Resenha: Heavy Metal Shrapnel – “Heavy Metal Hairspray” (2026)

O Heavy Metal Shrapnel nasceu como uma homenagem do virtuoso guitarrista Andrew Lee à lendária Shrapnel Records. Para quem não conhece sua importância, a gravadora é amplamente reconhecida como a principal responsável por definir e popularizar os movimentos da guitarra shred e do Metal Neoclássico durante a década de 1980. Fundada pelo produtor Mike Varney, ela se consolidou como o mais influente selo independente voltado ao virtuosismo guitarrístico, revelando talentos que mais tarde se tornariam referências mundiais.

Foi através da Shrapnel Records que músicos como Yngwie Malmsteen (com o Steeler), Paul Gilbert (Racer X), Marty Friedman e Jason Becker (Cacophony), Tony MacAlpine, Vinnie Moore, Richie Kotzen e Greg Howe alcançaram projeção internacional. A influência da gravadora foi tão significativa que seus lançamentos ajudaram a moldar gerações inteiras de guitarristas e estabeleceram novos padrões técnicos dentro do universo do Heavy Metal.

Além disso, a Shrapnel também contribuiu para popularizar os álbuns instrumentais de guitarra. E isso inspirou diretamente o primeiro trabalho do projeto, “Andrew Lee’s Heavy Metal Shrapnel”, lançado em dezembro de 2021. Naquela ocasião, o foco estava justamente na celebração do virtuosismo instrumental. Entretanto, para este segundo disco, Andrew Lee decidiu seguir um caminho completamente diferente.

O retorno da era dos cabelos armados

O título “Heavy Metal Hairspray” praticamente entrega a proposta do álbum. Para concretizar essa ideia, Andrew Lee recrutou o experiente vocalista Mark Boals, eternizado por sua participação no clássico “Trilogy”, de Yngwie Malmsteen. A promoção do trabalho chegou a utilizar o slogan “The comeback of big hair and even bigger riffs” (“O retorno dos cabelos volumosos e de riffs ainda maiores”), uma declaração que sintetiza perfeitamente a essência do disco.

Como o próprio termo “hairspray” faz referência ao laquê, não demora para percebermos que estamos diante de uma clara homenagem ao universo do Glam Metal e do Hair Metal. Contudo, a proposta vai além da simples nostalgia. Andrew Lee demonstra inteligência ao equilibrar influências de grupos como Mötley Crüe, Ratt e Cinderella com elementos tradicionais do Heavy Metal norte-americano, especialmente do chamado US Metal, aqui representado por bandas como Jag Panzer, Fifth Angel, Riot e Impellitteri.

Lançado em 27 de março pela Nameless Grave Records, o álbum apresenta nove faixas distribuídas ao longo de pouco mais de 34 minutos. O resultado é uma audição extremamente agradável, dinâmica e sem qualquer sensação de excesso. Quando o disco termina, a vontade imediata é apertar o play novamente. E isso é algo que certamente favorece tanto a assimilação das melodias quanto a identificação rápida dos principais destaques do repertório.

Canções diretas e refrãos memoráveis

A proposta do álbum chama atenção justamente por evitar aquilo que muitos poderiam esperar de um projeto liderado por um guitarrista de perfil técnico. Embora Andrew Lee possua habilidade de sobra para exibir sua destreza, ele prefere colocar as músicas em primeiro plano. Assim, em vez de uma coleção de exercícios de velocidade, encontramos composições acessíveis, repletas de refrãos fortes, riffs cativantes e estruturas bastante objetivas.

Nesse contexto, o desempenho de Mark Boals inegavelmente merece destaque especial. Dono de uma voz poderosa e tecnicamente impecável, o cantor demonstra maturidade ao dosar seus recursos. Em vez de transformar cada música em uma disputa de notas agudas, ele privilegia interpretação, melodia e bom gosto, características que fortalecem ainda mais o material apresentado.

Os momentos mais explosivos surgem em faixas como “Dance In The Stars”, “Love Is A Racket (Baby Grab My Handle)” e “Heavy Metal Loudness”, que entregam doses generosas de energia e peso. Por outro lado, canções como “Beyond The Crystal Screen” e “Too Old To Rock And Roll” apostam em abordagens mais descontraídas, incorporando elementos do Hard Rock e melodias carregadas de espírito festivo.

Entre a nostalgia e a personalidade própria

A balada “When Love Isn’t Enough” parece ter atravessado um portal direto dos anos 1980. Sua construção remete às grandes power ballads da época sem soar artificial ou caricata. Já a instrumental “Launch Code To The Nuclear Payload” funciona como uma lembrança de que estamos ouvindo um trabalho concebido por um guitarrista apaixonado pelo instrumento. Ao mesmo tempo, ela resgata uma tradição quase esquecida: a presença de faixas instrumentais marcantes nos discos de Heavy Metal.

As músicas que abrem e encerram o álbum — “Heavy Metal Hairspray” e “Heavy Metal Overdose” — possuem todos os ingredientes necessários para se tornarem favoritas dos fãs. Curiosamente, ambas transitam com naturalidade entre o Heavy Metal tradicional, o Hard Rock e o Glam Metal, reforçando uma das maiores qualidades do disco: sua capacidade de dialogar com diferentes públicos sem perder identidade.

No fim das contas, “Heavy Metal Hairspray” funciona simultaneamente como homenagem, celebração e exercício de nostalgia. A produção, deliberadamente orgânica e com forte sensação analógica, contribui para transportar o ouvinte para outra época sem cair em exageros ou soar como mera reprodução do passado. Existe um cuidado evidente em capturar a essência daquele período enquanto se preserva personalidade própria.

Estamos diante de um álbum extremamente divertido, bem executado e repleto de músicas que permanecem na memória após poucas audições. Talvez sua maior virtude seja justamente essa: oferecer entretenimento de alta qualidade sem complicações desnecessárias. Para os fãs dos anos 1980, do Heavy Metal, do Hard Rock e do Hair Metal, trata-se de uma audição altamente recomendável.

Nota: 8,8

Integrantes

  • Andrew Lee — guitarra, baixo e sintetizadores
  • Lawrence Hood — baixo
  • Alex Zalatan — bateria
  • Mark Boals — vocal

Faixas

  1. Heavy Metal Hairspray
  2. Beyond The Crystal Screen
  3. Dance In The Stars
  4. When Love Isn’t Enough
  5. Love Is A Racket (Baby Grab My Handle)
  6. Too Old To Rock And Roll
  7. Heavy Metal Loudness
  8. Launch Code To The Nuclear Payload
  9. Heavy Metal Overdose
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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