Resenha: Cruel Force – “Haneda” (2026)

Eis que, o sucessor do ótimo “Dawn of the Axe” (2023) veio à tona, com a intenção de tornar a trajetória do Cruel Force ainda mais brilhante e rica do que já é.
Nos últimos anos, o Cruel Force tem sido uma das grandes forças do Metal, revelando músicas com o verdadeiro vigor e espírito dos anos 80 e aliados aos tempos atuais. Porém, sem jamais perder a identidade de quem se propõe caminhar pelos vales do Black/Thrash Metal e, após o retorno, se consolidando após a mudança para o Speed e também com elementos do Thrash Metal.
Vale destacar que, a banda pertencente à Rheinzabern, Rhineland-Palatinate, iniciou sua inspirada trajetória com “The Rise of Satanic Might” (2010) e “Under the Sign of the Moon” (2011), recebendo ótimas críticas e sendo colocado ao lado de grandes obras de nomes mais conhecidos do cenário do Black/Thrash Metal mundial. Entretanto, o início bastante promissor e favorável aos alemães quase foi apagado por conta do hiato entre 2012 e 2022.
O Cruel Force teve que refazer o percurso inicial, mas graças ao ótimo álbum de estreia, não foi tão dificultoso para retomarem o seu posto como banda emergente e original. O já citado “Dawn of the Axe” trouxe novos ares para a banda germânica e ajudou a acrescentar outras linhas de outros subgêneros – também já citados – à sua música.
Fica bastante evidente que, uma banda desse porte e com tal proposta, merece alçar voos maiores – embora seja bastante dificultoso para uma banda desse naipe conseguir maior sucesso (não falo sobre mainstream) – e conquistar um público maior de rebite, couro e aço.
O próprio Cruel Force destacou a sequência da jornada:
“A jornada continua…Finalmente, a escuridão pode ser dissipada — temos orgulho de revelar detalhes sobre nosso quarto álbum de estúdio, “HANEDA”. É a continuação lógica de “Dawn of the Axe”: uma jornada mística e mítica de speed metal através de segredos ancestrais e civilizações perdidas. Algumas maldições podem ser quebradas… outras não! Espere nada menos que puro speed metal místico que o deixará maravilhado. Você ainda não viu nada! Mais uma vez, o álbum foi gravado com Marco Brinkmann nos estúdios Hellforge, Bauer e Parchment, de janeiro a abril de 2025.”
Cruel Force – um novo capítulo regado ao real Rock veloz
A banda alemã lançou “Haneda” no dia 27 de março via Shadow Kingdom Records. O disco é o quarto trabalho de estúdio e busca representar um novo marco e sequência real do caminho pavimentado ainda em 2010.
Como já tive a honra de resenhar o disco anterior, “Haneda” trouxe grandes expectativas logo a partir do anúncio do seu lançamento e divulgação da capa. A capa, por sua vez, é altamente “camisetável”, como costumamos dizer em nossas lives no canal Mundo Metal via YouTube. Aproveite para se inscrever e conferir, pois somos nós mesmos – os escribas – que aparecemos por lá.
“Haneda” foi gravado nos estúdios Hellforge, Bauer e Parchment, de janeiro a abril de 2025. O álbum em questão foi mixado e produzido por Marco Brinkmann no Hellforge Studio, e que também cuidou da gravação. O guitarrista da banda, Slaughter, marca a sua presença na co-produção do álbum. Patrick W. Engel foi o responsável pela masterização no Temple of Disharmony. Maegan LeMay assinala a artwork da obra. E, sobre participações especiais, temos vocais adicionais por Kruel Krew, Yorck e Laura.

O aço afiado de “Haneda”
O novo disco possui duas faixas instrumentais, uma introdutória para abrir a caixa de ferramentas intitulada “The Cross”, e a outra, sendo mais longa e ajudando no equilíbrio da “meiuca” da obra, assim chamada por “Crystal Skull”.
A primeira funciona como a abertura de uma película cinematográfica, mostrando o cenário e todas as suas características. Dessa forma, o ouvinte vai se habituando ao que encontrará daqui para frente.
Já na segunda faixa instrumental, temos um ritmo médio com elementos sonoros do Oriente Médio, oferecendo um respiro atmosférico em meio a uma jornada caótica e muito bem executada. Tais faixas mostram como a banda evoluiu e está mais solta. Isso quer dizer que os álbuns anteriores eram, digamos, presos? De forma alguma! Falo em questão dos novos direcionamentos em que já eram apresentados de forma reduzida nos trabalhos anteriores. Aqui, tanto uma quanto a outra apresentam riqueza em forma de riffs, melodias e solos muito bem inseridos.

A bússola aponta para o Speed/Heavy/Thrash, mas o Black/Thrash não foi abandonado
Após a breve e competente abertura do novo capítulo musical, temos a presença da possante ““Whips-A-Swinging”, onde as guitarras ditam um ritmo frenético e agressivo, resgatando a ferocidade clássica dos alemães. Os tons de vários tamanhos te orientam a entender que o Black/Thrash está presente, mas o passeio em larga escala é dentro do Speed Metal. Mas, o som não fica apenas nisso e te coloca em mais cenários. Da metade para o fim, antecedendo os solos, temos um ritmo quebrado e de compasso diferenciado, trazendo um brilho a mais para a música. Os solos, por sua vez, dão mais combustível para a faixa avançar até o seu final a pleno vapor.
Dando continuidade à energia, “Savage Gods” mantém a velocidade alta enquanto explora temas mitológicos. Os deuses selvagens encarnam nas palhetas, baquetas e pedais, entregando uma selvageria em forma de música. Fica perceptível o voo rasante pelos terrenos cortantes do Rock veloz.
Notas estendidas ditam o ritmo alucinante e os solos acompanham essa jornada alucinante. O veneno de cada notada tocada é espalhado por toda a faixa e mantém a banda em um nível de composição bastante alto e confortável.

Logo depois, o Cruel Force apresenta “Sword of Iron”, uma faixa que se destaca pelos riffs afiados e, principalmente, pelos solos neoclássicos, além de utilizar sintetizadores para ampliar a grandiosidade da composição. O compasso segue e retorna para a parte mais ríspida da música e é apoiada por um refrão potente e contundente, a ponto de fazer valer essa junção entre o épico e o rápido e cortante como navalha.
A jornada impetuosa não cessa e pede passagem
“Warlords” recebe as saudações de “Crystal Skull” e temos baixo e bateria como condutores de uma estrutura mais prolongada e com variações importantes. Porém, de volta ao seu início, os senhores da guerra são invocados através de melodias e um solo inicial que crava a sua passagem com maestria. A marcação do baixo enquanto as guitarras chamam para a valsa, formam aquele aviso imponente da qual ninguém escapará da dança.
Possui suas variações e trechos mais cadenciados, mas com outro riff de chamado à guerra, na qual tudo recomeça e só se vê fumaça, corte de carne viva e sangue em nome do Metal. O final é estratégico e poético ao mesmo tempo em se tratando de sonoridade rápida, melódica e intencional.
Mais adiante, “Black Talon” evoca o Heavy Metal tradicional dos anos 80, aliado ao Speed através das notas prolongadas e de sustentação, naquele ritmo dançante e contagiante a qual compactuo bastante. A bateria alterna entre os dois subgêneros e acrescenta um tempero agressivo sob medida. O momento em que a faixa ganha tons mais “classudos”, por assim dizer, é o momento chave para a nuance colocar ainda mais gasolina na fogueira. É como se o Slayer em seus primeiros anos de existência se encontrasse com a fase clássica do Iron Maiden e conduzisse o ouvinte até o campo de batalha, hasteando a bandeira do Heavy Metal.
O despertar do titã e o encerramento com a faixa que carrega o nome do disco
De forma surpreendente, “Titan’s Awakening” começa sombria, mas logo explode em um Speed Metal implacável a ponto de ter identidade própria, assim como todas as outras faixas anteriores. Seu ritmo varia entre o que já conhecemos, mas também recebe a benção do Thrash. O tilintar dos pratos durante os solos trazem à tona o Slayer novamente. Decerto, temos muito de “Show No Mercy” por aqui, mas com uma produção que favorece o senso cortante e dilacerante das músicas. E o ataque do titã é apoiado por uma camada espessa e especial, assim, tendo o seu próprio brilho e também sendo destaque em “Haneda”.
Por falar nela, a faixa-título “Haneda” encerra a jornada com toda a pompa de uma “Black Magic” da vida. Observe a intro dela e notará a inspiração para tal. Isso traz um ganho enorme para a composição e incendeia a cidadela da capa como se não fosse nada. Os riffs alucinantes mordem o tempo, como um ataque voraz de um animal selvagem e faminto. Pode ser facilmente considerada a melhor faixa do disco, tamanho o ímpeto da canção, aliado ao seu estilo variante. O refrão é empolgante e mantém as atenções para a sequência deste capítulo.
O interlúdio ocorre de maneira melódica e cinematográfica, preenchendo a película sonora com muito mais categoria e sabedoria. A determinação e a busca por uma sonoridade que una os laços entre o Heavy, o Speed, e doses assertivas de Thrash, acaba por resultar em algo verdadeiro e coeso. Por fim, consolidando a jornada de forma épica e impactante.

Considerações místicas finais
“Haneda” é a continuação mística e mítica referente aos segredos ancestrais e civilizações perdidas. Portanto, também é a descoberta de novos terrenos já explorados pelo Cruel Force, mas com mais afinco e liberdade para tal. Não que antes não pudesse realizar isso, mas os trabalhos anteriores mostram um outro formato, sendo ambos excelentes.
Contudo, seja Speed ou Black/Thrash, os alemães entendem bem do que fazem e aqui conseguiram ampliar o marcador a seu favor. É como dizem: “É outro gol da Alemanha e não é replay.”
“Algumas maldições podem ser quebradas… outras não!”
Nota: 9,0
Integrantes:
- GG Alex (bateria, percussão)
- Slaughter (guitarra, sintetizadores)
- Carnivore (vocal)
- Spider (baixo)
Faixas:
- The Cross
- Whips-A-Swinging
- Savage Gods
- Sword of Iron
- Crystal Skull
- Warlords
- Black Talon
- Titan’s Awakening
- Haneda
