Live Review: Death To All em São Paulo – O legado do Death segue vivo

Todas as fotos: Daniel Dante

Na noite de 24 de janeiro de 2026, o Carioca Club foi convertido em território sagrado para os devotos do Death Metal. Não se tratava apenas de mais um show, mas de um ritual coletivo de celebração, memória e reverência. A passagem do Death To All por São Paulo reafirmou, com força absoluta, que a obra de Chuck Schuldiner — falecido em 2001 — permanece viva. Mais do que isso, ela permanece pulsante, desafiadora e emocionalmente avassaladora.

A turnê, iniciada em 2025, celebra dois marcos fundamentais da discografia do Death: os 35 anos de Spiritual Healing e os 30 anos de Symbolic. Dois álbuns que não apenas definiram fases distintas da banda, mas que ajudaram a expandir os limites técnicos, estéticos e filosóficos do metal extremo. A proposta do show foi clara e respeitosa: dois setlists bem definidos, o primeiro focado majoritariamente em Spiritual Healing e clássicos da carreira. Já o segundo foi dedicado integralmente a Symbolic, além de um bis carregado de significado.

Conexão com a obra

Desde os primeiros minutos, ficou evidente que a conexão entre banda e público seria intensa. A breve introdução instrumental de “Windfall” (Dead Can Dance) criou uma atmosfera quase meditativa, preparando o terreno emocional para o que viria a seguir. O trecho inicial de “Infernal Death”, curto e simbólico, funcionou como um chamado às origens, arrancando os primeiros gritos e punhos cerrados da plateia.

Com “Living Monstrosity”, o público já estava completamente entregue. Cada riff era recebido com reação imediata, cada virada de bateria acompanhada por cabeças em movimento sincronizado. A execução foi cirúrgica, respeitando cada nuance da versão original, mas sem soar engessada. “Defensive Personalities” manteve o nível de intensidade, com o público respondendo de forma quase catártica aos trechos mais agressivos.

Um dos momentos mais celebrados do primeiro set veio com “Lack of Comprehension”, precedida por um solo de baixo que arrancou aplausos espontâneos antes mesmo da música começar. A resposta do público foi apaixonada, cantando riffs e frases como se estivesse diante do próprio Death em seus anos dourados. “Altering the Future” e “Zombie Ritual” reforçaram o clima de comunhão absoluta, com rodas se formando e se desfazendo em perfeita harmonia com a banda.

“Within the Mind” trouxe um momento de atenção quase reverente, destacando a complexidade estrutural da música, enquanto “The Philosopher” foi recebida como um hino. Talvez um dos pontos mais emocionais do set, com o público reagindo a cada mudança de andamento. O fechamento com “Spiritual Healing” foi simplesmente avassalador: intensa, precisa e carregada de simbolismo, selando com perfeição o primeiro ato da noite.

Symbolic

Após um breve intervalo, a execução integral de Symbolic transformou o Carioca Club em um templo. A faixa-título, “Symbolic”, abriu o segundo set sob aplausos imediatos, com o público reconhecendo desde o primeiro acorde que estava prestes a vivenciar algo especial. “Zero Tolerance” e “Empty Words” mantiveram a tensão em níveis altíssimos, evidenciando o entrosamento absoluto dos músicos e a fidelidade quase obsessiva aos arranjos originais.

Em “Sacred Serenity”, a reação do público foi mais introspectiva, absorvendo cada melodia e dinâmica. “1,000 Eyes” e “Without Judgement” reacenderam a agressividade, com uma resposta física intensa da plateia. Já “Crystal Mountain” provocou um dos maiores coros da noite, reafirmando seu status de clássico incontestável.

A execução de “Misanthrope” chegou com precisão milimétrica, destacando a sofisticação rítmica do álbum, e “Perennial Quest” encerrou o set de forma majestosa. A parte acústica final trouxe um silêncio respeitoso, quase solene, quebrado apenas por aplausos prolongados — um raro momento de contemplação em meio ao caos sonoro.

Mais do que um tributo

O bis veio certamente carregado de emoção e significado. O trecho final de “Deliverance” (Opeth) funcionou como uma ponte espiritual entre gerações do metal extremo. “Spirit Crusher” reacendeu o público com força total, e o encerramento com “Pull the Plug” foi explosivo, definitivo. Após a música, Steve DiGiorgio tomou a palavra, com Gene Hoglan permanecendo à frente do palco, ambos visivelmente empolgados, agradecendo, cumprimentando e elogiando calorosamente a entrega do público brasileiro.

Mais do que um tributo, o Death To All no Carioca Club foi uma reafirmação histórica da relevância artística de Chuck Schuldiner. Assim, a precisão técnica dos músicos, aliada ao respeito absoluto pelo legado do Death, resultou em uma noite inesquecível. O público não apenas assistiu ao show — participou ativamente dele, música por música, riff por riff, como se cada execução fosse uma celebração coletiva da eternidade de uma obra que se recusa a envelhecer.

Os músicos do Death To All

O impacto do Death To All não se limita ao repertório escolhido, mas se sustenta sobretudo na excelência dos músicos envolvidos. Todos eles nomes diretamente ligados à história do Death, com participações efetivas em seus álbuns de estúdio.

Gene Hoglan – bateria: conhecido como The Atomic Clock, Hoglan integrou o Death durante um de seus períodos mais celebrados, gravando Individual Thought Patterns (1993) e Symbolic (1995). No Carioca Club, sua performance foi de precisão absoluta, recriando com fidelidade cirúrgica as viradas complexas, os grooves quebrados, bem como as mudanças abruptas de andamento que definiram esses álbuns.

Steve DiGiorgio – baixo: um dos baixistas mais influentes da história do metal extremo. Steve gravou Human (1991) e Individual Thought Patterns (1993) com o Death, sendo pioneiro no uso do baixo fretless no gênero. Seu solo introdutório em “Lack of Comprehension” foi um dos pontos altos do show, arrancando aplausos e destacando seu papel na identidade sonora da banda.

Bobby Koelble – guitarra: responsável pelas guitarras e solos de Symbolic (1995), Koelble trouxe ao palco exatamente a musicalidade refinada e o senso melódico que ajudaram a elevar o Death a outro patamar técnico e composicional. Sua presença no Death To All certamente reforça a legitimidade histórica do projeto, conectando diretamente o público à era mais sofisticada da banda.

Max Phelps – guitarra e vocais: embora não tenha participado de gravações de estúdio do Death, Phelps assume com respeito e responsabilidade o papel de intérprete do legado de Chuck Schuldiner. Sua abordagem vocal evita caricaturas, mantendo-se fiel ao timbre e à intenção originais, enquanto executa com precisão tanto as guitarras rítmicas quanto os solos mais emblemáticos do repertório.

A combinação desses músicos resultou em uma apresentação que não soou como mera recriação nostálgica, mas como uma continuação viva e honesta da obra do Death.

O legado do Death e de Chuck Schuldiner

Fundado em 1983, inicialmente sob o nome Mantas, o Death é amplamente reconhecido como uma das bandas fundadoras do death metal. Sob a liderança criativa e visionária de Chuck Schuldiner, o grupo construiu uma discografia que não apenas acompanhou, mas frequentemente antecipou a evolução do metal extremo.

O álbum de estreia, Scream Bloody Gore (1987), é considerado por muitos o marco inaugural do death metal, com sua sonoridade crua, agressiva e visceral. Na sequência, Leprosy (1988) refinou essa brutalidade inicial, trazendo composições mais estruturadas e um peso ainda mais consistente.

Com Spiritual Healing (1990), o Death iniciou uma transição fundamental. Musicalmente mais técnico e liricamente mais maduro, o álbum passou a abordar temas sociais, políticos e éticos, afastando-se do horror explícito, bem como preparando o terreno para uma nova fase criativa.

Evolução constante

Essa mudança se consolidou de forma definitiva em Human (1991), disco que introduziu músicos com forte influência do jazz e do metal progressivo, elevando drasticamente o nível técnico da banda. Individual Thought Patterns (1993) aprofundou essa abordagem, combinando agressividade extrema com estruturas cada vez mais complexas e sofisticadas.

O álbum Symbolic (1995) equilibra técnica, melodia e intensidade com rara perfeição, apresentando letras introspectivas e existenciais que ampliaram ainda mais o alcance artístico da banda.

Encerrando a discografia, The Sound of Perseverance (1998) levou a musicalidade do Death a um território ainda mais progressivo e desafiador, com vocais mais agudos e composições expansivas, reafirmando a recusa de Chuck Schuldiner em se repetir ou estagnar artisticamente.

A morte de Chuck Schuldiner, em 2001, vítima de um câncer no cérebro, encerrou precocemente uma das trajetórias mais importantes da história do metal. No entanto, iniciativas como o Death To All demonstram que seu legado transcende o tempo, continuando a inspirar músicos e fãs ao redor do mundo.

No Carioca Club, essa herança não foi apenas lembrada — foi celebrada com respeito, paixão e excelência técnica, reafirmando que o Death não pertence ao passado, mas à eternidade.

Ouça Death sem moderação:

2 comentários
  • Bela matéria, schuldiner jamais sera esquecido ,um gênio! Death uma das melhores bandas do mundo! Eu sou fanático e nunca irei deixar de ser! Parabéns!

  • Excelente matéria! Foi um show antológico!!! #chuckschuldinerforever

Deixe seu comentário
Sair da versão mobile