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MUNDO METAL ENTREVISTA: JEAN MICHEL (ILUSTRADOR)

Jean Michel, artista e ilustrador curitibano, cedeu entrevista ao redator do Mundo Metal, Cristiano Ruiz, falando sobre o histórico de seus trabalhos gráficos, desde que os iniciou. Além disso, citou as peças mais importantes de seu portfólio, algumas das quais que são dedicadas ao Rock e Metal. Para saber mais, confira o nosso bate-papo abaixo.

   
Jean Michel / Reprodução / Facebook

Questões:

Antes de mais nada, gostaríamos de parabenizá-lo por seu trabalho.

Mundo Metal: o Rock e o Metal já faziam parte de sua obra desde quando você a iniciou? Em qual ano isso aconteceu, primeiramente?

Jean Michel (Ilustrador):

“O meu contato com a arte remonta a um tempo anterior ao primeiro contato com o Rock e Metal. Já na minha infância, eu tinha um gosto por desenhar e tenho até uma ótima recordação para compartilhar:

Desde a infância, eu tinha um gosto por desenhar, minha brincadeira predileta depois do colégio era ler quadrinhos da Marvel e DC, replicar desenhos destes quadrinhos, ler sobre Dinossauros ou outros animais e também tentar replicar estes desenhos, lembro de uma experiência na 3ª série do ensino primário. Um dos meus trabalhos escolares destacou-se tanto pelo conteúdo quanto pelos desenhos. A professora pediu que criássemos um livro desenhado como projeto escolar. Enquanto muitos colegas optaram por super heróis ou contos de fadas, eu, apaixonado por dinossauros, decidi criar um projeto baseado nessa temática.

Na época, um ano antes, eu insistia com meu pai para comprar o chocolate Surpresa da Nestlé, que vinha com cards para preencher o álbum Dinossauros. Com tanto interesse em dinossauros, sabia muitos dados técnicos sobre eles, como nome científico, peso, altura, alimentação e período em que viveram. Meu trabalho escolar tornou-se um livro didático, com uma página de desenho e outra com informações sobre cada espécie, inspirado pelo álbum da Nestlé e pela revista Dinossauros da Editora Globo.

O trabalho chamou a atenção na escola por ser algo diferente e pelos desenhos detalhados, que mostravam habilidade em anatomia e texturas. Chegaram a pensar que adultos haviam me ajudado hahahaha, mas não era o caso, era tudo fruto da minha atividade predileta que era desenhar e ler. O projeto foi tão elogiado que acabou sendo reconhecido pela diretora e pelo corpo docente, foi incorporado na biblioteca do colégio junto com mais duas edições feita posteriormente a pedido da Diretora.

Acho que podemos dizer que esta foi a minha primeira obra criativa e que aconteceu antes de conhecer o estilo musical chamado Rock e Metal.

O primeiro contato com o Rock e Metal foi alguns anos depois, por volta dos 10/11 anos, quando assisti a um show do Black Sabbath em uma fita de vídeo cassete de uma tia. A partir daí, comecei a apreciar o estilo musical, que se tornou um dos meus favoritos dentro do meu gosto musical eclético, no qual sou apreciador da Música no modo geral, não se prendendo a rótulos ou estilos.

A união entre meu gosto pela arte e o Rock aconteceu no final de 2004 e início de 2005, quando decidi explorar o nicho de capas de CDs e artes voltadas para a música. Acho que a grande maioria dos que quiseram se aventurar por este nicho começou apreciando as obras de arte de artistas como Derek Riggs e todos aqueles que estavam trabalhando em uma época em que o Rock e o Metal se desenvolveram bastante e residiam em países onde os holofotes estavam presentes. Eu, particularmente, amo o trabalho de Storm Thorgerson, que foi uma das minhas grandes inspirações, pois sempre gostei do seu trabalho de manipulação de imagens e da maneira como trazia conceitos surrealistas com toques mais minimalistas.

Na época, eu estava na faculdade e conhecia algumas bandas da região de Curitiba, bandas de garagem, bandas bem pequenas. E aí foi o start: já estava explorando artes surrealistas, brincando com o grotesco e o dark, e misturando esses elementos com conceitos e tendência de design gráfico. Acho que foi isso que acabou impulsionando meu portfólio, pois esses estilos de arte dialogam bastante com o universo do Rock. Sou um artista que gosta de explorar diversas escolas, movimentos e categorias estéticas. Gosto de explorar diversas tendências do design e, no fim, testar minha versatilidade e ter essa liberdade criativa. O que não dá para aplicar na área de Rock e Metal, aplico em outros gêneros ou até em áreas fora da música.

No fim, meu gosto pelo experimentalismo artístico me fez, de certa forma, conseguir atender uma gama grande de clientes. Desde meu gosto por foto-manipulação e design publicitário, passando por colagem e ilustração tradicional, pop art, comics, pude atender clientes que gostam de uma abordagem mais clássica até aqueles que preferem uma arte mais publicitária, minimalista, brutalista ou maximalista. Gosto sempre de estar ligado nas tecnologias e tendências, sempre me desenvolvendo quando surge algo que revoluciona o mercado, buscando incorporar tal avanço em minhas peças.”

Mundo Metal: a fim de falarmos ainda sobre como tudo como começou, você se lembra qual foi a sua primeira ilustração de uma capa de álbum de Rock/Metal?

Jean Michel (Ilustrador):

“Infelizmente, não consigo recordar com precisão, pois não possuo registros do período entre 2005 e 2008. Todo esse material foi perdido quando meu notebook queimou anos mais tarde.

Mas do que me recordo é que nos primeiros três anos, realizei alguns trabalhos esporádicos para bandas, além de diversos projetos empresariais, era o forte. Naquela época, também criava muitos layouts para MySpaces, que era uma rede social muito popular entre artistas.

Esses primeiros anos foram de persistência, evolução e tentativas de aprendizado. Foi a partir de 2008 que as coisas realmente começaram a se direcionar para o Rock e Metal, e então comecei a ter alguns trabalhos encomendados, com os primeiros clientes buscando lançar seu material.

Dentro do que tenho registro os primeiros clientes o qual comprou a arte e lançou material, foram Revenge Ritual com “Guerra Sangue e Poder”, Queen Evil com “Broken Wings” (do vocalista Guilherme Hirose, atualmente na banda NorthTale), Ravenland com “Memories”, Esdrelon com “Dust In Our Eyes”, Black Oil com “Not Under my Name”, Embrio com “Corporation is a Cancer”, Brave com “The Last Battle”, Wild Child com “Inside my Mind”, e Skinlepsy com “Condemning the Empty Souls”.

Algumas dessas artes são experimentos e estudos que realizei entre 2005 e 2009, e que coloquei à venda. Algumas bandas adquiriram esses projetos e os lançaram anos mais tarde. Portanto, minha primeira ilustração de capa de álbum pode estar no meio disso e algum trabalho para alguma banda do período de 2005 e 2008 que infelizmente não possuo registro.”

Mundo Metal: dentre todas as suas criações, qual é aquela tem um significado especial para você, mesmo que seja em um sentido puramente sentimental?

Jean Michel (Ilustrador):

“Acho que uma que significa bastante para mim é a capa que idealizei para o projeto KXM, para o CD ‘Scatterbrain’, que conta com o guitarrista George Lynch (Dokken), Dug Pinnick (King’s X) e Ray Luzier (Korn). Esta é a capa que me fez dar um salto significativo no circuito de capistas para bandas e projetos que contam com músicos de renome internacional. Tenho um carinho muito grande por esta arte, pois além de ser uma capa que resume bastante minha pegada surrealista, é onde tudo começou e abriu portas para diversos outros grandes projetos.

Foi através deste trabalho que expandi minha rede de contatos e tive a oportunidade de trabalhar em outros diversos projetos sensacionais, o que também trouxe uma grande visibilidade para o meu trabalho. Deste projeto, consegui trabalhar nos álbuns ‘The Brotherhood’ e ‘Babylon’ do Lynch Mob, nos álbuns ‘Seamless’ e ‘Guitars at the End of the World’ de George Lynch, e no álbum posterior do KXM, ‘Circles of Dolls’. Neste mesmo período, trabalhei com a banda Vixen no álbum ‘Live Fire’, Michael Sweet em seu álbum solo ‘Ten’, John Corabi em seu álbum ao vivo ‘Live 94: One Night in Nashville’, e com outra banda com a qual possuo uma longa colaboração, a clássica banda Metal Church, para a qual idealizei artes para o ‘Damned if You Do’, ‘From The Vault’, ‘The Best of Mike Howe 2016 – 2021’ e ‘Congregation of Annihilation’, o mais atual. Estes trabalhos foram fruto destes contatos que se expandiram a partir do trabalho com o ‘Scatterbrain’.

Outro projeto que abriu ótimas oportunidades foi o trabalho que desenvolvi no álbum solo do vocalista Todd La Torre. Todd gostou bastante do meu trabalho e me indicou para a banda Queensrÿche, para a qual tive a oportunidade de criar a arte para o álbum ‘Digital Noise Alliance’.

Indo para o lado do Metal Alternativo, a banda Projected, formada por membros das bandas Sevendust, Alterbridge e Tremonti, abriu muitas portas para projetos gráficos neste gênero.

Anos antes deste boom, outra arte que tenho um carinho especial é a arte que fiz para o Box Comemorativo da lenda do Reggae, Bob Marley. Este projeto tem um valor histórico e com certeza é um dos principais projetos que tive o enorme prazer de assinar. Inclusive o Box foi feito para fãs, contendo fotos e imagens do acervo da família. Fiz todo o redesign dos primeiros rótulos de singles lançados por ele e tentei prestar uma grande homenagem para sua carreira. Existem apenas 100 cópias fabricadas para venda, e a 101ª foi feita especialmente para mim e está aqui em minha coleção.

Enfim, acho que são estes pois marcam alguns avanços em minha profissão como Artista gráfico que produz Capas de CD.”

Todd La Torre / Reprodução / Facebook

Mundo Metal: acreditamos que, atualmente, suas obras sejam pré-encomendadas. Assim sendo, quanto tempo, geralmente, você costuma levar para entregar uma encomenda?

Jean Michel (Ilustrador):

“Sim, hoje às pessoas podem encomendar uma arte ou comprar algumas artes que são da minha galeria à venda.

O tempo varia bastante, como há inúmeras variáveis subjetivas fica difícil estabelecer um prazo, sendo sempre uma média. A construção de uma arte e seu tempo, depende muito da demanda que possuo naquele período, a complexidade de execução do projeto, além de muitas outras variáveis subjetivas do processo criativo.

Mas pode variar de apenas algumas semanas para meses de trabalho, tudo isso combinando com o cliente e com sua necessidade atual.

Eu digo aos clientes, que Arte por ser um processo artesanal e com muitas variáveis não tem como ser como a fabricação de um Pastel de Feira que você sabe que com o óleo quente, você frita ele em questões de minutos. Mas busco sempre uma abordagem onde possa estipular um prazo médio, avaliando as informações do cliente e pedindo sempre que possível entrar em contato com certa antecedência para que o cronograma seja o melhor possível para a criação de uma arte e todo o seu desenvolvimento, considerando até possíveis alterações finais.”

Jean Michel & Nita Strauss (Alice Cooper band) / Reprodução / Facebook

Mundo Metal: quais das suas artes, até o momento, tiveram maior relevância e qual foi o artista mais icônico para qual você já trabalhou?

   

Jean Michel (Ilustrador):

“Na música, a arte que criei para a banda Queensrÿche é provavelmente a que teve maior relevância. A base de fãs da banda é incrível, e essa arte foi amplamente divulgada e elogiada pelos fãs. Vi inúmeros fãs tatuando o símbolo do Queensrÿche que se funde com o símbolo do DNA, criado para este álbum. Enfim, é uma capa que teve uma repercussão bastante relevante.

Fora da música, uma arte que marcou muito foi a que fiz para a Netflix, na ocasião do lançamento do filme El Camino, derivado da série Breaking Bad, a qual aprecio muito. Recebi o convite para criar uma ilustração exclusiva para o poster que estaria presente no estande da Netflix na feira Geek chamada Comic Con Brasil. Na época, o estande seria todo temático do filme, e então recebi esse convite por e-mail, que dizia que eles haviam avaliado inúmeros artistas e selecionado três artistas brasileiros para criar sua interpretação do mundo de El Camino: A Breaking Bad Film, e um desses artistas era eu! A Netflix passou por diversos países com seu estande, e em cada local tinha representantes do país em questão fazendo suas interpretações. Aqui no Brasil, não foi diferente, e fiquei surpreso e honrado ao receber esse e-mail.

Então, na feira CCXP de 2019 no Brasil, lá estava o meu trabalho impresso no estande da Netflix, uma arte que havia sido aprovada pela equipe da Netflix. Este trabalho teve muita relevância, tanto que, naquele mesmo ano, fui convidado para participar de uma galeria de arte em homenagem a Breaking Bad, com curadoria dos próprios idealizadores da série. Eles conheceram meu trabalho por meio deste projeto e selecionaram minhas artes de El Camino e Better Call Saul para fazer parte da exposição online.”

Mundo Metal: aqui no Mundo Metal, temos o quadro A ARTE DO METAL, que é do redator Giovanne Vaz, onde destacamos, primordialmente, vários ícones das capas de Rock Metal. Diante disso, como você avalia a valorização que esse tipo de trabalho recebe das mídias especializadas em Rock e Metal?

Jean Michel (Ilustrador):

“A arte no Brasil ainda é pouco valorizada. É uma questão complexa e multifacetada que não dá para ampliar aqui, mas algumas questões culturais podem ser percebidas. Países que têm uma longa tradição de valorização e investimento em arte e cultura, com séculos de desenvolvimento de movimentos artísticos que são parte integrante de suas identidades nacionais, tendem a valorizar mais a arte. Aqui no Brasil, arte e cultura são frequentemente marginalizadas. A educação artística em outros países onde vemos maior valorização começa desde cedo, incentivando o apreço e a compreensão da arte, o que não ocorre no Brasil.

Para entender melhor, é preciso também se aprofundar em questões de políticas públicas, infraestrutura cultural, mídia e divulgação, valorização social e investimento privado. Tudo isso tem impacto significativo para que a arte aqui não seja tão valorizada.

Diante desse histórico de pouca valorização da arte no país, é sempre bem-vindo quando temos espaços para divulgar a arte e conversar sobre ela, como o quadro “A ARTE DO METAL”, que traz conhecimento e acesso a muitos com conteúdo dos grandes artistas da área. Essas iniciativas são fundamentais, pois proporcionam uma plataforma onde a arte das capas de álbuns de Rock e Metal pode ser destacada e apreciada. As mídias especializadas têm um papel crucial na valorização desse tipo de trabalho, oferecendo visibilidade aos artistas e reconhecendo sua contribuição para o universo musical. É uma parte importante da engrenagem que move esta área da música.

Eu fico muito feliz quando vejo portais como o Mundo Metal abrindo espaço para artistas, analisando a arte além da música e muitas vezes fazendo referência ao artista. Reconheço o quão importante é esse trabalho e, obviamente, gostaria que esse universo de arte e artistas do mercado fonográfico tivesse ainda mais espaço. Acho que ainda é algo que podemos conquistar e criar. Ainda vejo um processo “rudimentar”, mas que pode crescer no fortalecimento da área como um todo.

Para mim, a valorização do trabalho de arte nas capas de álbuns pelas mídias especializadas não só celebra a criatividade dos artistas, mas também enriquece a experiência dos fãs, proporcionando uma conexão mais profunda com a música e suas representações visuais, contribuindo para o reconhecimento da arte como cultura e apreciação. Eu espero que ainda possamos ver este fortalecimento nesta área, tal como a música tem um grande espaço.”

Mundo Metal: qual é a sua arte mais atual? Você tem ideia de quantas artes já produziu até o presente?

Jean Michel (Ilustrador):

” Tem muito material pronto, aguardando ser lançado e divulgado, mais os mais recentes já divulgados são o álbum ‘Stereotypical’ da banda de Hard Rock de Los Angeles Roxanne, ‘Through the Fire’ álbum solo do guitarrista da banda Tesla Dave Rude, ‘Babylon’ do Lynch Mob e ‘Congregation of Annihilation’ do Metal Church.

Não tenho um número preciso, mas tenho mais de 300 capas assinadas espalhadas por diversos países e continentes. “

Mundo Metal: esse espaço serve para que você avalie a entrevista, da mesma forma para que fale sobre o que deixamos de perguntar. Ou seja, fique a vontade e diga o que sentir que deve, principalmente, para que o público conheça melhor como funciona o trabalho de um ilustrador.

Jean Michael (Ilustrador):

“A entrevista está excelente.
Foi um prazer discutir sobre meu trabalho e a importância da arte no contexto da música, especialmente no cenário do Rock e Metal.
E queria encerrar com uma mensagem.
Se pudesse dar um conselho a quem se inspira em meu trabalho ou passará a se inspirar, ou gostaria de seguir Design ou Arte como profissão, é que em primeiro lugar, valorize seu trabalho, você irá encontrar pessoas dispostas a realmente valorizar aquilo que você consegue criar. Busque criar, estar ligado nas tecnologias, tente incorporar todo o avanço tecnológico a fim de se manter relevante em qualidade e continue fazendo a sua parte, as oportunidades certas irão aparecer.

Um Forte abraço à todos!

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Mundo Metal:

Nós agradecemos a sua construtiva participação, Jean, desejamos que seu excelente trabalho tenha cada vez mais reconhecimento, ao passo que outras importantes capas passem a fazer parte de seu portfólio no futuro.

Entrevistado: Jean Michel (Ilustrador)
Entrevistador: Cristiano “Big Head” Ruiz

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