Live Review: Headbangers Night – Tierramystica, Cova Rasa e Exkil

O Headbangers Night celebrou a força do Metal nacional e os 12 anos do portal Mundo Metal, no dia 7 de dezembro, no La Iglesia, em São Paulo.
O underground brasileiro sempre se destacou pela complexidade e diversidade, funcionando como um terreno fértil para bandas de altíssimo nível que conquistam os verdadeiros apreciadores da música pesada. Porém, por motivos estruturais, muitas delas não recebem o devido reconhecimento e encerram suas atividades antes do tempo — um cenário que ainda persiste, principalmente porque inúmeros eventos continuam sendo realizados em formatos que pouco favorecem os artistas.
Pensando em transformar essa realidade, três nomes de peso do Metal nacional assumiram a produção de um evento que já nasce como um novo modelo de sustentabilidade para a cena. Desse modo, sem produtor, sem patrocínio e sem intermediários desviando o foco da música, Tierramystica, Cova Rasa e Exkil uniram forças para criar o Headbangers Night, uma celebração que se provou, desde a primeira edição, verdadeiramente revolucionária.
Parceiras de longa data do Mundo Metal, as três bandas se uniram ao portal para celebrar juntos seus 12 anos de trajetória. Como defensores incansáveis das boas práticas e da força do Heavy Metal brasileiro, registramos aqui a enorme satisfação de testemunhar e relatar o estrondoso sucesso da noite.
Às 18h, no La Iglesia começava uma celebração que certamente extrapolou o aniversário do portal. O Headbangers Night reverenciou a história do Metal nacional, sem deixar de olhar para o futuro, e contou com a presença de dois grandes ícones da cena: o vocalista Marcello Pompeu (Korzus) e o jornalista Ricardo Batalha. Ambos foram homenageados pelas bandas e pelo público em um momento emocionante que reforça como a música pesada decerto valoriza e reconhece quem ajudou a construir seu legado.
Tierramystica
Às 18h30, o Tierramystica subiu ao palco trazendo seu inconfundível Power/Folk Metal, marcado por influências da música andina e latino-americana e pelo uso de instrumentos típicos — mérito de Ricardo Chileno, o “homem das mil faces”, responsável por flauta, ocarina, charango, craviola, bombo, violão, bem como pelos excelentes backing vocals.
Mesmo enfrentando problemas com voos e com a ausência do baixista, que não conseguiu chegar a tempo, o grupo inegavelmente demonstrou determinação e resiliência ao entregar uma apresentação poderosa e emocionante.
O show se concentrou no novo álbum “Trinity” (2023), o primeiro desde o retorno da banda, que vem recebendo críticas extremamente positivas. Músicas como “Cosmovision”, a explosiva “Eldritch War”, assim como a belíssima “Raindancer” reacenderam o público e destacaram a técnica impecável dos músicos. Foi também o grande teste do novo baterista Diego, que estreou ao vivo com maturidade surpreendente.
O guitarrista Alexandre Tellini desfilou riffs e solos precisos — e o fez vestindo a camiseta do Mundo Metal, prova incontestável de bom gosto.
Gui Antonioli cantou como poucos no país conseguem e justificou os elogios de Ricardo Chileno, que afirmou perante o público considerar Gui um dos melhores — senão o melhor — vocalistas do Metal nacional. A única faixa do álbum “Heirs Of The Sun” (2013) presente no set foi “Vision of the Condor”, produzida por Pompeu.
A emocionante balada “Bedtime Stories”, composta para a mãe de Gui durante um delicado diagnóstico de câncer, tocou profundamente a plateia — ainda mais pela boa notícia de que Dona Antonioli se recuperou e segue bem. Assim, para encerrar com energia máxima, veio “Chaski Way”, talvez a composição mais Power Metal de Trinity e uma escolha brilhante para finalizar o set. Show impecável de um Tierramystica revigorado, que confirma a cada apresentação que ainda tem muita estrada pela frente.
Setlist – Tierramystica
- 01 Cosmovision
- 02 Eldritch War
- 03 Raindancer
- 04 Vision of the Condor
- 05 Bedtime Stories
- 06 Chaski Way
Cova Rasa
O Cova Rasa eleva o Heavy Metal tradicional a um novo patamar ao combinar atmosferas sombrias, letras inspiradas em terror e lendas urbanas, mas adicionando arranjos que equilibram peso e melodia. Formado em 2016 por Jayme Danko (guitarra) e Collins Freitas (teclado), o grupo acaba de lançar “Another Time” (2025), seu terceiro e mais ousado trabalho. O quinteto se completa com Ivan Martins (vocais), Caio Caruso (baixo) e Theo Machado (bateria).
Vivendo excelente fase, a banda recentemente abriu para Hammerfall e se prepara para dividir o palco com o Rhapsody Of Fire. A apresentação começou com força total: “Borley Rectory”, inegavelmente uma das melhores músicas de 2025, com refrão marcante e um dueto vocal poderoso entre Jayme e Ivan.
Na sequência, “Heartbreaker’s Hunter” e “Reaper’s Rival” mantiveram a temperatura elevada, mostrando que o Cova tem repertório sólido e variado. As guitarras de forte influência Iron Maiden, os teclados bem encaixados e uma cozinha extremamente precisa reforçam a maturidade da banda. “King of Ghouls” veio para grudar de vez no subconsciente do público, assim como para coroar a facilidade da banda em tecer faixas marcantes.
Ivan Martins domina o palco com energia contagiante, enquanto Jayme Danko entrega riffs incendiários e solos de extremo bom gosto. O entrosamento do quinteto salta aos olhos — e ouvidos.
O set se encerrou com duas obras-primas do novo álbum: “Dr. Death” e “Black Shadow”. Prova definitiva de que músicas longas, quando bem construídas, funcionam tão bem ao vivo quanto composições mais diretas.
Durante a apresentação, Ivan destacou sua parceria de mais de 25 anos com o baixista Caio Caruso e atribuiu grande parte do atual momento da banda ao talento e dedicação de Jayme Danko. E sejamos francos, Jayme foi certamente um dos principais responsáveis (senão o maior) por tornar o Headbangers Night realidade.
Setlist – Cova Rasa
- 01 The Red Mansion
- 02 Borley Rectory
- 03 Heartbreakers’ Hunter
- 04 Reaper’s Rival
- 05 King of Ghouls
- 06 Dr. Death
- 07 Black Shadow
Homenagem a Pompeu e Batalha
Antes da última apresentação da noite, todos os músicos subiram ao palco junto de Marcello Pompeu e Ricardo Batalha. Sendo assim, era o momento para uma homenagem à altura de suas contribuições para a cena.
Após os gritos uníssonos de “Pompeu! Pompeu! Pompeu!” e “Batalha! Batalha! Batalha!”, Batalha pegou o microfone e declarou:
“No ano que o Pompeu estreou no SP Metal II, foi o ano do primeiro Rock In Rio, que colocou o Brasil no mapa dos grandes festivais. Então, se hoje a gente tem tudo, 1985 é um ano muito importante e foi quando o Pompeu estreou, mas se eu ficar aqui contando histórias do Metal nacional, vocês não vão dormir não…”
Em seguida, Marcello Pompeu discursou:
“Antes de mais nada, muito obrigado pela homenagem que todos vocês fizeram, cada banda no seu momento, pra minha pessoa e para o Batalha. A gente percebe que vocês tem um reconhecimento de que houve algo antes pra vocês estarem aqui. Poderia ter morrido lá atrás, mas não morreu, permaneceu e hoje são vocês que carregam essa bandeira.
Não vou dizer que eu estou abandonando a cena, não é isso, ainda tenho um pouco de lenha pra queimar. O Batalha na posição dele vai ficar mais tempo do que eu na cena, mas uma hora pra mim vai chegar o momento onde eu não vou ter mais condições físicas de poder estar 100% em cima do palco como vocês estão hoje. Eu sou um cara que tem mais passado do que futuro, mas dentro dessa visão, não é uma coisa ruim, eu vou estar muito feliz porque eu vou olhar pra trás e vou ver que foram 40, 50 anos trabalhando em nome do Metal nacional.
E quando eu vejo todos vocês fazendo um show maravilhoso, e ainda vai ter a Exkil, que eu sei que é uma grande banda, que eu participei do trabalho deles, então quando eu vejo todos vocês em cima do palco com essa energia, com essa garra, e vejo também que veio de Jacareí, uma garotada de 12, 13 anos, que eu trabalho com eles, vocês ainda vão ouvir muito falar dessa banda, que é uma garotada que vem de Jacareí, que vai vim com o rojão na ponta da chuteira, então eu vejo que o que eu comecei lá nos anos 80 não foi em vão. Vocês que vão carregar essa bandeira pro futuro, e eu sei que vão carregar com tanta energia, com tanta coragem, e o principal de tudo, com muito Metal na veia. Muito obrigado por tudo que vocês falaram pra mim, to até começando a ficar emocionado. E obrigado a todos vocês, a cada banda que falava o meu nome ou falava o nome do Batalha.”
O discurso emocionado reforçou a qualidade das bandas presentes e o enorme potencial do Metal nacional. Reiteramos aqui suas palavras: falta apenas mais oportunidade, porque talento nunca foi o problema.
Exkil
Para fechar a noite com violência sonora e competência técnica, a Exkil subiu ao palco como uma das mais promissoras revelações do Thrash Metal brasileiro. Vindos de Piracicaba/SP, Daniel Ferrante (vocais e guitarra), Gabriel Bunho (guitarra), Evandro Tapia (baixo) e Evandro Kandalaft (bateria) lançaram em julho o álbum “Violence Prevails”, que reúne 11 faixas recheadas de crítica social, agressividade e riffs cortantes.
A banda iniciou a destruição com “Drive You Nuts” e a própria “Violence Prevails”, já considerada por muitos um novo hino do Thrash Metal nacional. A sequência seguiu com “Titans Rising”, faixa que em estúdio contou com participação de Marcello Pompeu e ganhou um videoclipe.
Desde os primeiros segundos, o show foi uma avalanche de energia. Mesmo com a agressividade típica do estilo, chama atenção a técnica apurada dos quatro integrantes. Daniel se garante cumprindo sua função de frontman com autoridade, Gabriel é uma máquina de riffs e solos, e a dupla dos Evandro’s — Tapia e Kandalaft — entrega uma cozinha extremamente sólida e também virtuosa.
O set seguiu alternando músicas do álbum, como “Mistreat” e a sensacional “Nothing Shall Remain”, com pérolas do calibre de “Rotten World” do EP “Between Death And Chaos” (2022). Além disso, perto do final rolou um cover especial de “Enter Sandman” (Metallica) — interpretado com a participação deste que vos escreve nos vocais, um verdadeira honra e presente de aniversário.
Para um encerramento explosivo, veio a frenética “No Time”, que agitou pela última vez o público carimbando um show sem pontos baixos e marcando definitivamente a primeira edição do Headbangers Night.
Setlist – Exkil
- 01 Oblivion – Intro
- 02 Drive You Nuts
- 03 Violence Prevails
- 04 Titans Rising
- 05 Mistreat
- 06 Rotten World
- 07 Nothing Shall Remain
- 08 Enter Sandman (Metallica cover – com Daniel Dante Mundo Metal e Criminal Brain)
- 09 No Time
Conclusão
O Headbangers Night nasce com propósito de continuidade, e as próximas edições já estão no horizonte — sempre preservando a essência desta primeira celebração. Esperamos contar com patrocinadores, investidores e, sobretudo, com o apoio e engajamento dos que vivenciaram essa noite histórica do underground brasileiro.
Foi um evento mágico, que prestou reverência ao passado enquanto projetava com confiança o futuro do Metal nacional. Como parte da concepção e execução do Headbangers Night, nós, do Mundo Metal, agradecemos profundamente às bandas que tocaram com paixão e profissionalismo, ao público presente, aos ícones Marcello Pompeu e Ricardo Batalha, e aos amigos da imprensa. Todos vocês tornaram este evento possível.
O Metal brasileiro está vivo — e muito vivo.
Assista a cobertura do canal Ale Metal Pesado: