Resenha: Draugveil – “Cruel World Of Dreams And Fears” (2025)

Lançado em 13 de junho de 2025, de forma independente, “Cruel World Of Dreams And Fears” é o debut do artista Draugveil. O projeto foi concebido e executado por ele, e o que era para ser algo ligado ao underground do Black Metal acabou tomando proporções consideravelmente grandes graças a internet.
Primeiramente a capa chamou muita atenção, por ser bastante diferente do padrão Black Metal. Mostrando Draugveil vestido como um cavaleiro e deitado sobre rosas, a capa começou a gerar debates sobre o conteúdo do disco ser uma espécie de “Black Metal romântico”. E é verdade que algumas pessoas realmente compraram a ideia. O segundo debate foi sobre se este seria um disco com músicas feitas por IA, já que era um artista até então desconhecido e que não havia lançado nenhum material antes e nem possuía nada no currículo.
Após um pouco de pesquisa, foi descoberto que a persona por trás de Draugveil já havia tocado em várias bandas sob um outro nome, e já era uma figura experiente no assunto. É em meio a essas discussões que o disco chega até mim, enquanto eu via posts de grupos internacionais de Metal no Facebook. A capa me chamou a atenção positivamente por causa da estética Dark Fantasy, porém acabei não indo atrás do material neste primeiro momento por não ser um grande conhecedor/entusiasta de Black Metal.
Acontece que algum tempo depois, uma das canções instrumentais do disco tocou aleatoriamente no Spotify e eu gostei muito do que foi apresentado. Quando eu vi que pertencia a este álbum, resolvi que era hora de dar uma chance ao material completo.

Começo com melodia e brutalidade
O disco abre com a canção “Knight Without a Name”, que começa com uma passagem melódica e cadenciada na guitarra. Isso perdura mesmo quando a música engrena e apresenta os outros instrumentos. A letra é bastante simbólica e fala sobre um cavaleiro derrotado chegando ao fim de sua jornada, cujas reflexões o levam a crer que após todo um caminho trilhado por violência, não percebeu que tudo deriva da falta de amor. A música tem uma boa dinâmica entre as partes melódicas e as partes aceleradas e o refrão facilmente gruda na cabeça.
“Forgive me lord for all my sins
Forgive me father ‘cause I’m weak
I had no time to figure out
That all I need is love”
A segunda canção é a pedrada “Moonlit Resurrection”, que diferentemente da faixa de abertura, começa de maneira acelerada e brutal. Os riffs de guitarra são bem construídos e a bateria pujante ganha destaque aqui, nos acompanhando marcadamente por toda a canção. Os vocais trazem muita agressividade e um certo desprezo, o que combina perfeitamente com a letra. A música é rápida até o final, quando termina em uma última e pacífica nota de piano.
“Griefmarch” inicia com o riff mais legal do álbum, que nos guiará por toda a canção. Como o nome já denuncia, a letra nos conta sobre uma marcha fúnebre e transmite muito bem o sentimento de perda, angústia e raiva. A primeira parte descreve um velório e é mais cadenciada, enquanto a segunda é a preparação para o enterro, mais acelerada e com raiva. O final é a contagem da marcha enquanto o caixão é carregado, aqui a letra é cantada com indiferença. Em contraponto, o instrumental fica cada vez mais rápido.
Mais agressividade, mas com letras profundas
A primeira faixa instrumental do disco é “My Sword Points To The Past”, que é tocada apenas no piano, trazendo um sentimento de melancolia e nostalgia, com bastante carga dramática. Então chegamos a metade do tracklist, com a bela “Wolves Feast On Forgotten Dreams”, cuja letra fala sobre depressão. A canção começa com um dedilhado certamente melódico que é sucedido por um riff cadenciado, deixando-a um tanto sentimental. Quando os vocais agressivos de Draugveil entram, fica claro que não se trata de uma balada. Do meio pro final, a canção engrena com uma mudança brusca de ritmo, enquanto a letra retrata sintomas como falta de vontade, desculpas inventadas, bem como arrependimentos. a música termina muito bem, com um dedilhado emotivo e lobos uivando ao fundo.
“Etched Oath” começa com uma bateria nervosa e o instrumental entra com este mesmo ímpeto. Desse modo, essa faixa é marcada por mudanças rápidas de ritmo, alternando entre veloz e muito veloz e causam um efeito muito interessante. Em um momento entra uma parte melódica, dando a entender que trata-se do fim, mas tudo apenas para acontecer o retorno da velocidade. A sétima faixa é “Soiltear”, cujo título é a junção das palavras “Solo” e “Lágrima”, que escritas dessa forma lembram a palavra “Solitaire” (solitário). O título faz bastante jus a letra, comparando o sentimento de solidão com ser engolido vivo pelo solo, preso por suas raízes.
“Soiltear beneath my feet
A grave where dusk and memory meet
The stars look down with distant scorn
And leaves conceal what once was warm”
“Beneath The Armor I Rot” foi a música que me cativou e me fez ir atrás do material completo. É uma música instrumental de quase três minutos, absolutamente atmosférica, bastante melancólica, assim como dramática, com contornos sombrios. Toda a construção da canção, somado com o seu título, evoca o gênero Dark Fantasy. Dessa maneira, é como uma trilha sonora perfeita para um jogo 16 bits desse mesmo gênero.

Ambientação, melancolia e… porradaria
A última canção com vocais é a poderosa “Vortex”, que definitivamente chama muita atenção. Com porradaria do começo ao fim, a letra trata de sentimentos como raiva e a loucura como uma espiral sinestésica, com analogias como “meus pulmões estão cheios de barulho de estática” e “grito em cores nunca nunca antes vistas”. Do meio pro final a canção apresenta uma parte melódica que soa como uma finalização, apenas para que uma virada de bateria traga de volta a agressividade com toda força.
“Vortex spinning through the flame
I burn my fucking name
I kill my fucking name
Vortex silence carved in cries
I climb the pit that never dies”
E a saideira fica por conta de “When Silence Became My Kingdom”, instrumental curtinha que evoca todos os sentimentos que o álbum construiu até então, encerrando de maneira competente a audição. Faixa bem construída e com cara de fechamento.
Por se tratar de uma One Man Band, naturalmente alguns instrumentos se destacam mais ou menos de acordo com o conhecimento e técnica do único compositor. Guitarra e piano soam muito criativos e com linhas bem intrincadas, com isso ficando bastante visível nas faixas instrumentais. A bateria soa poderosa e preenche muito bem o som, com linhas que vão para um lado de maior “feeling”, sem uma gama extensiva de técnicas e virtuosidades; acaba casando muito bem com o que as músicas pedem. O baixo é muito apagado na mixagem, com as linhas provavelmente retas e pouco expressivas; Os temas fazem analogias a sentimentos humanos através de um conceito Dark Fantasy e a estética das canções estão de acordo com o que é proposto nas letras.
Draugveil entregou uma boa estreia
A combinação das partes melódicas com as partes mais agressivas funciona muito bem, com as transições entre acelerado e cadenciado sendo feitas de maneira mais progressiva e menos abrupta. A produção é independente e simples, novamente ressaltando que funciona bem para este tipo de disco, apesar de possivelmente não agradar a todos.
O direcionamento é uma sonoridade mais crua, áspera e um pouco abafada, isso remete a produções antigas e gera um sentimento de nostalgia, além de deixar as faixas mais sombrias e desconcertantes. O tracklist é um baita acerto, começando com “Knight Without a Name”, que mescla muito bem o melódico com o brutal de maneira cadenciada, e depois alternando entre músicas aceleradas e cadenciadas.
O disco vai ganhando corpo no decorrer da audição, tendo em vista que a música mais bruta é a penúltima, “Vortex”. As canções instrumentais oferecem uma boa ambientação e não chegam a quebrar o ritmo, funcionando como uma preparação para o que vem à seguir. Com seus quase 31 minutos de duração, “Cruel World Of Dreams And Fears” apresenta um trabalho direto, criativo e, ao mesmo tempo, atmosférico.
A sensação de jornada perdura por toda a audição e os temas são bastante humanos e de fácil assimilação, apresentados com uma roupagem interessantíssima. Pela curta duração e qualidade do que foi apresentado, certamente fica o gosto de “quero mais”, e a torcida para que novas canções venham em breve.
Nota: 8,5
Integrantes:
- Draugveil (vocal, guitarra, baixo, bateria)
Faixas:
- 01 Knight Without a Name
- 02 Moonlit Resurrection
- 03 Griefmarch
- 04 My Sword Points to the Past
- 05 Wolves Feast on Forgotten Dreams
- 06 Etched Oath
- 07 Soiltear
- 08 Beneath the Armor I Rot
- 09 Vortex
- 10 When Silence Became My Kingdom
Apesar de ser leigo no assunto, achei daora!