O Rock In Rio flopou… e este é só o começo do problema!

Nós avisamos que a bolha dos shows começaria a estourar em 2026.

Pois bem: a flopada do Rock in Rio não é um acidente de percurso e tampouco um caso isolado. Muito provavelmente, estamos diante de um dos primeiros sinais realmente evidentes de uma mudança de paradigma que já era previsível.

Bom, pelo menos para quem analisa o cenário de forma pragmática.

E nós vamos desenhar para você a explicação.

Quando falamos em “flopada”, obviamente não estamos dizendo que ninguém comprou ingressos ou que todas as datas fracassaram. Alguns dias venderam muito bem e chegaram ao sold out. O ponto é outro: um festival historicamente acostumado a criar enorme sensação de urgência chegou à edição de 2026 com datas importantes sem esgotar, incluindo justamente dias ligados ao Rock e ao Metal.

E isso, para um evento do tamanho e da força da marca Rock in Rio, é um sinal que merece atenção. Principalmente porque ele não está acontecendo sozinho.

Grandes festivais se multiplicaram, turnês internacionais passaram a incluir cada vez mais datas no país e, paralelamente, houve uma explosão de eventos menores envolvendo artistas de nicho, especialmente no Rock e no Metal, mas com públicos consolidados.

Nunca houve tanta oferta. E esse é justamente o problema. A quantidade de dinheiro disponível no bolso das pessoas definitivamente não cresceu.

O primeiro sinal foi sentido no Rock in Rio

O Rock in Rio 2026 teve dias esgotados e seria errado afirmar que a edição inteira fracassou. Alguns dias tiveram seus ingressos vendidos em pouco mais de duas horas e, posteriormente, outras datas também chegaram ao sold out.

Mas existe outro lado da história.

Às vésperas do início do festival, ainda havia ingressos disponíveis para várias datas. No dia 3 de setembro, apenas um dia antes da abertura da Cidade do Rock, ainda existiam muitas entradas para os dias 4, 5, 11 e 13.

Isso é bastante significativo para um evento do tamanho do Rock in Rio. A própria Folha chamou atenção para algo pouco habitual na história do festival: os dias dedicados ao Rock e ao Heavy metal chegaram ao momento de sua realização sem que uma quantidade considerável dos ingressos fossem vendidos. A publicação lembrou que, desde que o festival voltou a acontecer regularmente no Rio de Janeiro em 2011, isso não é comum.

O dia de abertura, encabeçado pelo Foo Fighters, e a noite “mais pesada”, com Avenged Sevenfold, Bring Me The Horizon, Sepultura, Bad Omens, Poppy e outros nomes, não conseguiram produzir a tradicional corrida por ingressos. Obviamente, a escolha do lineup não favoreceu, mas isso é assunto para outra matéria.

O que realmente aconteceu é que há uma disputa por atenção com dezenas de outros shows.

O fã não compra apenas um ingresso

Existe uma maneira muito simplista de analisar o mercado de shows:

“Se o artista é grande, o público paga.”

Não é assim que funciona. O ingresso é apenas a primeira despesa. Quem viaja para assistir a um show paga transporte, combustível ou passagem aérea, hospedagem, alimentação e deslocamento dentro da cidade. Quem mora na mesma cidade também paga transporte, estacionamento, alimentação e bebidas.

E praticamente tudo dentro de grandes eventos é vendido com valores superfaturados. No Rock in Rio, somente o ingresso de gramado custava R$ 870 na inteira ou R$ 435 na meia-entrada. A nova Comfort Zone chegava a R$ 1.950.

Some passagem, hotel, alimentação e bebidas…

Para uma pessoa que mora fora do Rio de Janeiro, uma única noite de festival pode facilmente se transformar em uma viagem de milhares de reais. Agora multiplique isso por vários eventos ao longo do ano.

A conta simplesmente não fecha.

O Brasil encontrou seu limite

Existe ainda um problema estrutural. O salário médio do brasileiro é baixo para o padrão de preços praticados atualmente pelo mercado de entretenimento.

Não é necessário realizar uma grande análise econômica para compreender o resultado. Existe um número limitado de pessoas dispostas e, principalmente, capazes de gastar centenas ou milhares de reais frequentemente com shows. Mesmo entre os fãs mais apaixonados.

Durante algum tempo, o mercado interpretou filas, sold outs e grandes festivais lotados como evidência de que existia espaço praticamente infinito para novas atrações.

A resposta das produtoras foi previsível:

  • mais shows.
  • Mais festivais.
  • Mais datas.
  • Mais setores premium.
  • Ingressos mais caros.
  • Pacotes VIP ainda mais caros.
  • E novos anúncios praticamente todas as semanas.

Os promotores seguiram dobrando a aposta e testando até onde o público conseguiria acompanhar. Agora começamos a descobrir a resposta.

Os sinais estão aparecendo por todos os lados

Não estamos falando apenas do Rock in Rio. Em maio, toda a turnê sul-americana do Drowning Pool foi cancelada. No Brasil, estavam previstas apresentações em Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba. O motivo informado pelos produtores foi direto: baixa venda de ingressos.

Pouco depois, o show do Six Feet Under em Recife também foi cancelado. Mais uma vez, a produtora afirmou que o volume de ingressos vendidos não era suficiente para tornar o evento viável.

Até eventos maiores começaram a apresentar sinais. O Iron Maiden tem duas apresentações no Nubank Parque, em São Paulo, em outubro. A segunda data foi anunciada diante da forte procura inicial, mas, meses depois, ainda há disponibilidade para o show extra. Talvez seja justamente esse o exemplo mais interessante. Se até uma das bandas historicamente mais fortes dentro do mercado brasileiro encontra maior dificuldade para esgotar uma segunda apresentação de grande porte, então alguma coisa no mercado mudou.

Outro exemplo recente é o Sepultura. A banda anunciou seu último show para a Mercado Livre Arena Pacaembu, mas transferiu a apresentação para a Suhai Music Hall, uma casa consideravelmente menor.

E existe ainda o caso do Slayer. O grupo tem apresentação marcada para dezembro no Nubank Parque, celebrando os 40 anos de Reign In Blood, com Kreator e Korzus na programação. Os ingressos chegam a R$ 890 na pista premium e R$ 650 em setores de cadeira. Segundo informações de bastidores, a venda estaria consideravelmente abaixo da capacidade total do estádio. Não há, até o momento, números oficiais divulgados pela produção que permitam confirmar exatamente a proporção de ingressos restantes, por isso esse dado precisa ser tratado como informação extraoficial.

Ainda assim, o simples fato do evento permanecer longe de um sold out também faz parte de um cenário maior.

Mas o público perdeu o interesse?

Não. Esse é provavelmente o maior erro de interpretação possível. As pessoas continuam interessadas em música ao vivo, querem ver suas bandas favoritas, continuam acompanhando anúncios e reclamam quando determinada turnê não passa pelo Brasil.

O problema é outro: o dinheiro não é infinito.

Durante muito tempo, o fã se perguntava:

“Vou ao show?”

Agora a pergunta passou a ser:

“Qual desses shows eu vou?”

Essa diferença altera completamente o funcionamento do mercado. Quando existem dois ou três grandes eventos durante determinado período, uma parcela do público consegue participar de todos eles. Quando existem dez, quinze ou vinte opções disputando praticamente a mesma base de consumidores, o comportamento muda e o fã começa a fazer escolhas.

  • Iron Maiden ou Slayer?
  • Festival ou show solo?
  • Pista premium ou dois shows mais baratos?
  • Viajar para São Paulo ou esperar alguma atração aparecer na minha cidade?

O público começa a eliminar eventos da agenda. Não necessariamente porque eles sejam ruins, mas porque alguma coisa precisa ficar de fora.

O problema não é falta de demanda. É excesso de oferta

Esse talvez seja o ponto central da discussão. A demanda por grandes shows continua existindo. O que parece ter acontecido é que a oferta passou a crescer mais rapidamente do que a capacidade financeira do público. Em economia, isso é praticamente a definição de saturação.

E o próprio Rock in Rio oferece uma demonstração interessante. Alguns dias venderam rapidamente, outros não. O público não desapareceu, ele simplesmente escolheu.

Quando Maroon 5, Calvin Harris ou Elton John geraram maior percepção de exclusividade ou mobilizaram comunidades extremamente engajadas, os ingressos responderam. Quando a programação pareceu menos imperdível diante de um calendário gigantesco de shows, o consumidor percebeu que podia deixar passar.

Essa mudança psicológica é importante. Durante anos, grandes produtores trabalharam com o medo do público de ficar de fora dos eventos. “Compre agora porque vai esgotar”. O público está começando a descobrir que nem sempre vai. E quando essa percepção se espalha, muda também o comportamento de compra.

  • O fã pode esperar.
  • Pode analisar.
  • Pode decidir depois.
  • Pode buscar promoção.
  • Pode simplesmente escolher outro evento.

Existe ainda outro problema: repetição

O Brasil recebe muitos shows, mas recebe também muitos artistas repetidamente.

A própria análise sobre o Rock in Rio apontou a repetição de atrações como um dos fatores que podem ter contribuído para a dificuldade de venda dos dias de Rock e Metal. Além disso, é necessário identificar um outro problema: houve uma desconexão com o que o público quer ver e o que a produção do festival entende como atrações viáveis. Esse ponto é fundamental. Quanto maior a frequência de visitas e menor o interesse gerado pela atração, a sensação de urgência vai desaparecendo. Uma banda que passa pelo Brasil depois de dez anos ausente provoca uma reação. Uma banda que esteve aqui há um ou dois anos, voltou para um festival e, provavelmente, retornará em mais um ou dois, produz outra.

O consumidor aprende que haverá uma próxima oportunidade. E a indústria está descobrindo que nostalgia também possui limite.

O que acontece agora?

Essa é a parte mais interessante. Porque existem dois caminhos prováveis.

O primeiro seria uma correção natural do mercado.

  • Menos eventos.
  • Casas menores.
  • Ingressos mais acessíveis.
  • Maior intervalo entre turnês.
  • Programações realmente diferenciadas.

Nesse cenário, produtores perceberiam que não existe público suficiente para sustentar indefinidamente o ritmo atual e ajustariam suas operações.

Mas existe uma segunda possibilidade ainda mais provável e, esta sim, consideramos extremamente danosa.

As grandes empresas podem continuar aumentando a quantidade de eventos mesmo aceitando prejuízos pontuais como estratégia. Isso poderia produzir uma consequência grave. Grandes grupos possuem capital para suportar alguns fracassos. Produtores independentes, não.

Uma sucessão de eventos deficitários pode significar simplesmente o desaparecimento de pequenas e médias produtoras, reduzindo a diversidade do mercado e concentrando ainda mais a indústria de shows nas mãos de poucos grupos. Esse talvez seja o verdadeiro risco da atual bolha.

Não é apenas ver um estádio com cadeiras vazias. É assistir a um processo de canibalização do próprio mercado.

A conta chegou

Existe hoje uma quantidade gigantesca de eventos disputando o mesmo dinheiro, enquanto ingressos, viagens, hospedagens, alimentação e todos os custos associados continuam aumentando de forma desproporcional.

Em algum momento, a matemática precisaria aparecer. O consumidor brasileiro está entendendo que não conseguirá ir a tudo. As produtoras terão que entender a mesma coisa.

Se o calendário continuar crescendo e os preços seguirem subindo no ritmo atual, prepare-se para uma realidade cada vez mais comum: shows que não esgotam, mudanças para locais menores, promoções de última hora e, obviamente, cancelamentos por baixa procura.

Não porque o brasileiro deixou de gostar de música, mas porque finalmente chegou o momento em que a oferta de shows ficou maior do que o bolso do fã consegue acompanhar.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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