King Diamond explica saída de La Rocque e crava: “As duas bandas estão em estúdio, 100%, agora. O Mercyful Fate terá prioridade, o prazo é dezembro de 2026.”

A saída de Andy La Rocque da banda de King Diamond encerrou uma parceria iniciada ainda em 1985 e levantou uma pergunta inevitável: o que aconteceu entre os dois depois de quatro décadas trabalhando juntos?

King finalmente falou com mais detalhes sobre o assunto. Em entrevista a Frank Godla, do Metal Injection, o vocalista descartou a existência de uma briga específica e descreveu a separação como resultado de um afastamento gradual.

“Nós certamente ainda somos amigos. Isso nunca vai mudar.”

Segundo ele, os dois começaram a seguir direções diferentes até chegarem à conclusão de que alguma coisa precisava mudar.

Lex Legion não provocou a separação

Uma das especulações naturais surgiu após Andy passar a se dedicar ao Lex Legion, projeto que reúne também Mikkey Dee, Pete Blakk, Hal Patino e Nils K. Rue.

King, entretanto, negou categoricamente que a nova banda tenha provocado o rompimento.

De acordo com o vocalista:

“Acho que foi uma coisa gradual, que há algum tempo vinha seguindo em direções diferentes. E chegou a um ponto em que foi tipo: ‘Ok, alguma coisa precisa mudar. Isso não está certo.’ Desejo a ele e à esposa tudo de melhor que possa existir no mundo. Toda essa questão sobre a outra banda em que ele toca agora, o Lex Legion, o projeto paralelo e tudo mais, nunca teve qualquer relação com os motivos de nada.”

Isso também coloca em perspectiva algo curioso. Poucos meses antes da saída, Andy ainda falava publicamente sobre as músicas que havia preparado para o próximo álbum de King Diamond e dizia ter enviado várias composições para o projeto. O Mundo Metal acompanhou essas declarações ao longo do primeiro semestre.

Turnês mais longas pesaram na decisão

King apontou outro fator que pode ter contribuído: a diferença de disposição em relação à quantidade de turnês planejadas.

Segundo ele, teve a impressão de que Andy não ficou exatamente entusiasmado ao conhecer a dimensão da futura agenda. King pretende aumentar a quantidade e duração das excursões nos próximos anos e considera isso essencial para os novos ciclos de King Diamond e Mercyful Fate.

O vocalista lembrou que outros músicos já se afastaram de seus projetos por razões semelhantes, principalmente pela dificuldade de conciliar longos períodos na estrada com a vida familiar.

“Quando a decisão foi tomada, aconteceu ao longo de dois dias”, explicou. “[Mas] isso já vinha se desenhando há algum tempo. E não foi uma coisa específica, tipo ‘você disse isso’ ou ‘fez aquilo’. Não foi assim. Foi realmente como ir se afastando um pouco aqui, um pouco ali. E, recentemente, tive a sensação de que, quando Andy ouviu os novos planos de turnê e os planos gerais, não foi algo do tipo ‘Oba!’, mas mais ‘Meu Deus. Você está brincando comigo?’. Não acho que ele goste tanto de fazer turnês na intensidade que estamos fazendo agora.

“Já vi isso acontecer muitas vezes antes. Michael Denner, guitarrista do Mercyful Fate, parou porque não conseguia lidar com as turnês. Havia muito atrito em casa sempre que ele fazia isso. Para ele, a saudade era grande demais e havia toda essa questão. Eu entendo completamente. Acho que outros também passaram por isso. Chris Estes, ex-baixista do King Diamond, era assim. E o ex-guitarrista Herb Simonsen também… A maioria das pessoas que deixou de tocar conosco ao longo do caminho fez isso por esse motivo: família. Hoje fazemos turnês mais longas e vamos continuar assim, porque isso é muito, muito importante.”

Gus G. foi a primeira opção

Quando ficou claro que seria necessário encontrar um substituto, surgiu Gus G., conhecido pelo Firewind e por sua passagem pela banda de Ozzy Osbourne.

Curiosamente, King admite que não conhecia bem o trabalho do guitarrista.

A primeira recomendação veio de Hank Shermann, do Mercyful Fate. Depois, Brian Slagel, fundador da Metal Blade Records, também sugeriu o nome.

“Conversei com Hank [Shermann, guitarrista do Mercyful Fate] e disse a ele que estava procurando um novo guitarrista para substituir Andy no King Diamond. Então ele falou: ‘Você deveria dar uma olhada no Gus G.’ E eu não sabia quem era Gus G.. Depois, Brian Slagel, fundador e CEO da Metal Blade Records, me disse: ‘Ah, Gus G., cara’. E eu nem respondi direito, porque não conhecia. Então ele foi a segunda pessoa a me recomendar o Gus.

“Quando começamos a conversar mais sobre isso, comecei a ouvir as coisas dele e fiquei muito interessado, obviamente. Ele foi a primeira pessoa de quem falamos para isso. Nunca discutimos fazer audições ou qualquer coisa assim. Falamos sobre ele e começamos a pesquisar mais a fundo porque parecia: ‘Uau, espere um pouco. Ok.’ Então eu disse ao Brian Slagel: ‘Você consegue colocar a gente em contato? Pode perguntar se ele se importaria se eu ligasse para ele?’, ou algo assim.”

King deixou uma coisa bastante clara: ele não será apenas um músico contratado.

Gus entrou efetivamente para a banda e deverá participar também da composição. Nos clássicos, entretanto, a orientação é respeitar ao máximo as partes criadas por Andy.

“Primeiro de tudo, ele vai copiar Andy o mais fielmente possível nas músicas clássicas e vai honrar completamente aquilo. É isso que as pessoas querem ouvir e ver. Então essa é uma coisa. Mas ele não é um músico contratado. Ele está na banda — 100%.

“Por isso, ele vai tocar, gravar e fazer turnês conosco enquanto isso funcionar — espero que até o dia em que não tocarmos mais. É o que eu espero. Porque ele é muito pé no chão, uma pessoa muito legal e extremamente habilidosa. Tem a atitude certa para captar o estilo da maneira como eu quero.

“Já estamos conversando bastante. Mas quero que ele toque com o próprio estilo, desde que isso também combine com o que fazemos. Então vocês não vão simplesmente ouvir o Gus fazendo o que ele faz no Firewind. Claro que haverá um pouco disso, tenho certeza, mas também surgirá um lado novo dele, talvez algo que nem ele próprio tenha explorado ainda.

“Ele pode acabar acrescentando uma nova dimensão à técnica enorme que já possui, por causa da maneira como eu monto as coisas e do tipo de coisa que talvez eu peça para ele tentar fazer.”

“Vocês estão esquecendo de uma coisa”

A saída também provocou dúvidas sobre o impacto no aguardado novo álbum, principalmente pelo papel histórico de La Rocque como compositor.

King respondeu lembrando que ele próprio escreveu, em média, cerca de 70% da música da discografia da banda, além de todas as letras. Atualmente, afirma possuir material musical suficiente para aproximadamente um álbum e meio da trilogia que pretende desenvolver.

“Algumas pessoas talvez pensem: ‘Ah, o Andy está saindo agora, é o compositor deixando a banda… O que eles vão fazer?’. É tipo: espere um pouco. Vocês estão esquecendo de uma coisa. Eu escrevi, de longe, a maior parte do material do King Diamond. Só falando da música, em média escrevi 70%. E depois todas as letras.

“Essa é uma média considerando todos os álbuns que fizemos juntos. Acho que é natural as pessoas imaginarem que o guitarrista ou um tecladista componha a música. Mas conosco nunca foi assim.”

Ele continuou:

“Tenho material suficiente para o primeiro álbum e metade do segundo dessa história que será contada ao longo dos próximos três álbuns do King Diamond, apenas com coisas minhas, e tudo isso já está musicalmente pronto para ser gravado, completamente escrito.

“Quanto às letras, tenho toda a história completa para os três discos. Também já tenho na cabeça como tudo vai parecer no palco. Quando tocarmos ao vivo a última nota do terceiro álbum, eu já sei como a cena estará naquele momento. Então estou muito avançado em tudo.

“Mas, em relação ao Gus, eu também disse ao Mike Wead e ao Pontus [Egberg, baixista do King Diamond]: ‘Se vocês tiverem alguma coisa que achem que devemos ouvir, podemos escutar’. Eu sempre vou escrever a maior parte. É assim que funciona. Esse estilo não pode mudar.

“Também disse a mesma coisa ao Gus. Falei: ‘Bem, sei que você compõe. Ouvi todos os seus álbuns do Firewind’. Quero que ele escreva algumas coisas próprias, mas ele quer fazer algo que achei muito legal: quer que eu conte a história primeiro, para que ele entre naquele clima, entenda que tipo de horror está acontecendo, e depois quer me enviar algumas ideias.

“Posso ouvir, escolher o que me parecer interessante e, a partir daí, vemos como trabalhar. Se eu sugerir alguma coisa para ele tentar, ele pode experimentar. Talvez a gente componha algo junto, uma coisa ou outra. As portas estão abertas para isso.”

O próximo disco de King Diamond deverá chegar somente em 2028. Antes disso, a prioridade será o novo álbum do Mercyful Fate, com lançamento estimado para 2027.

Assim, a saída de Andy muda uma parceria histórica, mas não interrompe os planos. Para King, depois de 40 anos, a separação simplesmente chegou ao ponto em que seguir caminhos diferentes parecia melhor para ambos.

“Eu disse a todo mundo: ‘Não vou fazer mais nenhum show sem sabermos que temos álbuns novos chegando’”, explicou.

“As duas bandas estão em estúdio, 100%, agora. E o Mercyful Fate terá uma pequena prioridade, porque o prazo do Mercyful Fate é dezembro de 2026. Temos bastante tempo. Quero dizer, alguém teria que quebrar um braço, uma perna ou alguma coisa assim para não conseguirmos cumprir isso. Estamos bem avançados no álbum. Já trabalhamos nessas coisas há bastante tempo. O disco estará terminado até lá, para que a Metal Blade tenha todo o tempo necessário para preparar tudo, incluindo vinil e todos os formatos.

“Depois, imagino que ele seja lançado por volta de maio de 2027 — esse seria um bom palpite — porque o Mercyful Fate começa a turnê desse álbum novo na Europa no verão de 2027. Depois disso, devemos seguir diretamente para uma turnê pelos Estados Unidos no outono, imagino que de meados de outubro até meados de dezembro, se tudo correr bem.

“O álbum do King Diamond estará pronto para lançamento quando sairmos para a Europa com o Mercyful Fate. Esse disco simplesmente ficará esperando. Voltaremos e provavelmente será dezembro de 2027 quando o Mercy terminar a turnê. Depois, talvez façamos uma pequena passagem pela América do Sul antes de o King Diamond começar a excursionar na primavera de 2028.

“O novo álbum deve chegar no fim da primavera de 2028. Imagino que possa sair por volta de abril de 2028. Em meados de abril de 2028, consigo nos imaginar começando os ensaios na Europa para a turnê de um álbum totalmente novo.

“Então a turnê provavelmente começará umas cinco semanas antes da temporada de festivais, em junho de 2028. Depois entraremos no circuito de festivais por cerca de um mês. Portanto, estaremos tocando por pouco mais de dois meses na Europa.

“Depois precisamos voltar aos Estados Unidos para nos preparar para uma turnê americana desse álbum novo. E teremos novas produções de palco para as duas bandas. O King Diamond vai subir realmente mais um degrau quando voltarmos à estrada. Vai ficar ainda mais, eu diria, teatral.”

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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