Neural Wreck aposta em Thrash Metal progressivo no álbum de estreia “Amidst the Ruins”

O Thrash Metal brasileiro continua produzindo novos nomes interessados em preservar a agressividade do gênero sem necessariamente repetir aquilo que já foi feito nas últimas quatro décadas. Um bom exemplo vem de São Paulo com o Neural Wreck, que lançou em junho seu primeiro álbum completo, Amidst the Ruins, trabalho de 11 faixas no qual peso, técnica, melodias e estruturas progressivas dividem espaço.
Disponível desde 12 de junho, o disco sucede o EP Mortal Obsession, lançado oficialmente nas plataformas em 2022, e apresenta uma proposta que a própria banda define como Thrash Metal progressivo. Formado atualmente por JC Martins nos vocais e guitarra, Leandro Fração na guitarra, Paulo Pedraza no baixo e Rick Borges na bateria, o Neural Wreck surgiu em 2015 e vem construindo gradualmente seu espaço no underground paulista.
Um dos sinais desse crescimento apareceu em 2025, quando o quarteto chegou à final da seletiva New Blood, promovida para escolher uma banda brasileira para o Bangers Open Air.
Thrash Metal sem obrigação de permanecer dentro do Thrash Metal
A base de Amidst the Ruins está claramente no Thrash, mas o grupo evita transformar essa definição em uma limitação. A proposta combina momentos agressivos e velozes com mudanças de andamento, passagens melódicas, elementos de Metal extremo, características progressivas e faixas utilizadas como peças de transição dentro da narrativa do álbum. Essa alternância impede que o álbum permaneça preso a um único assunto durante suas 11 faixas.
Boa parte das letras de Amidst the Ruins trabalha com temas sociais e políticos. Autoritarismo, repressão, manipulação, degradação ambiental e estruturas de poder aparecem ao longo do trabalho como diferentes manifestações de um mesmo cenário de desgaste. A banda apresenta essas questões a partir de sua própria visão e utiliza o ambiente de colapso como elemento que conecta boa parte das músicas.
Independentemente da concordância do ouvinte com a leitura política apresentada pela banda, a escolha coloca Amidst the Ruins dentro de uma tradição histórica do próprio Thrash Metal: utilizar agressividade musical para abordar conflito social, abuso de poder e, sobretudo, as inquietações do período em que o disco foi produzido. Mas existe uma diferença importante: depois de passar boa parte do disco observando um mundo em deterioração, “Amidst the Ruins” termina com uma perspectiva menos fatalista. A ideia central passa a ser que mesmo diante dos escombros ainda existe possibilidade de reação e reconstrução.
Watchtower aparece em uma das conexões mais interessantes do álbum
Antes da chegada do disco, o Neural Wreck apresentou “Asylum Break” como primeiro single. A música possui uma ligação particularmente interessante com o Watchtower, nome fundamental do Technical Thrash Metal norte-americano.
A faixa contém uma interpolação de “Asylum”, música originalmente lançada pelo Watchtower no clássico Energetic Disassembly, de 1985, composição creditada a Doug Keyser e Billy White. Assim, o lançamento aparece oficialmente como “Asylum Break (feat. Watchtower & JV Landi)”, reforçando uma conexão coerente com a proposta técnica e progressiva.
Já “I Am The Enemy”, segundo single, contou com participação de Renata Petrelli, vocalista e guitarrista do The Damnnation. Duas colaborações bastante diferentes que ajudam a mostrar onde o Neural Wreck pretende se posicionar: mantendo um pé na tradição do Thrash técnico enquanto permanece conectado à atual cena brasileira.
A produção de Amidst the Ruins ficou a cargo de Thiago Parpinelli, tecladista do Magistry. O lançamento também ganhou uma apresentação especial no La Iglesia, em São Paulo, poucos dias depois de chegar às plataformas. Na ocasião, o evento reuniu Neural Wreck, Magistry, Anang e Our Last Creation.
Para uma banda que passou boa parte de sua trajetória circulando pelo underground, chegar ao primeiro álbum representa um movimento certamente importante. Mais interessante, entretanto, é a forma escolhida para fazer isso. O Neural Wreck não parece interessado em utilizar o rótulo de Thrash Metal como uma lista de regras que precisam ser obedecidas. Amidst the Ruins utiliza o gênero como ponto de partida, assim como abre espaço para técnica, melodias progressivas, Metal extremo, narrativas e mudanças de dinâmica.
Confira abaixo a capa e o tracklist de “Amidst the Ruins”:
- Overture in Black
- Beneath the Wreckage of Mankind
- Time Bomb
- Asylum Break
- Beautiful Day, Killing People
- I Am The Enemy
- Burning Priest
- Lullaby for Sinners
- Neural Wreck
- Mortal Obsession
- Amidst the Ruins
