Necrot: “sei que nossos fãs estão procurando por algo diferente, algo que está se perdendo nos tempos modernos”

O Necrot é, sem sombra de dúvida, um dos nomes de maior destaque da nova geração do Death Metal com uma sonoridade mais old school. Após os dois primeiros álbuns devastadores “Blood Offerings” (2017) e “Mortal” (2020), houve muita expectativa para o terceiro álbum. Há uma certa superstição em torno de terceiros discos — que geralmente vem para consolidar uma banda ou para colocá-la em xeque. Felizmente, o novo álbum “Lifeless Birth” (2024) elevou ainda mais o nível com relação ao que ouvimos nos excelentes trabalhos anteriores. Faixas como “Cut The Cord”, “Superior”, “Drill The Skull” e a própria faixa-título soam como clássicos do gênero e certamente não saírão mais do setlist.
A banda tem quatorze anos de estrada e muito chão para percorrer ainda pela frente. O trio é formado Chad Gailey (bateria), Luca Indrio (baixo, vocal) e Sonny Heinhardt (guitarra).
Em uma entrevista ao metalworldunited.com, logo após o lançamento de “Lifeless Birth”, o vocalista Luca Indrio falou sobre o processo de produção do disco:
“Nunca fomos uma banda que entra no estúdio e improvisa tentando encontrar o melhor riff. Tenho escrito as músicas para o Necrot desde que comecei a banda com o Chad em 2011, então posso estar em qualquer lugar e fazer isso. Morar no México realmente tornou isso mais fácil porque tenho mais paz de espírito para me concentrar no processo criativo. Nós nos reunimos com frequência antes das turnês e passamos muito tempo juntos na estrada. Estou a apenas algumas horas de avião do México para a Bay Area, então não é tão ruim.”
Para Luca, e também na percepção dos fãs, a banda atingiu a maturidade musical com o novo álbum, sendo o mais agressivo e o mais melódico dos três álbuns:
“Sempre tivemos elementos agressivos e melódicos, e sinto que estamos melhorando nisso. A melodia sempre fez parte do som do Necrot, assim como alguns andamentos não tão óbvios e riffs agressivos. Sinto que estamos chegando ao ponto, depois de tocar por 13 anos juntos, em que sabemos exatamente o que cada um de nós precisa fazer e trazer para a mesa, e tentamos fazer isso da melhor forma possível. Também temos uma ótima química por sermos super bons amigos e por nunca termos mudado de formação em todos esses anos.”
Sobre o título “Lifeless Birth”, Luca foi perguntado se ele “sente que as pessoas estão condenadas desde o nascimento, como o nome do título pode sugerir, ou todos nós sucumbimos à estupidez com o tempo…”
“Possivelmente um pouco dos dois, mas não acho que as pessoas não fossem necessariamente tão burras antes. Infelizmente, somos facilmente influenciados e manipulados, e as pessoas no poder querem que sejamos superficiais e constantemente distraídos a ponto de perdermos o que é importante e dedicarmos muito tempo a coisas sem sentido, enquanto o mundo continua a funcionar com base na injustiça e na exploração dos mais vulneráveis. “Lifeless Birth” é a inevitabilidade da morte, de ser completamente esquecido e apagado, que está na base da existência de todos. Não importa o que você faça nesta vida, você é sentenciado ao nascer ao destino humano de ter que perder tudo. A temática do álbum vai da mortalidade humana/condição humana à forma como a sociedade moderna nos quer fracos e constantemente divididos.”
O entrevistador observou que o álbum não traz um clima sombrio, embora carregue uma mensagem sombria:
“Para mim, o álbum é agressivo e clama por mais consciência sobre a nossa condição humana e o quão errado é o modo como vivemos. Ao mesmo tempo, é obscuro e depressivo e, em alguns momentos, desesperador. Nunca consegui escrever letras positivas, mas sinto que, se você ler nas entrelinhas, poderá encontrar alguma mensagem positiva ou empoderadora nelas.”
Chuck Schuldiner é uma inspiração para Luca Indrio em questão de letras:
“Muitas das letras do Chuck Schuldiner são assim, e eu sempre adorei as letras dele. Sempre gostei da parte envolvente de fazer perguntas em vez de afirmar coisas, ou pelo menos uma mistura dos dois. Faz o ouvinte pensar, porque você está fazendo uma pergunta e as pessoas costumam tentar encontrar e responder quando lhe perguntam algo.”
Sobre as principais influências musicais do Necrot, ele disse:
“Sempre ouvi metal e punk/crust a vida toda, mas nunca fui influenciado por música muito limpa ou pouco agressiva. Nunca me senti atraído por certas bandas que parecem e soam como se tivessem sido fundadas por um garoto com dinheiro na garagem da casa milionária dos pais. Cresci frequentando squats sujos na Europa e tendo uma abordagem bem punk à vida, então sinto que no Necrot você ouvirá muitas influências diferentes, mas nunca alguma coisa maluca.
Sinto que muita música hoje em dia se baseia mais no impacto do que nos sentimentos. Algumas bandas são sonoramente gigantescas, com grandes breakdowns ou partes hipertécnicas, mas não têm a alma. Elas têm muitos “fãs de playlist” que adicionam uma de suas músicas a uma de suas playlists do Spotify e pronto. Sei que nossos fãs estão procurando por algo diferente, algo que está se perdendo nos tempos modernos, e é por isso que ouvem Necrot . Sei que eles ficam animados quando lançamos um novo álbum e sei que o ouvirão do começo ao fim. Nunca comprometemos nosso som para nos tornarmos uma banda maior com a intenção de conquistar qualquer tipo de fã; tocamos músicas que gostamos e não para agradar a ninguém. Nosso pessoal sabe disso e é por isso que podemos não ser a maior banda, mas temos uma base de fãs extremamente leal, construída com base em manter nossa integridade e fazer metal do nosso jeito.”
Para a arte de capa de “Lifess Birth”, o Necrot novamente trabalhou com o artista holandês Marald van Haasteren, responsável pelas capas dos dois primeiros discos:
“Trabalhamos com Marald há muitos anos, então temos uma fórmula. Geralmente, isso acontece comigo compartilhando as letras com ele e conversando sobre possíveis ideias, tanto conceituais quanto visuais. Sempre exige muitas tentativas e refazimentos, e sou grato por Marald ter paciência para lidar conosco. Tudo o que é ótimo exige esforço, então não há outro jeito. Há muito respeito mútuo, o que torna o projeto empolgante e factível.
As imagens na capa de ‘Lifeless Birth’ representam a luta que é a vida, sabendo que você morrerá e será esquecido. As pessoas voando ao redor do demônio enfrentam sofrimento e desafios que resultam em serem devoradas e destruídas, enquanto, ao mesmo tempo, uma nova vida nasce da virilha do demônio para participar do círculo de tormento. ‘Lifeless Birth’ é ser condenado à morte certa desde o momento em que você nasce.”