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Resenha: Arkona (Аркона) – “Kob'” (2023)

O Arkona, banda russa da vocalista Masha Scream, lançou o álbum “Kob'”, novo trabalho via Napalm Records.

   

Nem sempre as melhores obras de arte estão envolvidas entre as vertentes mais habituais de um estilo, por assim dizer. E decerto, é notória a busca por artifícios que venham a expandir os horizontes de determinado sujeito. Inegavelmente, estamos tratando sobre o Heavy Metal e seus principais subgêneros. Entretanto, estamos diante de um subgênero mais tribal, que retrata as tradições de uma época longínqua, além deste se unir com linhagens mais obscuras e maléficas. Portanto, trata-se da fusão chamada Pagan/Black Metal.

Embora os russos do Arkona (Аркона, no original em alfabeto cirílico) possuam fortes ligações com o Folk Metal, a maior porcentagem de suas criações caminham por entre o hino pagão e o metal negro. E em contrapartida, temos elementos de Heavy, Death e até Thrash Metal. Todavia, com poucas doses desses tipos de conhaques em sua sonoridade.

A ambição musical do exército russo

Ao passo que uma banda promove uma quantidade relativamente grande de álbuns durante a sua trajetória, alguns desses álbuns iniciais acabam recebendo uma nova roupagem ou até mesmo uma regravação, o que é o caso do álbum “Vozrozhdenie” (do original, “Возрождение”). Trata-se do debut da banda, lançado originalmente em 2004, no dia 20 de abril. Porém, o segundo álbum também foi lançado no mesmo ano, só que um pouco depois, no dia 30 de dezembro. Esse é álbum atende por “Лепта” (lê-se: “Lepta”). O significado do primeiro álbum é o renascimento e o do outro é o ácaro. Portanto, o idioma até pode assustar de início para quem não está habituado a ouvir algo calcado nos dialetos do leste europeu, mas as traduções mostram a simplicidade e a beleza da poesia russa. Afinal, o tema envolve as tradições, o folclore, a mitologia e os laços pagãos eslavos.

Ainda sobre a regravação, o debut recebeu seu novo formato em 2016, porém com o nome escrito na forma ocidental. De fato, isso é bem costumeiro da banda e quem já acompanha a carreira de Masha e seu soldados, sabe muito sobre esse aspecto bem interessante.

Em suma, podemos tratar a discografia com nove full lengths e uma regravação. Assim sendo, não fica tão complicado de entender e fazer a contagem correta dos álbuns.

Arkona / Bandcamp

A lamúria e a agressividade do Arkona

Primeiramente, é bom relembrar a situação musical do Arkona até o lançamento de “Kob'”. Com o lançamento de “Goi, Rode, goi!” em 2009, quinto álbum até então, a banda russa alçou voos maiores a ponto de ingressar no continente americano. Mesmo cantando em seu dialeto local, o Arkona surpreendeu a ponto de excursionar por toda a América e realizando sua estreia no Brasil em 2012. Antes disso, a banda lançou seu sexto álbum intitulado “Slovo”, ambos os trabalhos tendo versões nacionais. Porém, o principal é certamente a sonoridade, densa, lamuriante, vibrante e com aquela sensação de contragolpe em uma batalha, na qual o cavaleiro busca em seu último respingo de suor uma chance de vencer seu adversário.

O Black Metal ríspido e técnico ao mesmo tempo contornava as imediações da aura de quem pudesse os ouvir. Entretanto, o Arkona não pararia por aí e seguiria incrementando mais detalhes ao seu já robusto som. Foi quando “Yav” veio ao mundo da música em 2014, ano maravilhoso do eterno 7 a 1. Esse álbum acabou trazendo a calmaria das águas do rio límpido em contraste à devastação sonora dos discos anteriores. Muitos fãs não entenderam a proposta desse álbum, já querendo impor que o Arkona havia desistido de fazer sua música de outrora. Contudo, a diferença é que ficou menos denso, com mais melodias, meio que dedicando uma pausa nos conflitos históricos. Após a reflexão, a banda voltaria a encarnar a destruição com maravilhoso álbum “Khram”, de 2018.

A sequência entre “Khram” e “Kob'”

“Khram” veio de forma furtiva e acertou em cheio os tímpanos de quem se deparou com ele. Com toda a certeza, se trata de um dos álbuns mais inspirados de Masha e seus bardos aliados. A banda despejou toda a fúria aliada ao Black Metal bem tocado, com a intenção de fazer o ouvinte mergulhar de cabeça no mundo sofrido e resistente dos povos eslavos. Porém, o assunto não fica restrito ao passado e às tradições locais. Tudo isso é interligado aos tempos atuais, dos quais estamos passando por uma bateria imensa de erros, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, que a Masha tanto condena, as epidemias catastróficas e as pessoas sem alma, pois todas parecem estar fadadas a dizer o adeus definitivo, enterrando a si e ao seu criador no mesmo túmulo.

Coube ao álbum “Kob'” a responsabilidade de continuar toda essa história…

Edaliana Rennenkampf

O conceito e as letras de “Kob'”, segundo Masha Scream

“Neste álbum tentei pintar um quadro do futuro da humanidade que acontecerá se tudo continuar como antes. Nem mais nem menos. ‘Kob” é apenas um reflexo de todos os feitos negros que a humanidade faz com as próprias mãos.”

A vocalista e líder do Arkona explicou da seguinte forma:

“O conceito do álbum é baseado nos acontecimentos atuais do nosso tempo. Cada problema que a humanidade enfrenta é apresentado no álbum na ordem em que inevitavelmente ocorre. Na verdade, o álbum fala da descida gradual da humanidade em direção ao inferno ou ao abismo, um estado de zero absoluto, de ruína total. No caminho para o inferno, a humanidade dá 6 passos, retratados em 6 canções, exceto 1. ‘Izrechenie. nachalo’ e 8. ‘Izrechenie. Iskhod.’.”

A Mãe Mokosh e as Terras Primordiais

   

Eu poderia inserir todas composições em um mesmo parágrafo por conta dos seus versos marcantes e a sua temática, mas muita coisa boa passaria despercebida. Afinal, se trata de mais um trabalho primoroso do Arkona. E para confirmar essa premissa, vamos aos destaques desse carrossel de grandes emoções do esporte sonoro.

“Izrechenie. Nachalo” é quem abre alas para a carruagem sombria passar de forma surpreendente a inserir o ouvinte dentro do plano exposto. Na canção, é citada a Mãe, geralmente referida a deusa Mokosh, a qual é associada à fertilidade e à terra. Enquanto as Trevas Primordiais se relacionam com entidades místicas que representam a escuridão e o caos antes da criação do mundo.

Figura de Ouroboros diante do princípio de tudo

Os lábios mentirosos do profeta e a lama da religião formam os desafios do caminho dentro do círculo do eterno Ouroboros, que vem a ser a serpente ou dragão que morde a sua própria cauda, assim simbolizando a eternidade e o ciclo interminável da vida. Juntamente de tudo isso, temos em mãos uma poesia musical estridente, latente e envolvente, que inicia em forma de leitura e prenúncio de um mundo cheio de sacrifícios e de pouca luz.

As camadas sonoras introdutivas permeiam o mistério e o antes do início de tudo, o ditado, fazendo-te ter diversas miragens com relação à formação dos grandes eventos do universo. A viagem prossegue e a narração retoma o prelúdio, destacando o caminho através da queda de Mokosh. Conforme as vibrações indicam, estamos diante do começo com cara de fim de tudo.

“A verdadeira essência é invisível aos olhos de uma pessoa com visão, assim como o verdadeiro poder é visível na boca de uma pessoa cega.”

O feitiço da faixa-título

A próxima música que engloba esse emaranhado de emoções profundas é o single “Kob'”, sendo também a faixa que dá nome ao disco.

Embora o conceito do álbum esteja ligado aos acontecimentos atuais, tais como as guerras que perduram ao longo do tempo; Passando por diversas epidemias criadas pelo próprio homem; Além da devastação de toda a natureza e o alcance da humanidade até a escuridão inicial; O feitiço jogado em tempo presente alimenta as trevas e torna tudo infrutífero para a vida.

A trilha sonora é apresentada de modo contido até que toma forma logo em seguida. O pano de fundo acontece de forma gélida e com a intenção de esfriar a espinha do ouvinte. Masha vocifera com sua revolta habitual e mais uma vez ensina como sofrer em voz. Magnífico! A leitura sonora é resumida em um Black Metal repleto de camadas sólidas, lúgubres e frenéticas.

Todavia, próximo à metade da canção temos um intervalo reflexivo em que as camadas de fundo da canção oferecem a estrutura ideal para refletir sobre a essência do início e o antes de tudo, inclusive sobre os caminhos tortuosos para se chegar ao fim definitivo e de maneira trágica. As melodias tomam força do relato musical e servem como um grande portão da imensidão do tempo. Assim, a musicalidade encontra um desfiladeiro de notas e vocais de apoio em coro, proliferando a ideia de um mundo carregado de sofrimento e angústia, certamente acrescentado pelo domínio vocal de Maria Arkhipova, a nossa guerreira Masha.

“Através da dor cega você corre para saciar sua dor
As cinzas há muito mortas que você enterrou
Você está cheio de sede para sair do abismo dos sonhos através do kobi”

O funeral espiritual da humanidade

A terceira faixa também possui um nome bem pequeno. Decerto, estamos falando de “Ydi”. Surpreendentemente, a participação de A. Thanatos na canção funcionou muito bem e de duas formas. A primeira por conta do tema envolvendo a morte, já que Thanatos é o deus da morte. Pois, a música pode ser vista como o enterro de um cadáver vivo ou até mesmo alguém que ainda esteja vivo de forma física, mas que está morto por dentro. Tanto pela alma quanto pela consciência, a qual a humanidade perdeu quase que por completo.

E em segundo lugar, o guitarrista convidado exerceu um papel preponderante e de muito destaque através de seu solo cósmico no meio da peça, conforme a própria Masha cita ao falar da participação do músico. Porém, antes disso, temos um dedilhado inicial comovente, colocando a introdução da canção como ponto crucial para o que vem em seguida. Masha, que sabe bem passear entre vocais limpos e guturais, dessa vez oferece sua voz menos densa em primeiro lugar, para logo depois voltar a encarnar o fim da humanidade em sua própria voz.

   

A canção ganha muita velocidade, cortesia do baterista convidado Kévin Paradis, representante da ala percussiva por todo o álbum. Quando chegam os solos do deus da morte, a faixa é simplesmente coroada com o louvor de notas congelantemente distorcidas. Novas ondulações em forma de notas musicais ganham forma e trazem mais riqueza à estrutura sonora. Inegavelmente, a faixa ganha mais tons cinzentos e abrangem mais as camadas do Black Metal mais atmosférico e melódico, sem jamais perder seu peso habitual. Com a finalidade de esclarecer sobre a despedida da humanidade, o ritmo aumenta e os pedais duplos decolam como uma locomotiva infernal, acompanhada pelos trilhos formados pela guitarra e pelo baixo.

Vozes nos mais diversos tons fúnebres

Ao passo em que “Ydi” se aproxima do fim, é perceptível a variação e a possível inspiração em bandas como Varathron e Rotting Christ com nuances pagãs. As linhas de guitarra e baixo soltam labaredas intensas, enquanto as confecções de bateria enunciam o atordoamento do espírito humano e a sua queda. Em suma, pode ser dito o que for do subgênero oriundo das profundezas de todo o mal, mas existem bandas das quais sabem extrair o que de melhor há no estilo. E para fechar, temos um coral magistral para emulsificar a solução musical. Vozes nos mais diversos formatos, incluindo aqueles anúncios emergenciais, vagam pelos segundos finais para irem de encontro até a próxima canção.

A catástrofe ecológica e revolta da natureza contra a ignorância da humanidade

“Ugasaya” é a quarta joia do infinito russo, mas que pode ser chamada de terceiro passo graças à faixa introdutiva que abre os caminhos do disco. Por entre versos é dito sobre uma catástrofe ecológica em que todos os elementos se levantam em prol da vingança contra a humanidade e seus erros absurdos. As vozes de outrora prosseguem por um curto espaço de tempo, dando lugar aos ritos climáticos e um compasso grave radiante, mas no sentido de pesar e sensação de que tudo está a desabar. A bateria marca presença de forma condutiva e grooveada, somada à percussão, porém nos moldes como se estivesse de frente a uma fogueira para acompanhar o cântico.

Além disso, as camadas que formam a cortina conflitante entre o verde da flora e o cinza da fumaça causada pelas chamas das árvores em apuros, destacam o caos. A Mãe Natureza se revolta e é representada pela explosão sonora, que por sua vez, volta a se acalmar, mas somente para se concentrar e retornar ainda mais forte. Assim como os furacões, terremotos, tornados e assim por diante, os desastres são transformados em música, complementando a desgraça causada pela humanidade. O Black Metal mais melódico surge diante de uma portabilidade mais extrema, culminando em algo muito superior.

Desabafo e aviso sobre nossos erros

Masha expõe as mazelas causadas pela espécie mais corrupta e incapaz do mundo através de seus versos, que por sua vez, são conduzidos de maneira a ligar o presente com o passado e com a mitologia, tanto local quanto global. Sergei Lazar realiza um trabalho de guitarras impecável no sentido de unir os corredores mais insanos do metal negro com as melodias mais lamuriantes, além da climatização toda voltada para o fim dos tempos e somado a um inverno rigoroso. Ademais, vale ressaltar o trabalho de Masha junto às linhas de teclado e vozes adicionais tanto desta quanto das outras canções.

“Você corre como uma fera em direção ao caçador
Atraído por carniça fedorenta
Roendo os ossos das guerras eternas
Você está esperando pelo fim.”

As malditas epidemias

O quinto passo de “Kob'” é “Mor” (quarto, caso siga a linha de raciocínio da compositora). Durante toda a linha do tempo, a humanidade mergulhou em conflitos consigo mesma, ocasionando em uma destruição não somente das coisas e da natureza à sua volta, mas também de si própria. O monstro humano sempre quis realizar experiências com a cobaia humana e a partir de então, os demônios de laboratório foram surgindo aos montes de tempos em tempos até chegar em nossa atualidade. Segundo a canção, o próximo passo é simplesmente o inferno.

Seu início também compreende os sussurros que emendam cada canção. Porém, dessa vez quem manda no recinto são os dedilhados calmos de violão, acompanhados de maneira exímia pela bateria precisa de Kévin Paradis e pelo baixo repugnantemente incrível de Ruslan Kniaz. A escolha como figura de linguagem é a histórica e devastadora Peste Negra e, somado ao comboio de notas que formam o coração de “Mor”, é um prato cheio para lembrar de tanta dor que o ser humano é capaz de causar à sua própria espécie.

A ideia principal da canção é unir dois polos musicais, tornando a mesma em um misto de melodias acústicas com uma devastação sonora do metal negro. Por fim, ainda podemos interpretar tais camadas como interlúdios entre uma epidemia e outra. Entretanto, a música não cai em mares com desaguar repetido, tornando a imersão ainda mais presente e tendo ótimos momentos de puro headbanging.

Contudo, ainda temos a parceria de Vladimir Volk e seus instrumentos de sopro, encantando e trazendo ainda mais brilho para essa faixa.

“Caminhando, caminhando, a Peste Negra
Ela dança no relâmpago da meia-noite
Em caixões frescos
Frio, sussurro
Isso vai te seduzir, vai te enganar
Isso vai te levar embora – você não vai encontrar”

O pôr do sol carmesim

A sexta etapa do processo primordial para a trama europeia do leste é intitulada “Na zakate bagrovogo solntsa”. De acordo com Masha, trata-se de uma música muito pessoal, a qual descreve todos os sentimentos que ela tem por esta guerra insuportável e doentia que lhe roubou tudo. Sua revolta é traduzida através de sua arte e podemos entender um pouco de sua gigante frustração diante do quem vem ocorrendo nesses últimos tempos. Afinal de contas, não bastou ter uma epidemia maldita atrapalhando a vida de todos, mas também precisava de um conflito territorial. Não é mesmo, presidente Vladimir imbecil?!

O pôr do sol carmesim representa a dualidade entre a serenidade da natureza e a brutalidade do conflito, destacando a ironia de um momento pacífico no meio de circunstâncias caóticas. A cor avermelhada e o amarelo são resultantes do processo causado por uma erupção vulcânica, porém aqui o destaque é por conta do derramamento de sangue e a tragédia da eterna guerra. Eterna, pois ela nunca acaba. Apenas muda de lugar, acontece em locais diferentes ao mesmo tempo, e também possui seus intervalos para acontecerem as negociatas entre os magnatas.

   

O envenenamento do planeta

Enquanto hordas de cobras emitem venenos sangrentos no coração da Terra, os cavaleiros do leste europeu contra-atacam com seus instrumentos musicais de batalha. Antes de tudo, temos a emenda de vozes e uma breve introdução ligada a essa estrutura. Logo após temos uma sonoridade calcada em cadência, proveniente da angústia envolvida aos inocentes que se vão durante a invasão territorial. Em contrapartida, temos nos pedais duplos a semente da vingança reunida para aniquilar o adversário.

É assim que a banda toca, exaltando seus campos mais extremos e agressivos. As camadas sonoras e de pano de fundo se unem em prol de uma vitória acachapante para cima do inimigo. A dança das notas forma o equilíbrio ideal para exercer as funções das estrofes sobre todo esse caos causado pela raça cada vez mais inumana.

“Hordas de cobras emitem venenos sangrentos no coração da Terra
Diante dos loucos, na escuridão de uma guerra impiedosa
Deslizando da carne rasgada de ossos frescos
Ao pôr do sol do sol carmesim
Amaldiçoado é aquele que cavou centenas de milhares de sepulturas para nós
Maldito seja aquele que queimou minha casa até as cinzas!”

Edaliana Rennenkampf

As etapas que culminarão na autodestruição do homem como espécie

Rasgando a carne da desesperança da existência é o que antecede o poslúdio de “Kob'”. Portanto, trata-se do significado direto de “Razryvaya plot’ ot bezyskhodnosti bytiya”. Tal composição esclarece e destaca todas as etapas anteriores que culminam em uma catástrofe nuclear. De acordo com a vocalista, este é um passo final que acabará por levar a humanidade ao abismo, à destruição total, através de guerras, crenças religiosas, problemas ambientais e doenças. Por consequência de tais atitudes, é uma autodestruição e uma anulação do mundo por completo.

Mantendo a mesma emenda de vozes de uma música para a outra, aqui acontece o mesmo, então abrindo caminho para os teclados que emulam um piano e enganam a quem acha que vem alguma balada por aí. A veia agressiva toma conta do cenário mais uma vez e esmiúça toda a ideia sobre o fim que se aproxima. Em seguida, temos outra notável sequência de sonoridade mais intuitiva até que entram os refrãos em vozes limpas e finas. Com toda a certeza, a trama foi elaborada passo a passo para que se pudesse apreciar o brilho de cada passagem sonora durante a viagem.

A voz dos caídos nesta canção clama: “Corra antes que o dilúvio chegue”, apelando à humanidade ainda viva para que recupere a razão. Mais uma vez, Vladimir Volk surge com o intuito de acrescentar seus equipamentos de sopro ao enredo musical e de maneira muito digna. Por fim, a canção segue ao longe com sua devoção ao metal extremo para depois contrastar e elevar seus experimentos mais sentimentais e melodiosos, dando um charme a mais ao templo da música obsoleta e nefasta.

“Rasgando a carne da desesperança da existência
Sob o olhar dos santos tolos, aprisionados nas paredes do cativeiro eterno
Você rasteja sozinho na escuridão das águas envenenadas, para lugar nenhum
Abraçado pelo esquecimento do conhecimento da decadência
Corra antes que a maré suba”

A completa aniquilação

Eis a apoteose com “Izrechenie. Iskhod”. É ela quem resume todo o álbum, discorrendo sobre o desaparecimento completo e sem esperança da humanidade e a aniquilação total do mundo. Assim sendo, o homem veio da escuridão e a ela retornou. O ditado revela o êxodo causado pelas tragédias do homem e as incessantes investidas fracassadas. E é por causa de determinado comportamento inadequado que somente através da nossa destruição chegaremos à purificação.

Assim como acontece na abertura do disco, aqui a conduta é semelhante. Portanto, em meio ao conjunto de vozes que recitam os dizeres sobre a condenação humana e o seu funeral, o som que acompanha é algo contemplativo de forma que se possa imaginar realmente uma passagem após esse final categórico.

“Que a falecida Mãe nos realize uma festa fúnebre, apenas ecoando a sua através do suspiro pesado do Universo Infinito, que aqui concede nova vida do seio das Trevas Primordiais.
Kob, seu Kob é uma festa fúnebre…”

O significado entre mundos

Sabemos que o conceito do álbum “Kob'” está ligado ao que a humanidade vem realizando desde o início dos tempos, acumulando uma sequência absurda de erros e sempre colocando a culpa em quem não tem nada a ver com seu fracasso. A ligação entre as tradições locais, de outros povos, juntamente com os acontecimentos atuais, fazem dessa obra algo único dentro da discografia e coloca Masha como uma compositora de mão mais do que cheia.

O formato do álbum com uma apresentação e uma finalização por moldes semelhantes, fazem do disco algo bastante rico em se tratando de sonoridade mais temática. Para os puritanos, é bom dizer que sim, se trata de um álbum de Black Metal com aquela dose bacana de Pagan e Folk Metal na trama. Sem nada exagerado e nada festivo como em outros álbuns. Assim é o Arkona atual e parece que perdurará dessa maneira por mais algum tempo, o que é ótimo, por assim dizer.

   

Já o conceito envolvendo a guerra entre Rússia e Ucrânia, Masha já fez uma declaração em sua rede social quando a guerra estava apenas começando, pois além do sofrimento humano, destruição e inúmeras mortes em si, a líder do Arkona é completamente contrária a tudo isso e outro agravante é o fato dela ter parte da sua família residindo em território ucraniano.

Informações cirílicas adicionais

“Kob'” foi lançado no dia 16 de junho e traz uma arte de capa que exprime toda a ideia contida no álbum. Portanto, a um modo mais simplório de dizer, é uma imagem abstrata de uma mulher de diferentes idades, cujas diferentes faces representam todo o caminho do desenvolvimento humano, do nascimento à morte, onde a própria humanidade é mostrada sob diferentes ângulos de sua existência e essas faces vão se relacionando gradativamente com cada uma delas. Edaliana Rennenkampf foi responsável pelos cliques para as fotografias, enquanto a produção e mixagem sendo realizada pelo casal Masha e Sergei Lazar, com a masterização também sendo feita pelo guitarrista.

A arte de capa, design e layout foram desenvolvidos pelas mesmas pessoas com quem a banda trabalhou na arte do álbum “Khram”. Ou seja, uma dupla misteriosa com o já mundialmente famoso nome “Rotten Fantom”. Em suma, este é todo o processo de magia que é realizado através de um feitiço “Kob'”. Gravado, mixado e masterizado no CDM Records Studio.

Assim como Masha, todos os integrantes do Arkona carregam apelidos em seus sobrenomes. Lazar se chama Сергей Атрашкевич (Sergey Atrashkevich); Kniaz atende por Руслан Оганян (Ruslan Oganyan); Volk, o dono da gaita de fole e seus derivados, é o Владимир Решетников (Vladimir Reshetnikov). Por fim e também para reforçar a informação, temos a Мария Архипова (Maria Arkhipova), mais conhecida como Masha Scream.

E esse feitiço acabou sendo lançado de forma exemplar e sem deixar pedra sobre pedra! E que o Arkona possa retornar ao Brasil em breve...

“В омуте тьмы искушения плена
Чрез кобь роешь могилу бренного тлена
Кровь с рваных ран вершит омовенье
Праха истлевшего новорождение”

“Na piscina das trevas a tentação do cativeiro
Através do kobi você cava a sepultura da decadência mortal
Sangue de lacerações realiza abluções
Cinzas do recém-nascido em decomposição”

Nota: 10,0

Integrantes:

  • Masha “Scream” (vocal)
  • Ruslan “Kniaz” (baixo)
  • Sergei “Lazar” (guitarra)
  • Vladimir “Volk” (Instrumentos de sopro – faixas 5, 7)

Artistas convidados:

  • Kévin Paradis (bateria)
  • A. Thanatos (guitarra solo, efeitos – faixa 3)

Faixas:

1. Izrechenie. Nachalo
2. Kob’
3. Ydi
4. Ugasaya
5. Mor
6. Na zakate bagrovogo solntsa
7. Razryvaya plot’ ot bezyskhodnosti bytiya
8. Izrechenie. Iskhod

Redigido por Stephan Giuliano

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