Resenha: Immolation – “Descent” (2026)

Afinal de contas, a família “ATION” nunca decepciona! E é com essa frase que início meu exercício por escrito sobre o novo álbum do Immolation, banda norte-americana de Death Metal. Ou seria Dissonant Death Metal? Bem, particularmente, detesto tais nomenclaturas extras. Entendo o charme e a identidade que elas possam trazer para as bandas, principalmente, quando isso for levado somente na brincadeira. Entretanto, a banda liderada pelo baixista/vocalista Ross Dolan e pelo guitarrista Robert Vigna nunca fugiu dos mares de sangue do Metal da morte. E, agora estamos diante de um novo e rico capítulo dessa história.

Todas as vezes em que os representantes de Yonkers, New York, anunciam um novo lançamento, as expectativas são sempre altas e dentro de uma confortável segurança. Normalmente, os discos apresentam qualidade ímpar, com uns pouco melhores do que os outros e vice-versa, assim tornando a discografia bastante coesa, fiel ao estilo e equilibrada. Tal qual o Malevolent Creation, Incantation, Suffocation, entre outros da grande família. Você pode ter os seus discos favoritos, mas dificilmente irá negar o fato de que o Immolation sempre se mostra bastante competente ao entregar trabalhos qualificados. No entanto, sempre fica a curiosidade referente a um novo trabalho vindo dos caras.

Immolation e sua forma de ensaio

O baterista Steve Shalaty está na banda desde 2003, tendo iniciado a sua trajetória dentro da discografia através do ótimo álbum “Harnessing Ruin” (2005). Já o guitarrista Alex Bouks entrou na banda mais recentemente, em 2016. Tendo a sua estreia, portanto, no álbum que trouxe o logo antigo de volta, “Atonement” (2017). Ambas as mudanças refletiram de maneira bastante positiva para a banda e contribuiu para a adição de mais e novos temperos, sendo sempre regados a muito molho de glóbulos vermelhos, com aroma de tensão e terror, e grandes pitadas de Sazón de enxofre.

Todos os músicos evoluíram com o passar dos anos e as composições, idem. Versos curtos e funcionais aos riffs mais diretos e ríspidos foram dando lugar a conjuntos de camadas sonoras e diversas variações, umas mais tensas, densas e mórbidas, outras mais ríspidas, vorazes e rápidas. Porém, “Descent” apresenta muito mais do que isso em seu receituário musical. Minha jornada com o som do Immolation começou com o álbum “Majesty and Decay” (2010) e, desde então, nunca mais larguei mão. Ou seja, os riffs hipnóticos e os solos distorcidos me fizeram virar um adepto de carteirinha da banda. Para mim, é um momento mais do que especial ao poder resenhar um disco deles novamente. Cheguei a resenhar “Failures for Gods” (1999), mas não tive oportunidade para resenhar um trabalho mais recente. Dessa vez, a oportunidade surgiu e cá estou para cumprir com a honrosa missão.

Immolation / Bandcamp

“Descent” – a nova densidade do Immolation

Trocadilhos à parte, “Descent” foi lançado no dia 10 de abril via Nuclear Blast Records. O novo trabalho conta com dez faixas, sendo uma instrumental, e foi produzido por Zack Ohren, figura tradicional e importante para a banda. Zack trabalha com mixagem e masterização desde o álbum “Majesty and Decay”. Contudo, além das duas áreas em que ele vem exercendo função, acaba de estrear na produção, conforme mencionado acima. Noah Buchanan cuidou da gravação da bateria, enquanto Justin Passamonte foi o responsável pelas gravações das guitarras, baixo e vocais. Além disso, um dos maiores destaques dos últimos anos, Eliran Kantor, é quem assina a maravilhosa capa de “Descent”. Santiago Jaramillo fez as ilustrações para o livreto – mais conhecido como booklet.

O álbum teve alguma participação especial para as gravações? Claro que sim! Só não sei o motivo de não terem divulgado isso, pois a figura em si é historicamente importante para o Metal. Estou falando de Mr. Dan Lilker, lendário baixista e vocalista de bandas como Nuclear Assault, Anthrax, entre outras só para citar algumas. Em “Descent”, Lilker utiliza somente a sua voz para as faixas “Host”, além da própria faixa-título. Para a divulgação do disco, foram lançados vídeos para os singles “Adversary”, “Attrition” e “Bend Towards the Dark”.

Um fato interessante sobre o processo construtivo através dos ensaios é que nem todos os integrantes moram próximos uns dos outros. Segundo consta no Metal Archives:

“A banda costumava ensaiar em Cleveland, Ohio, onde Steve Shalaty morava, e os três integrantes que residiam em Nova York faziam a viagem de 14 horas (ida e volta). Eles pararam com essa prática por volta de 2010 e atualmente só tocam juntos em shows ao vivo.”

Muito interessante isso, pois denota a dedicação dos caras em levar o trabalho adiante, não importando a distância. Após o período de pandemia, muitos músicos passaram a colaborar com suas partes através de ensaios por meio de vídeo conferência. A tecnologia avançou e esse processo melhorou bastante, ajudando a encurtar a distância entre os músicos.

A densidade cativante e a parede sonora tensional do Immolation

É bem verdade que, para o fã de Immolation, tais características soam bastante comuns e tradicionais dentro do processo criativo da banda. Desde o princípio da jornada em 1988, com a demo singelamente intitulada “’88 Demo”, o pessoal de Yonkers se dedica a essa junção de fatores musicais. Todavia, vale ressaltar que a sonoridade da banda foi ganhando personalidade e maturidade a ponto de se tornar fator primordial para destacar o seu tipo de som, em detrimento das outras bandas tão competentes quanto.

Quando mencionamos algo como Metal moderno, muitos adeptos de longa data torcem o nariz logo de cara ao se assustarem com o devido termo. Aqui, a questão do fator “moderno” vem da consolidação de uma ideia e evolução da mesma. Porém, sem perder a sua identidade e sendo fiel às suas tradições e tradições do subgênero. Só para exemplificar, o som feito pelo Immolation difere do Deicide, do Obituary, do Cannibal Corpse, entre outras do mesmo batalhão clássico. Veja que todas as bandas citadas são distintas, cada qual com sua identidade sonora e permanecendo no mesmo âmbito musical.

O som moderno vai de encontro à atualidade e, conforme dito, a evolução da própria banda. O Immolation possui uma discografia muito equilibrada em questão de qualidade, mas nunca parou no tempo e buscou expandir suas ideias dentro das próprias perspectivas. E por fim, tornando o seu som cada vez mais encorpado, unido às linhas mais tradicionais e brutas, iniciadas na virada para os anos 90.

Tensão em camadas, verticalidade sonora, peso bruto e arquitetura alinhada

O início da queda em alusão ao principal tema do disco apresenta um dedilhado breve e que soa antigo. A sua distorção revela algo do passado em meio ao presente, porém sempre na descendente. A aura envolta desse início já entrega essa sensação vertical e esse dedilhado é aproveitado como a verdadeira base para o primeiro mandamento sonoro do novo artefato musical do Immolation. “These Vengeful Wind” promove um verdadeiro compasso sólido e denso, somado a uma bateria incessante, assim colocando a parede sonora em primeiro plano. A formatação dessa parte representa a ventania vingativa em meio aos versos proferidos. Versos estes que estão nas mãos e nos vocais de Ross Dolan, enquanto seus parceiros de trincheira complementam este primeiro capítulo.

Versos revelam que os tronos no alto acabam por forjar a dissidência, enquanto o caos reina por pura intenção maligna. Por vontade de Deus, é escolhido um Judas e este pagará pelos erros de outros. Quando o desespero toma conta e nenhuma solução é encontrada, a vingança passa a ser a única arma. E essa ventania funciona como um bumerangue, do qual poderá se virar contra o vingador em algum momento. Os anjos se envergonham e a verdade é oculta mais uma vez.

“Os anjos gritam
Asas rasgadas e envergonhadas
Esses ventos vingativos
Queimam nossas almas

Derrotados, indefesos e esmagados
Devemos nos curar e nos erguer”

Caos lamacento e solos vertiginosos

Tudo é efêmero, menos a musicalidade do Immolation. A prova cabal para isso atende por “The Ephemeral Curse”, indo ao contraponto da letra e ascendendo em seu propósito sonoro diante de um trabalho que começa a todo vapor sombrio e denso. Os riffs ganham mais camadas até partilharem das áreas mais extremas do subgênero mais sangrento do Metal. Em meio a isso, temos os trechos harmônicos e hipnóticos, regados a muito caos sonoro e melodias agudas, sendo aplicadas em doses homeopáticas. As doses aumentam, juntamente com as linhas de bateria e o alicerce conduzido pelo baixo. Seguindo pelo caminho bastante denso e lamacento, a música revela o seu chamado para uma valsa mortífera regada a solos vertiginosos e extasiantes. Alas mais cadenciadas entram em vigor, revelando outras camadas mais sombrias até a última nota de sustentação tocada.

O plano de Deus é falho quando percebemos a nossa insignificância em meio à toda criação. Desperdiçamos tudo em ganância, ira e guerra, enquanto a entropia avança e revela que tudo possui um fim. O começo é o próprio fim e, tanto nossos reinos quanto nossos sonhos deixarão de existir. O tema junta aspectos da ciência e religião e coloca à mesa o tamanho da fragilidade humana e seu valor insignificante perante o universo.

“Nossa arrogância nos enganou, nossa insignificância se torna clara
Não importar no grande plano é o nosso maior medo
Nosso reinado é curto, desperdiçamos tudo em ganância, ira e guerra
A entropia nos desestabiliza, nossos reinos e sonhos deixarão de existir

Nosso brilho fugaz se dissipará no grande vazio de escuridão e gelo”

Tríade fechada com sensação claustrofóbica em território inóspito

De forma vagarosa e intimidadora, “God’s Last Breath” toca os seus primeiros acordes, em conjunto com o alicerce – baixo e bateria, até que isso ganha uma nova forma. Melodias lamuriantes e distorcidas surgem como pitadas de enxofre vindas dos céus. Caem de modo leve, como o orvalho que cai da folha. O rufar dos tambores evidencia mistério e aquela sensação claustrofóbica contagiante. A faixa segue a toada e modifica o seu formato, ganhando força e ímpeto, disparando como se fosse um tiro de misericórdia. Esse tiro acelera a corrida de encontro ao que chamamos de caos sonoro. O arrasto das guitarras em conjunto com a bateria e o baixo formam o trecho mais sólido, assim terminando sem qualquer tipo de cerimônia.

O último suspiro de Deus nada mais é do que o nosso último instante neste plano, neste espaço. Estamos sendo abandonados pelos santos e até por nós mesmos. Nossos sonhos estão se esvaindo, perdendo o controle e causando nossa própria destruição. A luta solitária para sobreviver em meio a um caos interno e ao nosso redor é o que restará antes do fim. Isso já está acontecendo e estamos caindo cada vez mais fundo nesse abismo mental e espiritual. O Sol está partindo e com ele a última fagulha de luz que nos resta.

“Esmagando nossos sonhos, tomando o controle
Nos destruindo, arrancando nossas almas
O pesadelo é real
O pesadelo está aqui
Desamparados e perdidos
Afastando-nos cada vez mais de nós mesmos”

Carga inflamável que liga o presente ao passado

O ímpeto profano e impiedoso ocorre em “Adversary”, faixa que revela uma revolta musical gigante e importante para a sequência da jornada. Nesse ímpeto é adicionado uma sequência de riffs poderosos, que abalam as estruturas de todos os planos existenciais. As nuances ocorrem pouco antes dos solos, pois estes são acompanhados por um comboio de carga inflamável, oferecendo mais poder de fogo aos mesmos. Destaque para os riffs que se esticam de forma padronizada pela banda, incluindo o “alarme” harmônico que coloca um brilho a mais na faixa. O trecho final traz o efeito de uma guerra que se aproxima e as bases ganham tons ainda mais escuros para fechar de forma brilhante e obscena.

A letra dessa música traz um modelo que se comunica bastante com o passado da banda, sendo um tanto mais simples e direta, mas utilizando de metáforas tradicionais para recitar de maneira clara seus versos caóticos e lúgubres. E isso vai de encontro com o conflito mental que grande parte das pessoas passa.

Ter um adversário implica em disputar cada palmo de espaço como se fosse o último e, se depender da constante entropia, o espaço anterior já se consumiu sem que pudéssemos observar. O rival é plural e está determinado a não ceder à nenhuma liderança expressiva, por mais bondosa que possa parecer. A fé é a ruína do homem e a verdade é inimiga de Deus.

“Bebo do lago de fogo
Não louvo a nenhum senhor ou messias
A Serpente que testa os piedosos
O Leão que devora os enganadores

Travas a tua guerra, a tua santa guerra contra todos nós
Enfrentarás a fúria, a fúria de mil sóis

Pois não estou sozinho
Nós somos o Adversário”

Aura insana com desfecho mórbido

O primeiro acorde acende as chamas de “Attrition”, causando atrito entre as camadas sonoras e colocando em cena todos os seus componentes para irem na descendente em questões musicais. As composições que formam as bases são banhadas em harmônicos contínuos, que se moldam ou saem de cena, de acordo com o trecho tocado. A cadência evidencia o arrasto dos pedais duplos e o preparo das guitarras e baixo para a arrancada seguinte. Tal arrancada é inserida e contornada por solos agudos e angustiantes, tornando a aura da música ainda mais insana e revigorante. Seu desfecho mórbido e distorcido em meio aos pedais e tons de bateria, a tornam excelente em seu formato.

O atrito em questão trata sobre os conflitos internos e externos entre a humanidade. O avanço para conquistar ou reconquistar algo, ou algum território a ser invadido e controlado. Perseguições inúteis, tragédia em vão, dor e morte cercando a todos. A humanidade envolvida diretamente no processo de autodestruição, intercalando com a degradação de sua própria morada e a do seu vizinho mais próximo. Em nome de algo ou de alguém, o massacre continua levando vidas e mais vidas. Quem será o primeiro a cair? E quem realmente vence quando não resta nada além de ruína?

“Demônios do conflito descem, cuspindo fogo
Raios de morte chovendo sua carnificina, golpeando a terra
Almas perdidas se erguem nos céus cheios de fumaça
A cruzada incessante dos condenados continua

Sem ajuda de Deus
Sem esperança de paz
Sem fim à vista
A morte continua”

A escuridão densa de mais uma faixa calamitosa

Palhetadas velozes ditam o início deste capítulo, logo sendo incorporadas pela carruagem completa. O ritmo intenso toma conta de todo o processo para que “Bend Towards the Dark” domine de uma vez por todas a área reservada para parte central do álbum. A junção com ritmos mais densos e distorcidos trazem um ganho ainda maior para a faixa, que por sua vez, soa mais maléfica ainda. As sequências terminadas por notas mais agudas dão um ar mais gélido para a música, enquanto as variações a tiram do fator comum. A valsa entra em cena, antecedendo aos solos e possuindo riffs que ameaçam cair nas tentações dos solos, mas é somente na parte final que temos um agudo e breve solo, bastante funcional para a trama e tornando-a ainda mais devastadora.

A fé descrita funciona como um escudo para os pecados cometidos. A pessoa veste o véu da falsa verdade e moralidade infame para fingir ser quem jamais foi um dia. Outras pessoas compram essa fé e a proliferam pelos quatro cantos do mapa. De fato, poucos olharão para si e enxergarão a verdade. Poucos acordarão para a verdade. Seus corações ainda bombeiam o veneno que mancha nossas almas e envenena nosso mundo com ódio. A suspensão da razão dá lugar às palavras de baixo cunho, cujo se tornam o centro de todo o significado para quem busca uma falsa redenção.

“Autojustos, consagrados na ganância
Escravos nobres da hipocrisia
Testemunhando os horrores
Seu silêncio os condenará
Para suprimir a luz
Vocês devem se tornar a escuridão”

Alicerce preciso para um descontrole epidêmico

Dessa vez, quem realiza os preparativos iniciais de “Host” é o baterista Steve Shalaty através de seu kit. A condução percussiva leva de encontro ao som intimidador e distorcido das guitarras da dupla Vigna/Bouks. Os dedilhados são rápidos, porém inseridos em harmonias mais carregadas. A bateria realiza o contorno triunfal da jornada e o baixo mantém a estrutura intacta. A velocidade alterna durante o percurso, incluindo tremolos ligados ao Black Metal. Mais adiante, abre caminho para solos mais melodiosos e distribuídos por notas cadentes. A aura densa e sombria permeia a audição e você percebe a presença ilustre e discreta de Dan Lilker. Este inclui vocais rasgados à trama, tornando-a mais áspera e rústica.

Seus versos apontam em metáfora para ao menos três direções: guerra e invasões territoriais – com o espalhar de novas e/ou adormecidas doenças; o espalhar da falsa fé; epidemias virais. Uma liderança que não mede esforços para avançar suas tropas em busca de sucesso próprio, afagando o seu próprio ego. Uma entidade de potência incomparável sendo o centro dos cânticos de louvor em vão. Um inimigo sem rosto que se prolifera através de hospedeiros sem rosto, sem saber onde estão e quando estão servindo de “casa” para este invasor sem nome. Inclina-se mais para o lado doentio, literalmente falando, ao acrescentar o fato de que bilhões estão infectando bilhões, corrompendo a todos.

“Bilhões infectando bilhões, o reino em expansão cresce
A doença viva prospera, corrompendo a todos

Através de cânticos de louvor e orações em vão
Através de céus escurecidos pela névoa

Engula por inteiro este hospedeiro sacrificial e engasgue com nossa morte
Corpo e sangue
Este hospedeiro continua”

Densidade e velocidade contidas em um trem de carga desgovernado

Dedilhados velozes iniciam a jornada sob a luz do chimbal. A aceleração resulta em um comboio de carga sem freio e desgovernado, vindo em sua direção. Não há escapatória e você é atropelado de tal forma que passa fazer parte desse trem de carga infernal chamado “False Ascent”. A junção promove alternâncias de andamento por conta do impacto, ampliando o peso intimidatório da música. A bateria densa, carregada de frenagens, oferece abertura para as guitarras soarem ainda mais imponentes e elegantes ao seu modo. Blast-beats encontram o aço dos trilhos e Ross Dolan fecha o percurso com o último verso, sendo vociferado como um hipopótamo recém saído da água.

Crítica mais direta contra os manipuladores da palavra e que dizem que as respostas estão naquele livro – o mesmo que eles mesmos modificam e inventam coisas de tempos e tempos. A leitura é saudável, mas a leitura manipulativa jamais será. Você não pode crer simplesmente porque alguém em um púlpito disse a plenos pulmões. Gritar não deveria ser solução para nada. Não é mentoria, muito menos sabedoria. Eles subjugam e automaticamente condenam, dizendo o que você pode ou não fazer. Eles são a lei para você e você assimila sem questionar. Os desesperançosos buscam por uma luz, por um guru, por alguém que a levante e diga o que ela tem de fazer.

O caminho do bem na contramão da fé comprada

Entendo que, existem aqueles que realmente buscam o caminho do bem e espalham prosperidade aos demais. Entretanto, ainda é muito pequeno perto dos comandantes do destino de muitos. A fé para esse tipo de liderança é pura moeda de troca, para ampliar o seu arsenal de riqueza e controle dos miseráveis. Miseráveis no sentido de esperarem pela ordem de seu mestre sobre o que deve fazer nos próximos dias, nas próximas semanas. Infelizmente, o embate atual não sai do contorno de uma briga infantil. Isso leva o fanático a ser mais fanático e o descrente a ser mais decrépito e sem qualquer embasamento lógico, apenas bancando o “malvado da turma” para continuar pertencendo a algum grupo inútil.

“Subjugar e assimilar
Conquistados com promessas, esperanças e desejos
Submetendo-se sem questionar
Suas fraquezas, medos e desespero são o prêmio deles

Todos aclamarão
Todos se curvarão
Todos servirão
Seu culto agora

Glória ao Altíssimo
Uma falsa ascensão construída sobre as costas dos devotos”

Guitarras calamitosas e tão geladas quanto a ponta de um iceberg

A jornada de “Banished” promove uma surpreendente climatização, acompanhada por um piano carregado de tristeza e lamento, se tornando fator primordial para a calmaria do disco. Diria que é uma faixa voltada para o Gothic, aliada aos traços de violino, pouco antes da entrada da guitarra. Todo o instrumental inusitado dá continuidade ao processo, enquanto as guitarras seguem num crescendo fundamental para a faixa. Percebe-se que, quem tira folga nesse capítulo é a cozinha da banda. Dessa forma, permite o brilho dos outros instrumentos citados.

O banimento de Lúcifer dos céus é o mesmo banimento da liberdade do ser humano ao ser proibido de pensar por conta própria. O banimento tem suas razões, mas em nome de uma falsa fé, não se pode dizer o mesmo.

Grande apoteose em chamas

A grande apoteose termina com aquela que nomeia o disco. “Descent” inicia de forma incisiva e direta, como um direto no queixo sem prévio aviso. O Immolation desencadeia um rolo compressor através de sua técnica, agressividade e amplitude sonora. Para os versos mais curtos, temos riffs que acompanham, regados a intervalos precisos e totalmente pontuais. Mesmo assim, há notas de sustentação presas a essa engrenagem modular emblemática.

A mudança de ares traz mais murais sonoros, como um verdadeiro abraço de urso a esmagar cada partitura, causando fraturas auditivas no ouvinte. A canção inflama e arde em chamas por meio de palhetadas que mais parecem o motor de uma máquina bem potente. Seguindo em frente, temos uma estrutura ainda mais densa, veloz e robusta, clamando por mosh. Não há clemência e pequenos trechos ligados ao Black Metal através de dissonantes são colocados à mesa e distribuídos de maneira condizente e profana. Nesse aspecto, passa a angariar mais adeptos de sonoridades ainda mais obscenas e vulgares para fazer parte da plateia – isso sendo dito no melhor dos sentidos da obra. O último verso tem mais uma vez a participação de Dan Lilker. Por fim, uma das melhores músicas do disco termina como se estivesse terminando de tocar no rádio do inferno.

A ligação com o seu passado

A faixa-título tinha que tratar diretamente sobre o seu significado e é exatamente isso o que ocorre através de suas estrofes. Os trechos mais curtos trazem lembranças dos primeiros discos, se aliando aos versos mais trabalhados. Porém, toda a estrutura e a letra estão muito bem colocadas. O bom trato entre versos e riffs é uma normal contratual garantida pela banda e, normalmente, não costuma dever nada nesse quesito.

Tudo vai descendo e indo de encontro ao vazio eterno. Verdades, mentes, o retroceder no tempo, a esperança, as almas, simplesmente tudo. Chegamos ao ponto sem retorno, indo diretamente ao buraco negro de nossa existência. Não há ideia do que veremos adiante e, se de fato veremos algo. O nosso prêmio é a nossa própria decadência.

A escuridão, o medo e os pecados, as mentiras, a raiva e a dor. Todo este inferno que criamos, se tornaram costumes milenares e ficaram enraizados em nossas famílias. O “novo” cega a alma do ser não-pensante e o faz rejeitar de primeira. O retrocesso é tido como tradição e a inovação é tida como traição. E por fim, a nossa raça segue a todo vapor em busca da desintegração por completo.

“Nossos costumes arraigados
Profundamente em nossos corações
Não mudaremos
Estamos mergulhando rapidamente
Tão cheios de ódio
É quem somos
As vidas que tiramos
Fomos longe demais”

Considerações efêmeras finais

Muitas bandas de Death Metal costumam utilizar temas satânicos para provocar o lado ortodoxo do tabuleiro, simplesmente. Porém, o Immolation se apega a críticas reais dentro do nosso plano, execrando a falsa fé e bradando contra os conflitos inúteis que as lideranças provocam sempre em nome de algum deus. O Immolation não é contra ter fé, mas é contra a quem propaga a fé que não existe. A verdadeira fé vai além da compreensão da grande maioria das pessoas e vai além de qualquer entidade conhecida. O ato de acreditar que dará certo e que é feito o bem, lutando pelo bem e sem pensar na queda do outro, só porque ele comprou um item novo, é a fonte principal de toda a jornada de “Descent”.

A queda vertiginosa da humanidade é real e, em muitos casos, fatal. Seja pela guerra, pela ganância, pelo espírito vingativo, pela falsa modéstia, pelo ego inflado, enfim. O ser humano teme o seu fim, mas o provoca todos os dias. Basta um velho engravatado ou com roupas típicas de alguma religião possui poder para tal.

Já parou para notar que as guerras nunca acabaram? Você e eu nascemos durante o período de guerra em algum lugar do planeta. Nunca houve paz. Podem haver instantes de calmaria em determinados locais, mas paz…

O conflito e a queda do ser humano

Essa parte externa do conflito humano é ligada ao conflito interno a qual temos todos os dias, uns mais intensos e outros menos. Estamos à beira de um colapso e, não é à toa que muitas doenças mentais têm invadido os rankings de problemas enfrentados nas últimas décadas. O mundo vive sob pressão e dominância de poucos que, por sua vez, são capazes de manipular uns aos outros para nunca perderem os seus respectivos tronos. Em meio a uma população cada vez mais dividida, as guerras (em sentido real e figurado) tendem a se intensificar.

Uma pessoa é capaz de entregar a sua alma para uma liderança ao invés de ouvir algum conselho dos seus próprios pais. Contudo, a queda é iminente, presente e constante. E a parede sonora do Immolation pede passagem mais uma vez para alertar sobre tudo isso e confortar nossas almas pútridas com mais um disco excepcional e REPETACULÊ de Death Metal real, intenso, mórbido, hipnótico, com solos caóticos e “navalhantes”, do jeito que o dono do nanquim virtual aqui aprecia sem moderação. Aprecie “Descent” sem moderação, meu caro e minha cara compatriota.

“Down
We’ll fall forever”

Nota: 9,6

Integrantes:

  • Ross Dolan (baixo, vocal)
  • Robert Vigna (guitarra)
  • Steve Shalaty (bateria)
  • Alex Bouks (guitarra)

Músicos convidados:

  • Dan Lilker (vocal – faixas 7, 10)

Faixas

  1. These Vengeful Wind
  2. The Ephemeral Curse
  3. God’s Last Breath
  4. Adversary
  5. Attrition
  6. Bend Towards the Dark
  7. Host
  8. False Ascent
  9. Banished
  10. Descent
2 comentários
  • Excelente resenha, Stephan!

  • para mim ele quase continuação do excelente “Acts of Gods” mantem o mesmo nivel e coisa adoro essas capas pintadas pura arte jurava era mesmo artista mas e outro mas mantem mesmo nivel de qualidade.

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