Resenha: Winter Eternal – “Unveiled Nightsky” (2026)

A Grécia não apenas se tornou um território prolifico para o Black Metal, mas também consolidou uma tradição similar à escandinava ao alçar ao mundo da música extrema hordas de muita qualidade e longevidade. Embora Rotting Christ e Varathron lidere a cena helênica, novos artistas surgem para fervilhar ainda mais esse caldeirão rico em ideias e propostas musicais. Dessa forma, a ebulição facilita o mergulho imediato nos mares subterrâneos da música sombria e infernal.

O Winter Eternal é a joia grega da vez. A banda lançou seu quinto álbum de estúdio, “Unveiled Nightsky”, no dia 13 de fevereiro via Hells Headbangers Records.

O novo artefato musical sucede o recente trabalho “Echoes of Primordial Gnosis” (2024). Soulreaper comanda os vocais, linhas de guitarra e baixo, mas conta com o baterista V. Nuctemeron, Varvara Tsotra no cello, e Dimitris Charisis no violino.

Pode parecer estranho ao ler em primeira mão, principalmente para os puristas de plantão, mas a presença desses instrumentos adiciona uma camada importante a mais para as músicas. Assim, deixando-as mais sóbrias e sombrias.

Ao citar tais características, podemos apontar outros aspectos referentes a esse novo disco e também quanto ao trajeto feito pela banda até aqui. Você, porém, pode até citar algo mais simplório como melodias frias sob uma camada de palhetadas incessantes, com notas dissonantes. Entretanto, isso só o princípio da construção e conjectura da obra.

A construção da nova obra do Winter Eternal

“Unveiled Nightsky” apresenta um catálogo maior de ideias e que passam por vários quarteirões da sonoridade nefasta. O Black Metal do Winter Eternal constitui de elementos que passam pelos anos 90 e 2000, além de uma boa dose da segunda metade dos anos 80 e dos tempos atuais. Portanto, a banda pode te colocar em vários cenários e fases do Metal Negro. Assim, alimentando bem a fera submundana.

Seu conteúdo lírico apresenta temas metafísicos, explorações do vazio cósmico e a filosofia do oculto. Soulreaper utiliza as letras para evocar paisagens desoladas e rituais ancestrais, conectando a agressividade sonora a uma busca espiritual profunda. Em vez de apenas repetir clichês do gênero, a banda constrói uma narrativa que desafia a percepção do ouvinte sobre a escuridão e a existência.

Nascido a partir do sopro do inverno

“Unveiled Nightsky” possui oito faixas e só por isso já vem à mente o formato em vinil – constando os lados A e B, respectivamente – e isso já traz a ideia desse conceito ser aproveitado neste nobre pergaminho musical. Embora as camadas mais visíveis sejam voltadas para o lado mais tradicional do estilo, a banda viaja literalmente pelo espaço sideral e conduz a luz escura universo adentro.

Para o lado A temos a jornada iniciada pelo nascimento através do sopro do inverno e culminando na revelação do céu noturno. Em seguida, o lado B apresenta a descida ao abraço de Hades e derivando para as profundezas do esquecimento. É uma espécie de atravessar planos e retornar ao começo de tudo.

O horizonte visto do ponto de início

“Born of Winter’s Breath” abre um vácuo nos céus a partir de seus tremolos impiedosos, aliados a uma atmosfera etérea que estabelece o tom congelante, digamos, da obra. Vale mencionar a inserção do contrabaixo na trama, que funciona como uma engrenagem bastante especial para a decolagem dessa nave sombria e nascida do sopro invernal. Seu percurso é embriagado pelo chamamos de Melodic Black Metal, em conjunto com os vocais gélidos e ardilosos de Stelios Makris (do original, Στέλιος Μακρής), vulgo Soulreaper.

“Omen of the Cosmic Order” possui uma intro que se transforma em base nos moldes do Metal tradicional, mas com pompa e aura do Metal sombrio. Essa melodia alcança número maior no velocímetro e enfeita toda o ímpeto imposto pela bateria e pelo baixo. As variações de tempo são marcadas por passagens de média intensidade e blast-beats furiosos, dando uma ligação mais forte aos seus compatriotas mais famosos. O Melodic se coloca em maior destaque, permeando toda a faixa.

“Nurtured by the Night” apresenta uma intensa camada de Melodic Black Metal tradicional e sem segredos, evidenciando a principal força da banda. Contudo, a agressividade ganha mais terreno e as mudanças de andamento ganha contorno junto às viradas intensas de bateria. Quando encontramos uma “pausa” nessa agressividade, é como visualizar uma nova estrela de perto ou até mesmo um portal que nutre os caminhos da noite plena.

Chegamos na faixa-título e “Unveiled Nightsky” funciona como um complemento ainda mais furioso de sua antecessora. A bateria aparece de modo mais simplória, dando um ar mais sórdido e cru para a sonoridade e avistando o nome do Darkthrone ao longe. Suas alternâncias trazem um pouco da primeira se segunda fase do Black Metal, por assim dizer.

A marcha até o início de tudo – antes do nascer

Aqui temos um dos grandes ápices do disco: “Descent into Hades Embrace”. Antes da grande tormenta e da fúria ancestral, temos um belo dedilhado introdutório e que resgata toda a melancolia e lamúria, tidas em receituário de um álbum de melodias em forma de lágrimas congelantes. A queda de encontro a Hades é representada pelas variações sonoras em detrimento dos pontos de melodias agoniantes. O ritmo mais acelerado mostra o sofrimento da figura indo de encontro ao senhor das trevas e do mundo dos mortos. Partindo para o início de tudo a qual chamamos de fim.

Se já adentramos em território inóspito ao explorar o cosmos, agora é hora de encarar a arte de ser enganado, mas não musicalmente. “The Deceiver’s Tale” adota um tom ainda mais melancólico e, de forma mais vagarosa, entrega um misto de lamento, perda e vazio constante.

O sofrimento nos vocais é evidente e te fazem mergulhar na trama como se estivesse sendo empurrado para dentro do mar de impurezas. Mar este que está repleto de melodias dissonantes, porém amplamente cativantes. Pouco depois da metade, a música apresenta um formato que lembra o Dimmu Borgir em seus momentos de maior glória, mas sem querer se parecer ou embarcar por completo em seus mares. A Grécia já possui seus rios e mares próprios.

O tapete estendido para a passagem final

A perda do reinado ecoa por todo o vácuo deixado pela nave celestial e aqui temos o melhor momento quanto ao baixo. “Echoes of a Fallen Crown” abre espaço para a construção de uma linha de baixo assustadoramente admirável. Riffs nostálgicos são distribuídos como doces em dia de Cosme e Damião, além de melodias que contornam o tapete negro dessa peça grega fundamental para o estilo. Tais riffs funcionam como uma ponte épica para o encerramento.

“Drifting into the Depths of Oblivion” encerra o concerto com uma estética de marcha fúnebre. A marcha entrega tristeza e agonia em forma de música instrumental, sendo regida por violino e violão clássico. Assim, portanto, é selado o final de “Unveiled Nightsky”, sendo encarado com o encontro direto ao ponto de partida – o final para nós. Derivando para as profundezas do esquecimento, estamos indo. E tudo começa novamente… E para um recomeço, vamos ouvir novamente o novo trabalho do Winter Eternal.

Winter Eternal / Bandcamp

nota: 8,6

Integrantes:

  • Soulreaper (vocal, guitarra, baixo)

Músicos de apoio:

  • Varvara Tsotra (cello)
  • Dimitris Charisis (violino)
  • V. Nuctemeron (bateria)

Faixas:

  1. Born of Winter’s Breath
  2. Omen of the Cosmic Order
  3. Nurtured by the Night
  4. Unveiled Nightsky
  5. Descent into Hades Embrace
  6. The Deceiver’s Tale
  7. Echoes of a Fallen Crown
  8. Drifting into the Depths of Oblivion
Deixe seu comentário