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Resenha: Frozen Soul – “Glacial Domination”

Century Media Records

   

Sua cela é escura e repleta de insetos asquerosos. Nem mesmo aqueles seres abaixo de toda a existência temem sua presença. Os ratos que antes fugiam do ser humano, aqui lutam contra você por um pedaço de pão duro e mofado. Seus grilhões já não mais comportam suas mãos, agora tão magras que o osso se torna visível. As correntes que o mantinham em um espaço confinado, agora não mais te prendem. O que parecia ser a premissa para sua fuga, agora é substituída pela desesperança.

Os castigos do carrasco já não são mais constantes, até mesmo para a diversão sádica dele você não serve mais. As feridas putrefadas cicatrizaram várias e várias vezes, mas a cada movimento de seu corpo, elas se abrem e se dilaceram mais e mais. Talvez aquela morte que tinha medo tivesse o livrado de tamanho sofrimento. Escapar é o último de seus pensamentos, afinal suas forças já são escassas e seu raciocínio débil. Talvez agora, seu livramento seja retirar a própria vida.

Desespero, medo, incerteza da própria vida e existência. Essa é a receita para amedrontar. Se você quer que seus leitores/ouvintes se assustem, invista nesses pontos. Agora, se deseja deixá-los paralisados de terror, adicione carnificina e ideias de isolamento total. O psicológico humano nunca estará pronto para sobreviver a tais coisas juntas. Por mais que filmes clássicos como Halloween, A Hora do Pesadelo, Sexta-feira 13, tenham se tornado quase comédia em nossos dias, eles passam bem a ideia de viver seus últimos momentos de vida com desespero e medo. Esses sentimentos passados de uma forma tão bem feita nos transportam para dentro das cenas e nos dão a mesma agonia da qual o personagem está passando. E no som, não é diferente.

Terror, agonia e Death Metal!

O nome de longe já explica muita coisa sobre o que esse estilo quer passar. Death Metal surgiu como algo que era para ser feio, mas diferente e impactante. Os primeiros registros que temos do estilo falavam de violência, morte e… Filmes de terror. A cultura dos filmes slashers/assassinos seriais/sobrenaturais movimentaram aqueles jovens que amavam o som grotesco. Um exemplo claro é o primeiro disco do Death “Scream, Bloody and Gore”.

No tracklist deste petardo fomos agraciados com obras como “Zombie Ritual” (baseada no filme italiano “Zombie” de 79), “Evil Dead” (baseada no filme “The Evil Dead” de 81), “Regurgitated Guts” (baseada no filme “City of the Living Dead”), “Torn To Pieces” (baseada no filme “Cannibal Ferox” de 81), “Scream Bloody and Gore” (baseada em “Re-Animator” de 85) e “Beyond The Unholy Grave” (baseada em “The Beyond” de 81).

Então é muito “saudável” e inteligente assumir e aceitar que o Death Metal sempre esteve ligado a esse lado mais grotesco da dramaturgia. Abraçar essa narrativa enriquece significativamente a banda. E é assim que o segundo lançamento do Frozen Soul se apresenta.

Frozen Soul

Nascidos nos Estados Unidos, o quinteto texano apresentou (de forma excelentíssima) seu primeiro lançamento em 2021. “Crypt of Ice” é um disco conciso do início ao fim, com peso e sujeira na medida. Mas acima de tudo, focando no clássico e old School. Sem firulas, sem invenções. Direto e acertivo como deve ser. Neste ano de 2023, é lançado o segundo trabalho desses amantes do estilo. “Glacial Domination” é literalmente a continuação do primeiro lançamento da banda. Agora com uma produção mais caprichada, as 11 composições são assustadoramente bem construídas e nos transportam a década de 80.

Da esquerda pra direita: Samantha (baixo), Chris (guitarra), Matt (bateria), Michael (guitarra) e Chad (vocais) – Reprodução

A abertura do disco é dada pela insalubre “Invisible Tormentor”. Mostrando que além da cadência esmagadora, a banda pode ser excelente em sua velocidade. Com riffs rápidos e um vocal assustadoramente grave, o disco promete entregar mais do que um aglomerado qualquer de faixas. Uma coisa que chama atenção é o trabalho no refrão da faixa, que acompanha de forma magistral o andamento do instrumental, seja veloz ou mais lento.

Terror e Metal!

Na sequência, escolha o seu instrumento de tortura, pois o “Arsenal of War” é gigantesco. Como deve ser, no estilo clássico do Death Metal Old School, a faixa é construída com uma força esmagadora. Refrões brutais, cortes de tempo insanos, e muito sangue jorrando. Os riffs diretos e sem firulas acrescentam ainda mais a sensação de localidade no tempo, dando aquele gostinho dos anos de ouro do Death. Além de tudo, o backing vocal excelente de Reese Alavi (Creeping Death) da mais profundidade e peso as linhas cantadas por Chad.

Em continuação ao banho de sangue sonoro, “Death and Glory” retrata exclusivamente uma guerra sanguinolenta de riffs. Com um andamento que vai de veloz até cadenciado com uma sagacidade única, cada segundo da obra é um deleite para a audição. Mas que rufem os tambores, pois o verdadeiro grito é dado em “Morbid Effigy”.

   

Com uma introdução digna de assustar, a composição completa se torna insanamente brutal. O peso do instrumental é absurdo, a dupla Michael e Chris simplesmente detonam. Além disso, cada pancada na bateria de Matt é como se levássemos um soco no peito. Mas mais brutal e pesado que isso é a participação vocal de John Gallagher do Dying Fetus. Seu vocal colossal da mais peso a essa barbaridade sanguinária. Por fim, digo sem medo, simplesmente uma faixa digna de replays infinitos.

Chad Green, a voz do Frozen Soul

Back To The Basics

Em “Annihilation” ouvimos uma trilha que aparenta ter sido tirada de algum filme oitentista, situando ainda mais a ideia de um disco old school. E por isso “Glacial Domination” chega para comprovar que o bom e velho Death Metal não morreu. Assim como antigamente, riffs putrefados, uma cozinha simples e brutal e vocais grotescos tomam conta de toda a obra. Fica em destaque a excelente participação de Matt Heafy (Trivium). Os backing vocals de Matt encaixam com excelência na obra e sua participação com solos é enriquecedora. Uma obra completa.

Novamente trabalhando com sintetizadores e uma ambientação excelente (essa a cargo de James ‘Gost’ Lollar), “Frozen Soul” apresenta uma continuidade nos riffs muito satisfatória. Em resumo, É a velha simplicidade que resolve todos os problemas. Um destaque para o peso exorbitante no baixo de Samantha que arrasta toda a essência da obra. O refrão grudento e bem construído irá faze-lo repetir “Your Frozen Soul will be… entrapped!”. Na continuação, ouvimos “Assimilator” que segue o mesmo princípio de sua sucessora, mas com um pouco mais de velocidade. Mesmo se tratando de uma composição clássica, sua posição no disco a desfavorece. Ela pode passar um pouco despercebida ao ouvinte devido a sequência de obras apresentadas, mas isso não tira o peso excelente da obra.

Em questão visual a união das duas músicas é insana. O uso delas para compor o clipe é grotesco e repleto do bom e velho clichê americano de terror/slasher.

Direto e reto

É de conhecimento que os vikings e os bárbaros eram temidos por todos em sua época, mas pior que eles era morrer por congelamento. Imagine-se, preso em uma imensidão branca, sem saída. Aos poucos cada membro do seu corpo começa a deixar de funcionar, suas articulações não respondem, o gelo já não esfria, ele queima a sua pele. Desesperadamente você se debate, mas sente que cada vez mais o seu coração perder forças. Aos poucos, suas veias sucumbem ao frio. Por não poder fazer nada para sair daquela situação, lentamente sua morte chega.

“Best Served Cold” nos remete a isso. O começo enérgico da música é como se você lutasse pela sua vida, enquanto aos poucos seu próprio corpo se entrega a morte. Inicialmente enérgica, a faixa aos poucos caminha para uma aceitação sublime. Agora chegamos a reta final do disco, e talvez no ponto mais baixo dele (para esse que vos escreve). Mas lembre-se, em um lançamento bom, as músicas abaixo da média não são necessariamente ruins. “Abominable” é a segunda participação de Matt Heafy e talvez a música mais simplória do disco. Bases simples, vocais comuns e um andamento bem “mais do mesmo”. Não é ruim, repito, mas não empolga.

Frozen Soul ao vivo – Em 2022 / Reprodução

Finalizando com explosões

Diferentemente das anteriores, a faixa de finalização do disco, “Atomic Winter”, é como uma bomba que limpa toda a vizinhança. Densa, cadenciada e cheia de personalidade, a composição soa excelente. Para os amantes daquele Death Metal nos moldes Bolt Thrower e Asphyx, aqui encontrará a obra prima da banda. Simplesmente uma finalização descente para o disco!

É claro, em um ano com ótimos lançamentos, fica difícil de escolher os 10 melhores de casa estilo. Infelizmente, “Glacial Domination” não figurou eu nossa lista, mas com toda certeza, seria uma excelente adição!

Nota: 8,9

Faixas:

  1. Invisible Tormentor
  2. Arsenal of War
  3. Death and Glory
  4. Morbid Effigy
  5. Annihilation
  6. Glacial Domination
  7. Frozen Soul
  8. Assimilator
  9. Best Served Cold
  10. Abominable
  11. Atomic Winter

Integrantes:

  • Samantha Mobley (baixo)
  • Michael Munday (guitarra)
  • Chad Green (vocal)
  • Matt Dennard (bateria)
  • Chris Bonner (guitarra)

Redigido por Yurian ‘Dollynho’ Paiva

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