Resenha: Hate – “Bellum Regiis” (2025)

Falei tanto do Hate ao resenhar ótimos lançamentos de bandas polonesas que uma hora seria a vez da própria ser resenhada. E esse momento chegou, pois um dos grandes nomes do Metal extremo do país de bandeira alvirrubra lançou seu décimo terceiro álbum de estúdio. “Bellum Regiis” foi lançado no dia 2 de maio via Metal Blade Records. ATF Sinner é, com toda a certeza, uma das mentes mais criativas dentro da música extrema e carrega com afinco a bandeira do Hate por todos esses anos.

O Hate é uma banda que tem lançado discos com frequência e todos os trabalhos têm sido acima da média, assim mantendo um bom nível de qualidade junto a uma discografia de respeito. Portanto, trata-se de uma trajetória a qual se pode confiar tranquilamente quanto a um próximo trabalho. Mas será que “Bellum Regiis” segue a cartilha dos bons álbuns do Hate? Veremos a seguir.

Antes disso, temos mais um pouco de informação sobre o novo álbum para ser inserida nesse papiro musical.

“Bellum Regiis” foi produzido por David Castillo (Candlemass, Carcass, Dark Tranquillity, Katatonia, entre outras) Gröndahl Studios. Daniel Rusiłowicz é quem assina a ótima arte da capa, enquanto Tony Lindgren ficou a cargo da masterização. Além disso, o registro contou com dois convidados para as gravações: Eliza Sacharczuk (vocal feminino) e Michał Staczkun (samples e sintetizadores). Contudo, a temática envolve de forma profunda sobre várias referências históricas e mitológicas. Assim sendo, tanto eslava quanto grega e partindo do seguinte questionamento: “Somos mais autênticos quando possuímos poder ou quando nos rebelamos contra ele?”.

Encarando a guerra do rei sob os olhares catastróficos do Hate

Existem três guerras que envolvem esse percurso do Hate. A mais destacável e palpável que é a temática (não é um álbum conceitual); a musical relacionada à banda, dando sequência à sua atual trajetória; e por fim, a busca em atingir o fã da banda e de Blackened Death Metal em geral de forma abrangente. Certamente, uma complementa a outra e isso acaba sendo um grande banquete para que é adepto desse tipo de sonoridade.

Dito isso, podemos logo dizer que a banda estava muito confiante ao colocar logo a faixa-título como abertura do álbum. Pode até passar a sensação de que as faixas seguintes não sustentem o trabalho, mas somente ouvindo o álbum completo e com a devida atenção é que podemos tirar quaisquer conclusões a respeito.

Hate/Bandcamp

Hate e a vitória sobre o vazio

“Bellum Regiis” inicia a jornada impetuosa de maneira agressiva, porém com melodias timbradas em puro sofrimento. Seu início apresenta uma parede teatral de forma catastrófica, acompanhada por melodias lúgubres e uma breve narrativa. Esta por sua vez, recebe a companhia da bela voz da vocalista Eliza Sacharczuk. Logo em seguida, temos a devastação sonora perante nossos tímpanos. ATF Sinner une os seus vocais cavernosos e formidáveis às suas bases de guitarra, permeando e semeando o ambiente com a mais pura desgraça. De fato, uma das coisas mais impressionante é a semelhança em determinados momentos com o conterrâneo Behemoth. Isso acontece, principalmente, nos trechos serrilhados e com intervalos entre as palhetadas insanas.

Entretanto, a estrutura do próprio Hate nunca foge à risca e isso mantém o equilíbrio entre o peso, a velocidade, a cadência e os lamentos em dedilhados repletos de melancolia e desgraça. O enxofre foi despejado com louvor e afinco por aqui, mas ainda haverá mais sazon do inferno logo a seguir. Realmente, por conta do dedilhado e intro breves fica notório o acerto em colocar a canção homônima como abertura da cratera musical. E aqui temos uma junção do Blackened Death com o Death/Black de maneira sábia e muito sagaz, além dos solos condizentes com a trama lamuriante e arrebatadora.

Sobre os versos em prosa, temos uma uma roda de fé derretendo em nosso sol abençoado, onde há palavras em pedra concedidas pelos Antigos. Contudo, a grande Árvore da Vida está com seus galhos queimando lentamente. Ou seja, somos vitoriosos sobre o vazio! Vitoriosos sobre a ganância sem sentido, além do que. todos nós pregamos o sermão da lança!

Os tilintares enegrecidos de Iphigenia

A sorte foi lançada e o destino para o fim foi traçado. O sacrifício à luz dos Reis é o que prevalece diante da guerra. A introdução de “Iphigenia” te coloca em território hostil antigo e também atual, na qual pode ser feita uma combinação de fatores que igualam passado e presente na ala mais fúnebre da humanidade. A morbidez da canção e os dedilhados cheios de mistério enobrecem o olhar vazio do ser.

O ritmo em harmonia com os trabalhos de Michał Staczkun com seus samples e sintetizadores funcionam muito bem para a condução da história. Tiermes conduz o seu baixo e o torna um martelo de guerra nos trechos com aquela frenagem maravilhosa do estilo. Os momentos mais extremos funcionam como uma espécie de alavanca para jogar toda a sujeira para o alto e revelar o poderio infernal e massacrante da banda movida pela locomotiva percussiva. De fato, estamos conclamando o baterista Nar-Sil.

Os solos de Domin reforçam os dizeres sobre nuca jurar lealdade a ninguém. Afinal, nenhum líder estará ao seu lado durante seus últimos suspiros após uma lança atravessa no peito por culpa daquela figura a qual você um dia se curvou.

“Aniquile o medo, crie o vazio que está vivo Dê sua alma! A centelha – um reflexo da verdade No fim, o império desaparecerá para morrer Aprendam comigo! Não jurem lealdade a ninguém Eu ficarei com vocês no fim que se aproxima Com uma lança atravessada no peito! Inquebrável! Na luz dos Reis Eu permaneço! Na luz dos Reis!”

A força da vanguarda para lavar o mundo com a guerra das guerras

A música grave, rústica, agressiva, porém repleta de beleza iluminada pela lua cheia, caminha com o intuito de prevalecer em meio à escuridão. Isso funciona como uma fonte de energia maligna para a mesma e faz com que os seus adeptos armem-se e se aprimorem para o embate musical. “The Vanguard” marcha surge em meio ao horizonte sob o nascer do sol pouco brilhante se aproxima, acompanhado pelo pano de fundo e pelos primeiros riffs em volume baixo. Assim, simulando a distância da guarda avançada.

Logo, a canção se faz presente e a chuva de riffs incineradores dão o ar da desgraça. ATF Sinner comanda a tempestade de chamas negras em meio a um lugar em que só há esperança… na guilhotina! Os solos de guitarra proferidos por Domin tornam visíveis os momentos de queda dos reinos, com esfinges sendo decapitadas e leões de pedra esmagados. Em verso, encontramos figuras e lugares milenares capazes de nos transportar para tais momentos da história, seja ela realmente vivida ou folclórica.

“Coração de Corvo! Deus estelar consagrado Logos citas nascidos das chamas Coração de Lobo! Queima em nossos peitos! Segurando a lança do altar mais alto A Vanguarda! Unidos permanecemos Alimentados pela impiedade Derramando ódio sobre o mundo sagrado”

Ao chamado, riffs estridentes tomam conta do percurso, com o andamento modificado nos momentos propícios para tal. No entanto, vemos que isso intensifica a proximidade da batalha e acrescenta mais tempero ao caldeirão borbulhante polonês. Isso mostra que a banda está em ascensão e reforça o ímpeto sobre os dizeres para brilhar em frente, sendo a luz vingativa dos deuses sem templo.

Pela graça da luz negra, os soldados da alvorada obtusa marcham com vontade para o ataque ser completamente marcante e histórico. A mudança ocorrerá através da graça dessa luz, que por sua vez, parte de um santuário esculpido com espada abençoada pelo fogo. Afinal…

“Pois tudo o que há para alcançar é queimar com chamas vivas! Viemos para ser ceifeiros onde o ódio é tão profundo Tão alto, tão cego, tão distante”

O equinócio e as figuras eslavas Triglav e Perun

Você e eu estamos diante de acontecimentos e mistérios mitológicos revelados, porém nada por aqui se acalma e inferno musical segue sendo instaurado e aprofundado, como bem deve ser.

Órion está em chamas em meio a uma estrada estelar dos não-nascidos. O início alavancado das estruturas musicais nefastas de “A Ghost of Lost Delight” avançam novamente em revoada ao fim da vida. O deus eslavo Veles da terra, das águas, do gado, caminhando com seu gado. O caminho em meio aos dedilhados e peso com média velocidade leva para a estrada onde a vida termina e a morte começa.

Enquanto ainda há esperança para o amanhecer cerúleo, as guitarras e o baixo são colocados em modo de combate. Com isso, o andamento da canção cresce e as nuances ganham maior alcance e visibilidade. Dentre as faixas percorridas, essa se apresenta como a mais diferenciada e trazendo elementos de Rotting Christ e Necrophobic. Por fim, o tecido que cobre os fundos do cômodo sonoro se faz presente a ponto de tornar tudo ainda mais sombrio, abrindo passagem para os fantasmas da perdição ressuscitarem e se fundirem ao equinócio.

“Desamparados! Perdidos para o mundo!
Abandonados! Perdidos para o mundo!
Desamparados!
Abandonados! Perdidos para o mundo!”

Na emenda temos a intro tribal, e ancestral “Rite of Triglav”. Triglav, divindade eslava de três cabeças, oferece o seu poder junto à ala percussiva e ao tecido de fundo em um formato passageiro.

“Perun Rising” surge para trazer um andamento mais tradicional de Death Metal com trechos de condução de pratos em meio a uma marcha de guerra, além de blast beats com afinco e precisão. Perun é uma espécie de Zeus e comanda todo o panteão eslavo. Os versos em favor da ascensão deste deus são colocados às claras, mas em formato de poesia profana. Dentre todas as canções até aqui, esta é a mais direta do álbum.

A deusa da guerra e o profeta

Ela representa uma flor do mais alto ramo dourado para adorar. Refere-se a uma deusa da guerra de um universo próprio, com características selvagens, incontroláveis e sedutoras. Essa á figura ilustrativa e que conversa com a canção “Alfa Inferi Goddess of War”. Alfa Inferi vem no formato de agressividade com toques de balanço mórbido, assim convergindo com seus temperos audaciosos e incessantes de pura fúria.

Os dedilhados melancólicos e gélidos se unem aos hammer on e pull of, complementados por tremolos tradicionais do Black Metal. Todavia, a canção permanece no Metal da morte por quase que sua totalidade. Há uma pausa proposital após as bravas nuances agudas de guitarra em contemplação à criação no útero negro do espaço e do tempo. Portanto, vem a ser uma retribuição da deusa da guerra incrivelmente brilhante. Aonde nenhuma força pode destruir sua canção do crepúsculo!

“Você é uma testemunha da devoração
Da última primavera do homem
Finalmente reunidos na prisão do destino
Vivos em nossa morte, mortos em nossa vida
Somos criadores que nos criamos
Por nosso direito”

“Prophet of Arkhen” traz questões sobre o que é existir e o que é morrer. Pode parecer muito simplório à primeira percepção, mas a complexidade e magnitude está implícita. Tanto nas questões quanto na letra da canção em si. O profeta nunca traz palavras diretas em seu contexto, pois a sua filosofia é milenar e abrange toda a cadeia temporal. A canção mistura pontos temperamentais com passagens mais densas e compassos vagarosos. Tudo é ligado a passagens com palhetadas mais velozes e com intervalos de acordo com o alicerce constituído pela mesma.

Pode ser considerado um breakdown essa parte, porém ela se eleva e adentra outra região pantanosa abre caminho para outras conjecturas dentro do estilo. Dedilhados melancólicos, harmônicos breves e acordes raivosos atraem as mensagens proféticas para darem um mergulho em trechos com mais dedilhados e passagens variadas, culminando em um final digno.

Photo by Daniel Rusilowicz

A apoteótica e literal harpa eterna da diabrura

Primeiramente, é bom ressaltar que não há harpa na canção. Mas podemos colocar as guitarras como grandes harpas eternas da diabrura. É assim que “Ageless Harp of Devilry”, grande apoteose do disco, entra em cena e eleva novamente as chamas negras infernais além do topo da mais alta torre do submundo.

A canção começa sem pestanejar, soltando todos os seus demônios para o campo de guerra. Os dedilhados representam a harpa e o cenário é enriquecido com urânio colhido nas profundezas do inferno, logo abaixo do trono do Senhor de tudo. A bateria simula um verdadeiro tanque blindado, que vai esmagando crânios por onde invade e as guitarras funcionam como um sonar aos caminhantes em desespero.

Riffs abafados surgem e complementam a passagem da triunfante canção. A melhor faixa do álbum se deleita em solos arrepiantes e torturantes para os amedrontados por poemas de amor. Aproveite, pois o amor está no ar! Essa é a valsa certa para bailar com sua amada por entre os campos minados e trincheiras com pilhas de corpos. Esta é a harpa eterna da diabrura! Deixe-os dançar ao som da sua melodia e ao som da força com chamas majestosas transportadas pelo céu. E enquanto o hino é tocado a profecia revelada, você Deixa-se ascender e a abraçar a estrela dourada da sua mente.

Por fim, a massa sonora vai se moldado conforme o triunfo da história. Em esplendor e perfeição e somente na escuridão nossa verdade pode ser vista. Aqui, você poderá enxergar tudo isso por entre os interlúdios dos riffs que antecedem os dedilhados soturnos e densos como poças cheias de lama e sangue.

“Em esplendor e perfeição e somente na escuridão
Nossa verdade pode ser vista
Vejam! Nós somos a vela
No templo da tempestade, em nosso perfeito
Domínio do campo estelar!”

Breves constatações odiosas

O Hate vinha de um grande trabalho, o ótimo “Rugia”. Porém, a sequência de bons resultados não poderia parar. Assim sendo, coube a “Bellum Regiis” a missão de manter o tanque de guerra polonês intacto. Por fim, a soberania do time de ATF Sinner se fez mais que competente, mostrando novamente o verdadeiro triunfo dentro do Metal extremo.

O novo disco traz melodias cativantes e com aquela sensação congelante necessária. ATF não possui somente um vocal excepcional para o estilo de som, mas as suas bases formam uma união muito forte com o guitarrista solo Domin. Tiermes coloca o seu contrabaixo nos locais certos e na medida certa. Quando precisa aparecer mais ele vem à tona e quando é preciso manter o alicerce coeso e firme, se faz presente também. E por último, a máquina de moer crânio que atende por Nar-Sil apresenta um trabalho muito acima da média para os padrões do subgênero.

Em resumo, a Polônia está em grandíssima fase e o Hate faz parte dela. Ouça o novo trabalho do Hate e tenha um ódio profano maravilhoso!

“Sic Luceat Lux, let there be the rain
Sic Luceat Lux, wash it all away
Sic Silvery Moon, ignite the rain
Sic Luceat Lux, ignite a lifetime
Sic Luceat Lux, wash it all away
Sic Luceat Lux, a pouring storm
Sic Luceat Lux, ignite a lifetime
Sic Luceat Lux, strike a spark
Sic Luceat Lux, let there be the rain
Sic Luceat Lux, ignite a lifetime”

nota: 9,0

Integrantes:

  • ATF Sinner (vocal, guitarra rítmica)
  • Domin (guitarra)
  • Tiermes (baixo)
  • Nar-Sil (bateria)

Faixas:

1. Bellum Regiis
2. Iphigenia
3. The Vanguard
4. A Ghost of Lost Delight
5. Rite of Triglav
6. Perun Rising
7. Alfa Inferi Goddess of War
8. Prophet of Arkhen
9. Ageless Harp of Devilry

Deixe seu comentário