Que diabo de disco é esse? Kreator – Endorama (1999)

Poucos discos na discografia do Kreator provocam discussões tão intensas quanto Endorama. Lançado em 1999, o álbum marcou o ponto mais distante entre a banda alemã e o Thrash Metal que havia consagrado obras como Pleasure To Kill, Extreme Aggression e Coma Of Souls. Por isso, durante muitos anos, o trabalho carregou a fama de ser um dos momentos mais controversos — para alguns, o mais problemático — da carreira do grupo.
No entanto, o tempo costuma mudar a forma como determinados álbuns são percebidos. Depois de décadas sendo tratado quase como um erro histórico, Endorama passou a conquistar alguns apreciadores, especialmente entre ouvintes que conseguem encará-lo longe da expectativa de encontrar ali outro disco clássico de Thrash Metal. Afinal, ele é tão ruim assim? Ou estamos diante de um álbum com qualidades próprias, prejudicado por ter sido lançado no momento errado e com o nome Kreator estampado na capa?
Foi justamente essa discussão que motivou o programa especial “Que diabo de disco é esse? Kreator – Endorama (1999)”, apresentado no canal do Mundo Metal por Fabio Reis, Daniel Dante e Marcelo Araújo. O episódio mergulha nas polêmicas, nas escolhas estéticas e no peso que o álbum ainda carrega dentro da trajetória da banda.
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As críticas que perseguem Endorama
A principal crítica direcionada a Endorama é bastante simples: para muitos fãs, ele soa pouco como um disco do Kreator. Depois de uma fase de experimentações nos anos 90, iniciada de forma mais radical em Renewal, passando por Cause For Conflict e Outcast, a banda chegou a 1999 abraçando de vez uma sonoridade mais ligada ao Gothic Metal, ao Gothic Rock e a atmosferas sombrias, melancólicas e menos agressivas.
Para quem esperava riffs cortantes, velocidade, violência e a urgência típica do Thrash Metal alemão, o choque foi enorme. Endorama aposta em andamentos mais cadenciados, refrães mais melódicos, vocais menos rasgados de Mille Petrozza e uma estética muito mais sombria do que furiosa. A agressividade ainda aparece em alguns momentos, mas ela já não conduz o álbum da mesma forma que fazia nos clássicos dos anos 80 e início dos anos 90.
Além disso, muitos ouvintes apontam que o disco sofre com composições irregulares. Algumas faixas constroem boas atmosferas, enquanto outras parecem arrastar ideias que não chegam a explodir. A produção mais limpa, os teclados discretos e o clima gótico também afastaram parte do público que via no Kreator uma das bandas mais ferozes da escola alemã de Thrash Metal.
Na época, a recepção comercial também não indicou uma grande virada positiva. Em seu lançamento original, Endorama alcançou apenas a modesta posição 68 nos charts alemães. O dado ajuda a entender como o álbum chegou a um público dividido e, em boa parte, desconfiado da nova direção.
O outro lado da história
Por outro lado, Endorama também possui defensores — e esse grupo parece ter crescido com o passar dos anos. A principal defesa do álbum está em sua identidade. Mesmo distante da fase clássica do Kreator, ele não soa como um disco genérico. Pelo contrário: existe uma personalidade muito clara em suas melodias, no clima sombrio e na escolha de levar a banda para um território emocionalmente mais frio e decadente.
Faixas como “Golden Age”, “Endorama”, “Chosen Few”, “Passage To Babylon” e “Tyranny” mostram um grupo tentando construir uma estética própria dentro daquele universo mais gótico. A participação de Tilo Wolff, do Lacrimosa, na faixa-título, reforça essa proposta e deixa evidente que o álbum não flertava apenas superficialmente com esse tipo de sonoridade.
Outro ponto favorável é que Endorama fica mais interessante quando o ouvinte abandona a exigência de encontrar ali uma continuação natural de Coma Of Souls. Como disco de Thrash Metal, ele falha em muitos aspectos. Como uma experiência sombria, melódica e gótica feita por uma banda em crise de identidade, ele ganha outra leitura. Talvez não seja um grande álbum, mas também não é uma obra sem valor.
Curiosamente, o relançamento de 2022 trouxe um sinal claro dessa reavaliação. A nova edição de Endorama alcançou a sexta posição nos charts alemães e permaneceu por duas semanas na parada. O mesmo disco que havia entrado de forma tímida em 1999 voltou décadas depois com desempenho muito mais expressivo, impulsionado por colecionadores, curiosidade histórica e uma nova disposição do público em revisitar a fase mais polêmica do Kreator.
A visão de Mille Petrozza
O próprio Mille Petrozza já falou sobre Endorama com uma honestidade que ajuda a compreender melhor o álbum. Em entrevista recente à Louder, o vocalista e guitarrista reconheceu que Endorama é um bom disco, mas também admitiu que a banda demorou para perceber uma diferença fundamental: gostar de música gótica não significava necessariamente precisar fazer “um álbum gótico”.
Segundo Mille, o caminho mais equilibrado teria sido escrever um disco de Metal com influências góticas, em vez de mergulhar tão profundamente naquela estética. Essa observação explica bastante coisa. Endorama não erra por ter elementos góticos; o problema está no quanto esses elementos tomam conta da identidade do álbum, quase empurrando o Thrash Metal para fora da sala.
Esse aprendizado, no entanto, não foi inútil. Nos anos seguintes, o Kreator encontrou uma forma muito mais eficiente de unir agressividade, melodia, dramaticidade e atmosfera. A partir de Violent Revolution, lançado em 2001, a banda iniciou uma nova fase que recuperou a força thrash sem abandonar completamente as lições aprendidas durante os anos 90.
Um mal necessário?
No fim das contas, Endorama merece grande parte das críticas que recebe. Ele realmente soa distante demais daquilo que tornou o Kreator uma das bandas mais importantes do Thrash Metal europeu. Sua sonoridade pode parecer deslocada, algumas músicas não sustentam todo o peso da proposta e a guinada gótica foi brusca o suficiente para afastar muitos fãs.
Ainda assim, talvez seja impossível contar a história moderna do Kreator sem passar por ele. Sem Endorama, provavelmente não teríamos o início da fase atual da banda, que mescla o ataque thrash de discos como Extreme Aggression e Coma Of Souls com melodias, climas épicos e elementos atmosféricos que começaram a ser testados de forma mais extrema naquele período.
Por isso, Endorama pode ser visto como um mal necessário na carreira do Kreator. Não é o disco que melhor representa a banda, nem o mais indicado para apresentar o grupo a alguém. Porém, ele ajudou Mille Petrozza a entender até onde poderia ir sem descaracterizar completamente sua própria identidade.
Também é normal que mais pessoas gostem dele hoje. Afinal, o Kreator não permaneceu preso a esse tipo de som e conseguiu evoluir nos álbuns posteriores. A existência de uma fase posterior forte torna Endorama menos ameaçador para a discografia. Ao mesmo tempo, também é perfeitamente compreensível que quem viveu a época de seu lançamento mantenha um tom crítico muito mais alto. Para esse público, o impacto não foi retrospectivo; foi imediato.
E você, o que acha de Endorama? O álbum foi incompreendido ou realmente representa um dos momentos mais fracos do Kreator? Deixe sua opinião no espaço destinado aos comentários.