O Heavy Metal pode ser cristão ou religioso?

Religião e Heavy Metal combinam? Existe uma discussão atemporal sobre este tema e sempre que alguém resolve colocar o dedo na ferida, vemos discussões acaloradas com pessoas defendendo visões e posicionamentos diferentes.

A grande questão é que na maioria das vezes, estes discursos acabam se perdendo pois são enviesados e repletos de narrativas passionais. Dessa forma, podemos nos questionar:

“mas então como é que se chega a um veredicto final de maneira lógica e objetiva?”

Se você gostaria de encontrar esta resposta, esta matéria é para você!

Sem paixões e sem ideologias, vamos desmistificar o assunto e te apontar onde os defensores dos dois discursos erram e acertam. E para isso, devemos começar do princípio, afinal, o Heavy Metal não é uma pessoa física, não possui gostos, crenças e ideologias próprias. O Heavy Metal é um gênero musical, mas também não surgiu à partir de nenhum movimento organizado e não foi criado por pessoas engajadas em pautas de qualquer natureza. Sendo assim, algo abstrato que foi sendo moldado ao longo dos anos por inúmeras bandas diferentes, obviamente, não poderia ter posicionamentos próprios, como se existisse uma “persona Heavy Metal” tomando decisões e escolhendo direcionamentos.

Isso pode soar confuso já que diversas narrativas tentam te enganar, te confundir e demonstrar através de falácias que o estilo faz parte de algo engajado, politizado e possui uma série de regras a serem seguidas.

Não! Um sonoro não para essas afirmações!

O vídeo que inspirou esta matéria foi publicado no último dia 6 de junho, no canal Além do Metal Clássico, apresentado por Carlos Chaves. Assista ao vídeo, comece a refletir sobre o assunto e depois vamos nos aprofundar um pouco mais sobre todas estas questões. Não se esqueça de curtir o vídeo, se inscrever no canal e ativar as notificações, o canal Além do Metal Clássico tem abordado assuntos muito interessantes e de uma forma bastante original.

O que o início do Black Sabbath nos ensina?

Podemos estabelecer que o marco zero do Heavy Metal foi o lançamento do lendário álbum de estreia do Black Sabbath (1970). E ao contrário do que foi amplamente divulgado em matérias duvidosas escritas por redatores enviesados, a banda era formada simplesmente por 4 jovens do subúrbio tentando se dar bem na vida através da sua arte. Nada mais do que isso. Esses rapazes desajustados, problemáticos e, ao mesmo tempo, geniais, não faziam parte de grupos, não levantavam bandeiras e tampouco eram afiliados a entidades que defendiam pautas.

E se analisarmos outras bandas do início do Heavy Metal, vamos nos deparar com a mesma história. Os músicos escreviam letras diversas sobre assuntos diversos, isto é, não se limitavam. Era natural falar sobre paz e guerra, sobre deus e o diabo, sobre histórias tristes e felizes, sobre política, relacionamentos e religião, não havia regra. E este último trecho é importante, “NÃO HAVIA REGRAS”.

Photo: Duffy Archive/Courtesy of Rhino

Geezer e suas letras polêmicas

Foi dessa forma que o principal letrista do Black Sabbath, o baixista Geezer Butler, se sentia a vontade para falar sobre o mago Gandalf (de O Senhor dos Anéis) em “The Wizard”, sobre um conto do escritor HP Lovecraft em “Behind The Wall Of Sleep”, sobre o uso de drogas em “Sweat Leaf” e “Snowblind”, sobre os donos do poder que fomentam as guerras em “War Pigs” e, finalmente, alertar as pessoas sobre os perigos do satanismo na letra de “Black Sabbath”. Sim, a canção homônima era exatamente sobre isso e quem confirma é o próprio autor, Geezer Butler, em entrevista ao canal Life Minute:

“E a música ‘Black Sabbath’ era contra a magia negra. Porque havia uma grande onda de magia negra acontecendo na Inglaterra no final dos anos 60, todo mundo estava se envolvendo com magia negra e satanismo e todo esse tipo de coisa. A música ‘Black Sabbath’ estava na verdade alertando as pessoas sobre não entrar na magia negra e no satanismo.”

Sobre como a música do Black Sabbath foi interpretada nos EUA, ele revelou que foi algo diferente:

“Ninguém realmente se importava com isso na Europa e na Inglaterra. Então, quando cheguei à América, não pude acreditar o quão grande o cristianismo ainda era. Havia todas essas pessoas que estavam tentando transformar letras em algo pró-cristianismo. Eles tentaram fazer coisas contra nós no começo, mas eles nos interpretaram completamente mal.”

Reprodução/Facebook

O Black Sabbath, como banda pioneira do estilo, na verdade era formado por músicos cristãos. Geezer nesta mesma entrevista fala sobre a letra de “After Forever”:

“Eu acho que muitas coisas foram mal interpretadas, apenas por causa do nome da banda, Black Sabbath. Veja a música ‘After Forever’, ela é a coisa mais cristã que você poderia ouvir. Trata-se de perder a fé. As pessoas pensam que perderam a fé e, no leito de morte, o que vão fazer no leito de morte? Será que vão adquirir a fé novamente e de repente acreditar na coisa toda de novo ou não?”

O que isso quer dizer?

É simples. Quer dizer que o Heavy Metal, como gênero musical, é livre de amarras ideológicas e os músicos que tocam Heavy Metal, como indivíduos pensantes e dotados de livre expressão, podem escrever sobre o que quiserem. Suas bandas favoritas podem se posicionar da maneira que quiserem e defender os ideais que quiserem, obviamente, desde que não cometam crimes.

“Espera um pouco, você está me dizendo que apesar da instituição igreja ter perseguido o gênero através das décadas, mesmo assim, somos obrigados a aceitar esta ideologia se proliferando dentro do Heavy Metal?”

Vamos por partes:

1 – Como já foi dito, você é livre. O único conceito realmente enraizado dentro do Heavy Metal é o da liberdade, mas existem diversos pontos a serem analisados e vamos fazer isso logo adiante. Sendo assim, não existe obrigatoriedade em aceitar ideologia alguma, esta é uma decisão individual sua. Como também é uma decisão individual de outra pessoa querer aceitar…

2 – Os músicos que pregam cristianismo, satanismo, ateísmo ou qualquer outra crença dentro do Heavy Metal, não fazem isso em nome do gênero, ninguém tem uma procuração para falar em nome de um estilo musical tão abrangente e diverso. Estes artistas representam suas próprias crenças e ideais e transmitem seus pensamentos individuais através das suas músicas. Você pode concordar ou discordar das letras que seus artistas favoritos escrevem, simples assim. Inclusive, não há problema algum em discordar de um posicionamento de um músico que você admira.

Portanto, este papo furado sobre obrigatoriamente ter que conhecer todas as letras e posicionamentos de determinada banda para ganhar “permissão” ou alguma espécie de “certificação” para poder ouvi-la, é apenas balela. Você pode ser uma pessoa engajada politicamente ou religiosamente e achar importante ouvir músicas que transmitem conceitos sobre suas crenças, mas pode perfeitamente ser alguém que usa a música de uma maneira muito mais simples. Neste último caso, se você ouve Heavy Metal com a finalidade de obter prazer, lazer, distração ou apenas ser atingido e arrebatado pela energia dos riffs, solos e melodias contagiantes, não deve se deixar levar por outros pontos que você, por ventura, possa considerar menos importantes.

Devemos nos lembrar que ouvir/consumir música é uma experiência basicamente individual e cada pessoa irá encontrar a sua maneira de fazer isso. Sem regras, dogmas ou padrões pré-estabelecidos.

Mas então por que cristianismo e conservadorismo são mal vistos dentro do Heavy Metal?

Esta é outra questão simples e vamos te ajudar a entender e refletir à respeito.

O Heavy Metal é originário do Rock and Roll. E o Rock nasceu com músicos que se rebelaram contra conceitos, dogmas e padrões da sociedade da época. O Rock é por natureza transgressor, já que para existir ele precisou amalgamar dois gêneros musicais que não se misturavam. Os Estados Unidos viviam uma divisão racial histórica onde brancos e negros não dividiam os mesmos lugares, não tinham os mesmos direitos e recebiam tratamentos opostos. Mas mesmo assim, o Rock nasceu da transgressão e da ousadia de músicos negros que misturaram o Blues (música dos negros) com o Country (música dos brancos).

Depois disso, o Rock ganhou mais algumas características como a do choque cultural. Elvis chocou a sociedade conservadora norte americana ao aparecer em programas de TVs sexualizando com suas danças e performances. Ele também concedeu ao Rock a rebeldia, enfrentando o Status Quo ao cantar as músicas originalmente feitas pelos negros. Com isso, o Rock se tornou um estilo marginal, porém unificador. Ao contrário da segregação de hoje dentro de segmentos do Heavy Metal, o Rock fez brancos e negros socializarem e celebrarem juntos.

A evolução até o Metal

O Rock and Roll, como estilo musical, se caracterizou por apresentar músicos transgressores, contestadores, rebeldes, enfrentadores, não subservientes e dotados de atitudes absolutamente apostas aos conservadores.

O conservadorismo, enquanto corrente ideológica, é caracterizado pela defesa da preservação de valores, costumes, instituições e tradições, geralmente, com uma visão mais cautelosa em relação às mudanças sociais e políticas, em teoria, buscando manter a ordem e a estabilidade. Primeiro, um conservador crê que existe uma ordem moral duradoura. Segundo, o conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade. Terceiro, os conservadores acreditam no que se poderia chamar de princípio do preestabelecimento. Quarto, os conservadores se guiam pelo princípio da prudência.

Perceba que todos estes conceitos do conservadorismo são absolutamente antagônicos a postura dos roqueiros seminais. Se Elvis fosse um conservador raiz, o Rock sequer existiria. E se existisse, provavelmente, não teria atingido as massas. Um conservador optaria pela manutenção do status quo e iria valorizar costumes já existentes ao invés de subvertê-los. Certamente, iria preferir focar no preestabelecido e não em algo que iria enfrentar, transgredir, desobedecer, chocar e se rebelar…

Como o Heavy Metal nasceu do Rock, estes são alguns dos motivos que fazem muitos acharem “absurdo” alguém dentro do Heavy Metal, se dizer conservador. Uma pessoa que verdadeiramente adote os princípios do conservadorismo, provavelmente, desprezaria figuras como Lemmy Kilmister, Ozzy Osbourne, Dee Snider, Rob Halford e tantos outros.

Independente da música que esses caras tocam, somente pelos estilos de vida, atitudes no palco e fora dele, por suas falas, letras e posicionamentos, um conservador/religioso que realmente entenda e siga suas cartilhas, demonizaria estas figuras. Neste caso, a principal questão é: se você se diz conservador ou religioso, mas ama estes nomes mencionados, existe uma inconsistência nas suas crenças. Você precisa revê-las urgentemente.

E quanto a aquela conversa inicial sobre o Metal ser livre?

O Metal é livre de amarras, portanto, você pode ter a crença que quiser e a ideologia que bem entender, é uma escolha sua.

Contudo, precisa entender um ponto muito importante. Se você for um religioso ou conservador, saiba que a maioria das bandas do seu estilo musical favorito pregam o contrário do que você acredita. Afirmar que você é livre para ser um conservador/religioso e ao mesmo tempo idolatrar e glorificar o life style vivido por Lemmy, é diferente de afirmar que você está sendo coerente. Não existe coerência neste caso.

Se você não vê problema nisso, continue e faça da sua maneira. Agora, se você prega defesa da moral e dos bons costumes às pessoas do seu convívio, mas adora letras de músicas e artistas que pregam e fazem o contrário disso, inegavelmente, estará sendo contraditório.

No final das contas, a decisão será sua, mas tal escolha necessita de uma reflexão um pouco mais profunda, como vimos neste artigo. Você pode pensar: “se os próprios membros do Black Sabbath eram cristãos e escreviam letras com teor cristão, então não tem problema algum”, mas isto seria apenas uma forma de tentar se justificar. Nossa dica é: se aprofunde ainda mais no assunto para tentar chegar a uma opinião razoável e que seja melhor condizente com suas crenças.

Se gostou do conteúdo ou ficou incomodado com a reflexão, se curte este tipo de artigo que vai a fundo, mete o dedo na ferida e estimula o raciocínio, escreva sua opinião no espaço reservado aos comentários.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
1 comentário
  • Para mim ouvir metal/rock e mais pela som e jeito cantado e se mistura torna agradavel de se ouvir a parte lirica para mim sempre foi algo bem irrelevante a musica sendo boa de escutar nao importa o teor lirico ,acho essa divisão dos “white” metal vs metaleiro num geral uma grande baboseira ja que o difere e so tema abordado e tem boas musicas de ambos os lados ,e tem aquele lema faça oque voce quiser so nao incomode os outros se povo perdesse mais tempo ouvindo oque gosta do que criticando oque nao gosta o mundo seria mais agradavel.

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