo aquilo que as faixas anteriores apenas contornavam: a vida não é curta por natureza; nós é que a reduzimos quando entregamos nosso tempo à pressa, às distrações, bem como a propósitos que não escolhemos.

A banda organiza a composição em cinco capítulos — Adiaphora, Prohairesis, Apatheia, Ataraxia e Eudaimonia — e transforma a ideia central de Sêneca em um extraordinário processo de depuração. A faixa-título reorganiza toda a trajetória do disco — o despertar, o confronto, a exaustão e a reconstrução — como etapas de um mesmo aprendizado: a arte de escolher o próprio rumo e não permitir que a vida escape enquanto ainda estamos dentro dela.

No fim das contas, em vez de simplesmente continuar o caminho que o grupo vinha percorrendo, On the Shortness of Life soa como o ponto de partida para uma fase completamente nova e desafiadora. A impressão é que Abel Camargo finalmente encontrou um time funcional, com a química necessária para criar grandes obras.

E esta é, inegavelmente, uma delas. Com 49 minutos de duração, sete composições explosivas e um épico repleto de camadas, On the Shortness of Life reúne méritos de sobra para disputar o pódio entre os melhores álbuns de Power Metal do ano. Até o momento, é certamente o meu número 1. E disparado.

Nota: 9,7

Integrantes:

  • Benhur Lima (baixo)
  • William Shuck (bateria)
  • Ângelo Parisotto (vocal )
  • Abel Camargo (guitarra)
  • Vicente “Velles” Telles (guitarra)

Faixas:

  • 01 Undying
  • 02 Fire Away
  • 03 Pulse
  • 04 Persist
  • 05 Melting Alive
  • 06 Against The Wall
  • 07 Animus
  • 08 On The Shortness Of Life
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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