Resenha: Ensanguinate – “Death Saturnalia (With Temples Below)” (2026)

Certas bandas e discos surgem tão de repente que, o choque ao ouvir acaba sendo iminente. Obviamente que, isso se refere ao fato de quando a música ou o álbum em específico é bom de verdade. Ensanguinate é o nome desta criança birrenta e pirracenta, mas que sabe bem o que faz no quesito música agressiva de qualidade.
Diretamente da Eslovênia, território com o ar mais puro do mundo e também com um dos principais esconderijos da antiga KGB, o Ensanguinate surgem como um agente secreto indo de encontro ao seu alvo: o adepto de Metal extremo.
Indicado por um dos nossos grandes apoiadores e grande fã do estilo, Thiago Serafim, a banda eslovena apresenta algo que nem todas as bandas emergentes possuem – o tal do equilíbrio dentro de uma parede de som sólida e impetuosa.
Ensanguinate: o sangue renovado da Eslovênia
A banda de Black/Death Metal é oriunda de Ljubljana, capital eslovena, datada em 2020. Ou seja, a banda surgiu em meio a um momento ultra tenso e turbulento no mundo e sem shows sendo realizados. Mesmo assim, a banda nasceu e resistiu bravamente para conseguir lançar seu álbum de estreia. “Eldritch Anatomy” foi lançado em 2022, porém seu primeiro registro oficial foi exatamente no ano de sua fundação. A banda lançou a demo intitulada “Entranced by Decay” e, portanto, iniciou sua jornada musical.
Partindo para os dias atuais, “Death Saturnalia (With Temples Below)”, segundo álbum de estúdio, foi lançado no dia 6 de fevereiro via Soulseller Records. A obra apresenta 8 faixas, sendo divididas em pouco mais de 40 minutos de duração. Ou seja, é aquela quantidade de faixas e tempo ideal para uma audição equilibrada e com menor chance de “barrigadas”.
A banda é formada por quatro integrantes com pseudônimos em siglas. A.C. (Andrej Čuk, guitarra e vocal), G.C. (Grega Cestnik, bateria), J.C. (Jaka Črešnar, na guitarra), K.O. (Krištof Ocvirk, no baixo). Vale destacar que, o codinome do baixista lembra a época boa dos fliperamas.
O próprio A.C. cuidou da mixagem, masterização e layout. Dávid Glomba assina a capa do álbum e sigil por Entitatem Null. Voltando à capa, esta lembra bastante as capas do Bewitched. Principalmente, “Diabolical Desecration” (1996) e “Rise of the Antichrist” (2002), muito por conta dos traços das ilustrações.

Com a palavra, o próprio Ensanguinate:
“Inspirados por bandas como Morbid Angel e Grotesque, bem como Dissection, Repugnant, In Solitude e The Devil’s Blood, somos canais para o vazio profundo.”
Agora que entendemos um pouco sobre o território novo a ser explorado, vamos ao que interessa! Detectar os principais pontos do disco.
O quarteto carrega siglas, mas a sonoridade traz um alfabeto de emoções
Oito faixas denotam a ideia de um LP divido em lado A e lado B, respectivamente. Portanto, a primeira ideia de nostalgia já parte disso. Entretanto, a banda não está aqui para uma simples ode ao passado. Está aqui para apresentar o seu trabalho com a sua própria assinatura e, a meu ver, conseguiram com bastante êxito.
O Ensanguinate traz uma receita forte do passado, porém untada à forma do presente e com espaço para projeções futuras. Tudo isso, dentro do Black/Death Metal real e coeso, sem nenhum tipo de luxúria barata, musicalmente falando.
A banda eslovena apresenta em seus versos temas como: ocultismo, misticismo sombrio e morte. A ênfase é baseada em rituais ancestrais, com referências a cultos esquecidos e cerimônias de sacrifício. A escuridão metafísica, incluindo a exploração do abismo e de entidades que habitam o “abaixo dos templos”. E também podemos destacar o niilismo espiritual, sendo observado através de uma visão crua e antirreligiosa que celebra o fim e a decadência da carne.
Divindades femininas, rituais de sangue, transgressão e poder
Dentro desse espectro citado acima, temos os pontos principais e primordiais para que a roda da vida sonora gire livremente. O álbum é dedicado a figuras como Kali, Ereshkigal e Lilith, vistas como forças primordiais de criação e destruição, não meros ornamentos. Além disso, o trabalho explora o poder transgressor e o misticismo europeu, tratando a música como uma verdadeira invocação ao invés de simples homenagem.
E em meio a todo esse ritual sombrio, também há grande obsessão por imagens de putrefação e devoção às cegas junto aos tempos corrompidos.

Ritual transgressor…
…Daqueles de abalar e rachar as estruturas de um templo, por mais forte que ele possa parecer. Suas defesas não irão segurar jamais o ímpeto incessante de “Angel of a Thousand Poisons”. Porém, antes disso temos a faixa introdutória chamada “Lámia”. Seu início apresenta um misto de misticismo, mistério e trilha de Resident Evil (o game), principalmente os clássicos, colocando certa apreensão logo a princípio. Tal intro serve como um abrir de cortinas negras para o voo do anjo dos mil venenos rasgar os céus em tom escuro.
Ao primeiro rufar de tambores, tempos uma desgraça sonora plena e cativante ocorrendo logo de cara. É perceptível a junção entre o Death e o Black Metal em cada trecho da música. Isso mostra o empenho da banda em construir algo coeso e com veracidade. A estrutura principal pende para o lado mais sombrio e nefasto da força, enquanto arte musical “valsante” e sangrenta é inserida como um belo complemento para a obra. O som se divide bem entre as duas linhas, além de possui uma cadência inteligente com dedilhados agonizantes e cortantes como uma navalha lenta sedenta por sofrimento e angústia.
A metade da sonoridade apresenta riffs diferenciados e que puxam os solos para um lado mais Death n’ Roll, por assim dizer. Há tempo para tomar um belo gole de cerveja stout antes de enfrentar as feras novamente.
“On Wings of Bone” vem na sequência e mantém as labaredas lá no alto, com uma ventania forte. Cortesia da bateria de G.C. Os dedilhados iniciam no plano do Metal mortífero e logo descambam para o Metal das trevas. Essa nuance se repete em sequência, mas também possui variações pontuais, além dos vocais do também guitarrista A.C. serem bastante afiados e voltados para o Black Metal.
O dedilhado principal lembra bastante o Death, e além desse destaque, temos o Death Metal em primeiro plano por aqui. E sobre as asas de osso, os solos se sobressaem e trituram cabeças não acostumadas com o bombardeio sonoro vindo do submundo.
Quando os dedilhados elevam o poder das entidades
O dedilhado inicial de “Rooted in Accursed Ground” traz a música para o lado negro da força, mas logo se modifica e depois retorna novamente. A ideia de ficar em dois planos distintos sem se desequilibrar é para poucos. A condução da base em média velocidade dá um charme infernal a mais para a faixa, enquanto a mesma proporciona novas variações e mais elementos de combate aos seres ditos puritanos. Os blast-beats, tremolos e harmônicos se espalham pela música e deixam enraizada toda a maldade e o rito em sangue investidos na trama.
A fome insaciável e voraz de “Savage Hunger Far Beyond” adentra ao certame coloca tudo em risco. O nada em confronto com o material, a fome pela destruição e retorno ao ponto zero, o rito de encerramento e reinício. A fome metafísica e toda a loucura que isso causa ao plano carnal é inserida através da sonoridade.
A princípio, um respingo de suspense e… Valsa entre gárgulas, espectros e toda a raça de demônios e criaturas de outros planos que se puder imaginar. Você está convidado e já foi levado à força para essa dança. Riffs ardentes da dupla A.C. e J.C. ocorrem, mas depois surgem outras notas mais hipnóticas que remetem ao Pestilence. Entretanto, a chuva de sangue não cessa e a bateria quase ininterrupta te atinge de várias maneiras e ângulos, dilacerando a sua alma em companhia do engasgar hipnóticos de notas do baixo de K.O. Logo após, temos uma espécie de marcha e toda uma atmosfera envolvida nesse conflito intramundo. Solos velozes fazem filetes de almas penadas, pouco antes da faixa finalizar com a maior alegria infernal que um demônio pode ter.
O crepúsculo, o chicote e o pêndulo, e a filha de Cain
“Gloaming” possui seus primeiros segundos de música calcados em Entombed, passando por Bolt Trower e Benediction. Os riffs são fortes a ponto de trazer à tona grandes bandas como estas. Depois temos um trabalho de guitarras que cria uma espécie de valsa mais acessível, porém com aquele tempero equilibrado à base de muito enxofre. Embora tenha trechos importante, não apresenta tanto brilho quanto as faixas anteriores. Os solos são mais calmos e até condizem com a trama, mas a sede de sangue continua e os pedidos para a insanidade tomar conta do som são muito grandes. Contudo, o solo final é mais cortante e inquieto, dando um término melhor para este capítulo.
“The Whip and the Pendulum” traz um tilintar de piano traiçoeiro. Saberá que é traiçoeiro, pois as guitarras cantarolam logo em seguida. O épico do álbum está aqui e possui mais de 9 minutos de duração. Are you ready? Então, bora!
Mosh! Valsa incessante! Vocais oriundos das cavernas das montanhas mais gélidas do outro mundo! O baixo aparece bem, rasgando o tecido da realidade. As guitarras espremem os corpos sem vida contra a parede do destino e arrancam todo o resquício de aura existente.
Aqui, estamos de volta ao Black/Death, mas a banda não se mantém em um estilo só em quase nenhum momento. As variações sempre ocorrem, hora mais para um lado e hora mais para o outro. Por fim, logo adianto que aqui encontramos o ápice de “Death Saturnalia (With Temples Below)” e o poderio marcante do Ensanguinate.
A melancolia de uma jornada longa e devastadora
Por volta dos pouco mais de cinco minutos de tempo percorrido, a canção muda de cenário e evolui para uma estrutura complexa que inclui órgãos e partes melancólicas, mostrando a versatilidade composicional da banda. Seu retorno aos instrumentos principais e primordiais trazem uma banda caminhando a passos vagarosos e lamuriantes e indo de encontro à sua apoteose mortal.
O encerramento do disco acontece de forma hostil e inabalável, reafirmando a intenção violenta e impetuosa dos eslovenos e encharcar os alto-falantes com sangue e trevas musicais. “Daughter to Cain” é um Black Metal mais cru e direto, não chega a entrar naquele seleto grupo tido como “Raw”, pois contém melodias inseridas e a produção não é tão suja como ocorre em discos dessa linha.
Para encerrar a discussão ou a dúvida quanto a isso, a música mostra suas variações e até certa influência de Punk Rock em dado momento. Você notará isso pouco antes de chegarem os solos viscerais, calamitosos e ardentes dos eslovenos. Após os solos, a faixa ganha tons de ritual ao caminhar devagar em sonoridade mais arrastada.
O cantar em reza simboliza o nascimento da filha de Cain e a maldade sendo passada adiante. A herança torna o ímpeto eterno. O baixo de K.O encerra de forma misteriosa e melancólica a novo artefato sonoro do Ensanguinate.
Considerações metafísicas finais
Temos uma enormidade de mudanças de estrutura, sempre ou quase sempre caminhando entre o Death e o Black Metal, deixando essa disputa bem saudável para saber qual o resultado final disso. E o resultado final é que a maior parte do disco é composta pelo enxofre do submundo – é um disco de Black/Death Metal, mas daqueles que você precisa ouvir com muita atenção para ver que um subgênero se sobressai perante o outro. E isso é em pequena dose. Portanto, não espante ao ver gente dizendo que se trata de um disco de Death/Black ou até mesmo Death Metal. Se ouvir somente o início, dará essa impressão, mas as variações estão ali e bem intrínsecas.
A produção combina com essa junção, mesmo atendendo aos olhares do passado. O Ensanguinate sabe o território em que pisa e, portanto, conseguiu tirar proveito disso ao obter um belo resultado com este novo trabalho.
“Our odes of devotion, our monument to the female form in occultism through the metal of death in its oldest and purest form.”
Nota: 8,7
Integrantes:
- A.C. – Andrej Čuk (guitarra, vocal)
- G.C. – Grega Cestnik (bateria)
- J.C. – Jaka Črešnar (guitarra, ivory)
- K.O. – Krištof Ocvirk (baixo)
Faixas:
- Lámia
- Angel of a Thousand Poisons
- On Wings of Bone
- Rooted in Accursed Ground
- Savage Hunger Far Beyond
- Gloaming
- The Whip and the Pendulum
- Daughter to Cain
