Resenha: Bornholm – “Apotheosis” (2021)

…Então, vamos a mais uma indicação extrema: Bornholm – “Apotheosis” (2021). Hungria, terra do Black Metal? Talvez. Não que seja a única, pois o subgênero mais antidivino da galáxia não pertence a um único território. No entanto, a banda que será dissecada hoje — como uma experiência em sala de aula — foi fundada em março de 2000 por Melkor, István Horváth e Péter Sallai.

Em terras gélidas, é costume de as bandas de Black Metal incendiarem os vilarejos cobertos de neve com sua sonoridade peculiar. Para isso, a maioria opta por um de dois caminhos: seguir com o som cru, gravado e produzido de forma mais singela, ou elevar a qualidade de produção, acrescentando camadas sinfônicas e complexas à sua trama. Nenhum desses caminhos está errado; tudo depende do que os músicos almejam, e nenhuma escolha é a resposta definitiva para tudo. Mayhem, Marduk, Dark Funeral e Abbath estão aí para provar que todas as vertentes são válidas e que há material de alta qualidade em ambas as propostas. Sobre o Bornholm, descobriremos juntos o que guarda essa joia das trevas, e se ela é valiosa a ponto de ser exaltada aos quatro cantos da Terra.

Diante do poder oculto do Bornholm

Até o momento, “Apotheosis” é o álbum de estúdio mais recente do Bornholm, o que torna esta resenha bastante atual — ainda que sigamos no aguardo de um novo lançamento dos caras. A banda possui cinco álbuns na discografia. O primeiro registro oficial, só para exemplificar, foi a demo “Awakening of the Ancient Ones” (2001), seguida pelo debut “…on the Way of the Hunting Moon”, lançado em 2003. Fica claro, portanto, que os húngaros possuem uma bagagem sólida de estúdio.

Voltando ao trabalho de 2021, o disco foi gravado e mixado no SuperSize Recording Studio em Törökbálint, na Hungria. Viktor Scheer cuidou da captação e da mixagem, enquanto a masterização ficou a cargo do renomado Maor Appelbaum (Dream Theater, Annihilator, Mayhem, Abbath e muitas outras). A belíssima artwork é assinada pelo próprio Péter Sallai. “Apotheosis” foi lançado no dia 5 de novembro daquele ano via Napalm Records.

Sobre “Apotheosis“, trata-se de uma obra conceitual bastante densa e robusta. Suas abordagem conecta o ocultismo, o esoterismo e antigas mitologias pagãs para descrever a jornada da alma em direção à divindade – sendo a própria definição de apoteose, o grand finale, ou até mesmo o ápice final e categórico.

photo credit: Krisztina Máté

O prelúdio da guerra e o chamado místico

A faixa instrumental de introdução, “I Divine”, abre as portas como um convite ao magnífico e ao ancestral, preparando o terreno para que a violenta “My Evangelium” espalhe a sua palavra. O solo seca, o sino solitário badala e a marcha fúnebre encharca a terra com notas rasteiras e sangrentas. Pedais duplos avançam com força redobrada para uma retomada rápida, sem deixar qualquer espaço para um possível revide.

O antievangelho e a heresia filosófica entram em cena sob o rufar dos tambores. Ou seja, as escalas encontram solos gélidos e o compasso vai de encontro a um cântico de voz limpa. Tudo isso, ditando o ritmo que une o poder do Black Metal ao receituário pagão.

“Sky Serpents” alterna entre ventos que derrubam árvores centenárias e uma calmaria momentânea, que funciona como o último respirar profundo do próximo guerreiro a cair. Diante de tais variantes, as forças cosmológicas provocam uma verdadeira destruição celestial. Dessa forma, mergulhando na exploração dos mitos de serpentes cósmicas e dragões presentes em várias mitologias (como Jörmungandr no paganismo nórdico). A bateria tribal e percussiva ajuda a retratar o movimento cíclico do universo. Enquanto isso, o modelo mais tradicional e incisivo destaca a destruição necessária para que haja o renascimento.

Os versos encaixam-se perfeitamente na descrição babilônica dessas entidades, consideradas as portadoras do vento leste, criadoras de eclipses, causadoras de tempestades e destruição — agindo, muitas vezes, como a vanguarda furiosa dos deuses no céu e rondando a Lua (exatamente como diz o trecho “diante da Lua crescente”).

Data est illi clavis putei abyssi

Aqui, entramos em outra faixa instrumental, que traz uma mensagem curta, porém perfeitamente alinhada ao propósito da obra. Funcionando como um interlúdio atmosférico e sombrio, o título faz referência direta à liberação de forças aprisionadas no abismo. Por fim, “The Key to the Shaft of the Abyss” entrega a chave para “Black Shining Cloaks”, permitindo que esta, por sua vez, embarque em direção aos bastidores de quem coordena toda a manipulação mundana.

De acordo com a própria banda, os “mantos negros brilhantes” representam um pequeno grupo de indivíduos iluminados que, desde os primórdios da humanidade, moldam a história, as culturas e os impérios na penumbra. Eles guiam silenciosamente a humanidade rumo ao seu estágio final: a deificação. Tal deificação é orquestrada através de um ímpeto sonoro inicial, provocando uma sensação de expectativa e mistério, principalmente quando a bateria organiza um ritmo mais cadenciado e abre espaço para que o pano de fundo traga todo o clima de bastidores ritualísticos. Tudo isso é adornado por guitarras densas e melodias modulares, capazes de tornar os vocais limpos mais vibrantes em meio aos guturais tradicionais.

Vale mencionar que Mike Wead, guitarrista do King Diamond, é o responsável pelos solos dessa ótima composição. Também se destaca o fato de que o final, incluindo o solo, tornou a música muito mais brilhante e forte do que ela seria sem esse desfecho excelente. A partir do último minuto da faixa, o estardalhaço aumenta e abre caminho para solos caprichados em meio a riffs catastróficos, executados com a devida classe do verdadeiro Metal Extremo.

Conflito apocalíptico e magia ritualística

“Spiritual Warfare” obedece ao rito triunfante e encaminha suas primeiras notas sem pedir permissão. No entanto, a surpresa vem em seguida, com blast beats supremos aliados a melodias cativantes e um peso avassalador nos bumbos, fruto de uma produção equilibrada e sem exageros.

Seus versos elucidam visões apocalípticas com metáforas bíblicas sob uma ótica pagã, invocando figuras e divindades como a “Estrela da Manhã” e “Apollyon”. A letra enfatiza uma linha de pensamento profunda: a de que as batalhas no mundo físico são o reflexo direto de conflitos que acontecem no plano espiritual.

“Darkened Grove” apresenta a conexão com a natureza e os rituais antigos. O “bosque escurecido” evoca os locais sagrados e esquecidos onde povos ancestrais realizavam cultos longe dos olhos da sociedade moderna, celebrando a noite e a ancestralidade. O compasso moderado avança em contraste com as melodias habituais da obra. Os vocais surgem de forma mais rasgada e rastejante, como se suplicassem por mais velocidade.

O ritmo frenético avança, contrapondo-se à reza ao fundo e abrindo caminho para outra faceta diferenciada do som. A vibração dos pedais duplos identifica as mudanças de andamento, desprendendo a canção de qualquer movimento repetitivo. À medida que mergulha novamente em áreas mais intensas, a faixa provoca verdadeiros desmoronamentos de emoções, enriquecendo a audição e dando apoio incondicional a solos excepcionais — sendo, para este que vos fala, a melhor faixa do disco. No entanto, ainda há espaço para um flerte com o Doom Metal, ao melhor estilo My Dying Bride.

Honra e sacrifício

“To the Fallen” entra em cena com uma roupagem mais próxima do Heavy clássico, ou uma espécie de Blackened Heavy Metal, partindo logo em seguida para uma jornada mais caótica e sofisticada. A cadência retoma o seu posto e ajuda a reforçar a estrutura base. Mas, como o Bornholm não é uma banda acomodada, logo ruma para algo mais impetuoso e sinistro.

Sua lírica parte em favor de uma homenagem melódica e melancólica àqueles que vieram antes: aos guerreiros caídos e aos deuses esquecidos pelo tempo. Para retratar o respeito à morte e à herança ancestral, a banda mescla execuções acústicas com a sua agressividade costumeira.

O instinto de destruição e a força de vontade entram em cena

Logo em seguida, “I Am War God” canaliza o instinto primordial de guerra inerente à humanidade e exalta o triunfo da força de vontade pura sobre as adversidades do destino. O conglomerado húngaro descreve o conceito da faixa sob uma perspectiva filosófica: a guerra age como “um cinzel na mão do escultor”, moldando e mudando o mundo de século em século. Uma sonoridade devastadora de crenças vãs contorna essa descrição, invocando estruturas babilônicas e letais.

Graças a essa abordagem, o som cortante e agressivo alcança seu objetivo e abre espaço para riffs e sequências ardilosas, imperdoáveis com quem busca por clemência. O peso e a violência sonora abalam as estruturas e reivindicam o seu espaço. A partir desse ponto, a música reverbera a sua palavra e o seu som. Em determinados trechos, as harmonias ganham tons mais fortes que lembram o Dimmu Borgir. Além disso, o canto em formato ritualístico revela solos lamuriantes e amplamente respeitáveis, enquanto o alicerce mantém o percurso firme até o final.

A elevação do homem ao nível divino e a consagração final

Por fim, a faixa-título demora a vir, mas surge de forma muito bem articulada. “Apotheosis” antecipa o verdadeiro desfecho do álbum e apresenta ao honorável público uma composição de profundo cunho poético. Dessa forma, a faixa-título consagra-se como o clímax conceitual do disco. O início já prenuncia uma transformação espiritual por meio de dedilhados calmos que, ao receberem o chamado da ala percussiva, fecham o tempo e conduzem o ouvinte às profundezas dessa obscura canção.

Esses mesmos dedilhados sustentam a base e dão força a versos emocionantes. A letra celebra o homem que rompe as ilusões da existência terrena, alcança o ápice da iluminação e se torna o deus de si mesmo — um ser livre de amarras divinas, que coordena e comanda as suas próprias ações.

A obra narra, portanto, a evolução da espécie desde o seu nascimento até o resplandecer final. Na emenda dessas melodias ascendentes, surgem novos dedilhados que abrem caminho para “Enthronement”. Estamos diante da consagração final, peça fundamental para o fechamento de mais um disco do Bornholm.

Musicalmente, essa última faixa puramente instrumental funciona como um fechamento de parênteses. Ela simboliza o momento exato em que a entidade, após transcender pela apoteose, finalmente assume o seu trono legítimo no universo.

Curiosidades e entendimento final sobre a obra húngara

Sob essa perspectiva, o Bornholm nos entrega uma saga grandiosa. A narrativa conduz o ouvinte pelo nascimento de um ser, seus anseios, batalhas, quedas e ascensões. Assim, desenhando um plano de evolução espiritual que culmina no esplendor da apoteose. Consequentemente, o fim registra um recomeço e a quebra total de qualquer amarra. Desse modo, o brilho maior funde-se ao universo e perpetua essa alma. Diante desse cenário mitológico, vale a pena desvendar as origens por trás do nome escolhido pela banda.

Longe de ser apenas um nome fantasia para o exército húngaro de Pagan Black Metal, a palavra Bornholm batiza, originalmente, uma ilha dinamarquesa. Ilha essa situada no Mar Báltico, ao sul da Suécia e ao norte da Polônia. Esse território carrega um peso histórico, geográfico e cultural profundo que fundamenta diretamente a proposta estética e mística do conjunto.

Sob a ótica da pesquisa geográfica e histórica, o termo desdobra-se em três vertentes principais:

A Ilha do Mar Báltico e sua relevância estratégica

No mapa europeu, Bornholm ocupa uma posição marítima crucial. Por séculos, essa localização transformou a ilha em um ponto cobiçado para o controle de rotas comerciais, motivando disputas intensas entre dinamarqueses, suecos, alemães e vikings.

Na Dinamarca, a população local refere-se ao local por meio de dois apelidos distintos: Solskinsøen (“Ilha do Sol”), devido ao clima ensolarado atípico da região, e Klippeøen (“Ilha das Rochas”), em virtude de suas imponentes formações de granito ao norte, que contrastam com o relevo plano do restante do país. Ademais, a ilha abriga famosas igrejas medievais em formato circular, estruturas que os habitantes utilizavam tanto para cultos quanto como fortalezas de defesa contra piratas.

A herança pagã e a conexão com a identidade da banda

No final do século IX, relatos de navegadores antigos já apontavam a região — então conhecida como Burgendaland — como um reino viking independente. Antes de sofrer o processo de cristianização por volta do século X, o território preservava uma sólida tradição pagã nórdica, repleta de pedras rúnicas e santuários de rituais ancestrais. Essa atmosfera espelha exatamente a temática épica e o resgate histórico que a banda húngara manifesta em suas composições.

Sob uma perspectiva migratória, historiadores indicam que tribos germânicas originárias da ilha, como os antigos lombardos, moveram-se com o tempo em direção à Europa Central e à bacia dos Cárpatos. Esse movimento acabou cruzando caminhos com os povos pagãos que habitavam a Hungria, estabelecendo um elo histórico que justifica a escolha do nome nórdico/báltico por uma banda baseada em solo húngaro.

O registro científico na área médica

Para além da história medieval, o nome também batiza a Doença de Bornholm na literatura médica (cientificamente denominada pleurodinia epidêmica). O vírus Coxsackie B causa essa infecção viral rara, caracterizada por fortes dores musculares no tórax e no abdômen. A medicina adotou essa nomenclatura porque os cientistas documentaram um dos primeiros grandes surtos da enfermidade justamente entre os moradores da ilha dinamarquesa, na década de 1930.

“Quando o mundo estiver desmoronando,
Eu ressurgirei do meu túmulo
Quando a colheita chegar,
Que as almas venham a mim
Ao Deus da Guerra!

Aço frio em minha mão,
Carne morta alimenta as terras
Minha ira está furiosa,
Os crânios estão cheios de sangue”

Nota: 9,5

Integrantes:

  • Péter “Sahsnot” Sallai (baixo, guitarra, teclado, vocal)
  • Dávid “D.” Juhász (bateria)

Artistas convidados:

  • Mike Wead (guitarra solo – faixa 5)

Faixas:

  1. I Divine
  2. My Evangelium
  3. Sky Serpents
  4. The Key to the Shaft of the Abyss
  5. Black Shining Cloaks
  6. Spiritual Warfare
  7. Darkened Grove
  8. To the Fallen
  9. I Am War God
  10. Apotheosis
  11. Enthronement
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