Resenha: Der Weg Einer Freiheit – “Innern” (2025)

Quando a nomenclatura é germânica, pode assustar um pouco no início para quem não é acostumado ou só busca bandas com nomes em inglês. Der Weg Einer Freiheit é uma banda de Black Metal oriunda de Würzburg, Bavaria, e que possui a sua fundação datada em 2009.

A banda alemã chegou ao seu sexto álbum de estúdio no dia 12 de setembro via Season of Mist. “Innern” sucede o disco “Noktvrn”, de 2021. Além destes, a banda possui os seguintes trabalhos: “Der Weg einer Freiheit” (2010), “Unstille” (2012), “Stellar” (2015) e “Finisterre” (2017).

O DWEF é formado pelo guitarrista/vocalista Nikita Kamprad, o baterista Tobias Schuler, o também guitarrista Nicolas Rausch, além do baixista Alan Noruspur. O próprio Nikita cuidou da produção, gravação, mixagem e masterização do novo álbum. No entanto, Max Löffler assina a artwork. Arte essa que se olhada de relance, parece um relógio. Porém, a imagem da capa em si é completamente distante disso.

Um Black Metal fervilhante e com boas tramas

A dúvida sobre a vida ser uma representação de algo ou apenas uma anomalia da natureza paira sob os olhares profundos de “Marter”. A faixa inicial aquece os motores através da combustão causada pela dúvida sobre a vida e pelos anseios de mudança, em partilha com a morte, em meio a notas iniciais densas e misteriosas. Ao mesmo tempo em que as luzes das estrelas fazem bem, seu brilho também causa o mal, ofuscando a escuridão plena.

A formação da sonoridade assemelha-se ao início e ao fim de tudo, com uma crescente mórbida que se espalha pelo espaço. “Esta é minha última canção?” – pergunta o autor, angustiado por tantas dúvidas e medos em uma só condição. Quando o espírito e a carne contemplam as estrelas novamente, tudo parece importar menos. O som bruto e profano apresenta-se de forma maquiavélica e obsoleta, sem se importar com nada e, ao mesmo tempo, em prantos.

Será assim mesmo ou há uma estagnação nesse aspecto? A decisão é pessoal e parece ser um alívio a princípio, tornando-se, porém, um eterno arrependimento posterior. Entre tantas dúvidas e anseios perigosos, surge a dúvida maior:

“Esqueci quem eu era.
Será que realmente nasci neste mundo?
Ou sempre estive aqui?”

O medo devora a alma

Sob a figura de Helia, a mãe estelar que gerou todas as coisas, inclusive eu e você. Todos nós testemunhamos o medo que devora a alma. A sonoridade estridente e entristecida revela o capítulo em que se destaca o anseio de que tudo fosse mais cristalino — uma revelação direta quanto ao medo e a toda a escuridão dentro de nós, resultado de um possível fim definitivo. Os compassos de bateria e os tilintares dos pratos levam “Xibalba” a novos horizontes de eventos melancólicos e a uma ampla solidão lamuriante em pouco mais de 10 minutos de duração.

O tremolo impecável atravessa a linha temporal e chega a um ponto que não se enxerga mais a olho nu. Sintetizadores evidenciam essa distância incalculável em busca da escuridão absoluta. A luz que brotara anteriormente do ventre de Helia, herdada pela figura do narrador, já não é mais carregada por ele. Porém, na contramão de tudo isso e junto a um compasso mais terreno e cadenciado, fala-se sobre uma última forma de manter a chama da vida acesa:

“Ó ser humano, volte, pare,
torne o coração e a alma puros e limpos.
O pequeno remanescente que ainda nos mantém vivos
não é muito, mas é tudo, tudo, tudo;
é tudo o que nos resta.”

A Semente da Vida

“Eos” permite um momento de reflexão sobre o ser. De forma leve, contida e serena, a música se inicia e os primeiros ruídos de pratos soam como o espalhar de folhas secas diante de quem busca olhar além do horizonte observável e dentro do âmago da própria alma. A condução da ala percussiva aumenta a ebulição da busca, enquanto a guitarra traz curiosidade pelo resultado desse mar aparentemente calmo. Eis que os riffs e o cântico entoado com técnica oriental trazem mais ímpeto ao enredo:

“Apenas um desejo levo comigo para este túmulo:
a semente da vida.”

Batalhas e mais batalhas — um derramamento de sangue contínuo — ocorrem ao longo das eras. Ao observar o que o cenário promove, vê-se uma terra pesada e carmesim que sufoca o reino e o oculta do sol. Embora pareça realmente o fim de tudo, com a música mergulhando no abismo, diz-se que a força das estrelas desperta uma rede adormecida. Essa força luta para abrir caminho através da umidade enquanto o vermelho se transforma em verde e a terra começa a dançar: temos, então, o ciclo da vida. A música eleva-se e torna-se mais vibrante, junto à bateria incessante e ao comboio de cordas que faz bater mais forte o coração.

A parte que falta, encontrada no silêncio

Dedilhados fragmentados surgem no início da próxima faixa. “Fragment” vem à tona em busca da parte que falta para que a razão esteja completa e definida. O pano de fundo traz mais mistério e um clima gélido, típico de um som desta estirpe. O groove de bateria, como abertura para a nossa passagem, revela que é através do silêncio que se escuta a única voz que se destaca e revela a parte que falta. Os vocais aparecem de forma limpa, condizentes com o momento e a mensagem:

“Aqui, só falta uma parte, falta uma parte de mim.
Por isso, busco o silêncio, pois dele só a voz me adverte,
a voz pura, a voz verdadeira, que me molda dia após dia,
me dá a visão do que falta.
Essa parte sou eu.”

O lado mais agressivo do som ressurge, culminando no encontro revelador entre as duas partes que necessitavam estar juntas. Em suma, o encontro do “eu comigo mesmo”.

Não provoque o desamparo ao espalhar a mágoa

N

“Finisterre III” acrescenta ao disco um tema instrumental regado a um piano denso e calamitoso, com uma sensação de finitude e de passagem da luz. “Forlorn” inicia a última página deste manuscrito musical com tilintares de notas frias e isoladas, porém contínuas e angustiantes. É um momento delicado; a sensação é de melancolia profunda dentro de um emaranhado anestesiante de sons.

Com voz limpa e baixa, afastando o Black Metal da primeira metade da canção, a mensagem pede para evitar informações sobre alguém estar magoado. Ou seja: não se deve espalhar a mágoa nem estendê-la a quem já possui seus próprios problemas. Embora não se queira saber da dor alheia, há um súplica para que não se deixe a persona partir sozinha e desamparada:

“Por favor, não me deixe ir, eu não vou deixar você sozinho.
Deixe todos saberem que podemos voltar para casa.”

A música encontra as ramificações do subgênero mais obscuro do Metal em sua segunda metade, mas sem perder a climatização soturna e solitária da parte inicial, encerrando-se até encontrar o silêncio absoluto.

Der Weg Einer Freiheit/Bandcamp

Curiosidades e o caminho para a liberdade

O Der Weg einer Freiheit — cujo significado consta no título acima — mantém sua proposta tradicional de trazer uma sonoridade densa dentro dos moldes do Black Metal, convidando à reflexão sobre a existência. Um detalhe importante é que a banda canta quatro músicas em alemão e a última em inglês (considerando que uma delas é instrumental, totalizando cinco faixas analisadas).

Talvez tenha faltado uma música ainda mais impactante para tornar o álbum “Innern” um destaque maior. O trabalho é qualificado e já se destaca, mas fica a sensação de que a banda poderia alçar voos ainda maiores. No entanto, não há equívocos no álbum em si; apenas a percepção de que o caminho para a liberdade poderia ser ainda mais vasto. Por fim, valem muito a audição e a reflexão proporcionadas pelo novo disco do ótimo Der Weg einer Freiheit.

nota: 8,7

Integrantes:

  • Nikita Kamprad (guitarra, vocal)
  • Tobias Schuler (bateria)
  • Nicolas Rausch (guitarra)
  • Alan Noruspur (baixo)

Faixas:

  • 1. Marter
  • 2. Xibalba
  • 3. Eos
  • 4. Fragment
  • 5. Finisterre III
  • 6. Forlorn
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