James Hetfield rejeita discursos políticos nos shows: “O Metallica não está aqui, como alguns outros artistas, para influenciar vocês.”

James Hetfield aproveitou uma pausa durante a apresentação do Metallica na Sphere, em Las Vegas, no último sábado, 10 de outubro, para deixar bastante clara a maneira como enxerga o papel da banda sobre o palco: fazer música e proporcionar algumas horas de escapismo ao público, sem transformar o show em palanque político.
Falando diretamente aos fãs, o vocalista agradeceu a quem viajou até Las Vegas, gastou dinheiro e dedicou tempo para acompanhar a residência “Life Burns Faster”. Em seguida, fez uma observação que rapidamente ganhou repercussão.
“O Metallica não está aqui, como alguns outros artistas, para influenciar vocês com as merdas deles.”
Hetfield não citou qualquer músico, banda, candidato, partido ou movimento político. Portanto, embora a frase possa ser interpretada como crítica a artistas que utilizam apresentações para defender posições políticas, não existe base para atribuí-la diretamente a qualquer nome específico.
“Estamos aqui para esquecer as merdas lá de fora”
O vocalista continuou explicando qual seria a proposta do Metallica quando sobe ao palco.
“Estamos aqui para esquecer todas as merdas lá de fora, certo?”
Em seguida, resumiu aquilo que chamou de agenda da banda:
“A agenda do Metallica é amor, energia e música pesada, baby!”
A declaração aconteceu durante o quarto show da residência na Sphere. O Metallica havia iniciado a temporada nos dias 1 e 3 de outubro, retornando para outra dupla de apresentações em 8 e 10 de outubro. A programação continuará ao longo dos próximos meses, inclusive em 2027.
Metallica já abordou política nas letras
A declaração de Hetfield não significa que o Metallica jamais tenha abordado temas políticos ou sociais em sua música.
Um exemplo evidente é “…And Justice For All”, cuja letra trata de corrupção, dinheiro, poder e da distorção da própria ideia de justiça. O grupo inclusive voltou a tocar a composição durante a atual residência na Sphere, em 1º de outubro, depois de anos sem executá-la regularmente. Outras músicas da carreira também abordam guerra, manipulação, instituições, vícios sociais e destruição.
A diferença está entre escrever sobre temas políticos ou sociais dentro da arte e transformar o intervalo entre as músicas em orientação política direta ao público. Pela fala de Hetfield, é justamente essa segunda situação que ele procura evitar.
Essa posição não surgiu agora. Em uma entrevista concedida ao jornal chileno La Tercera, em 2017, Hetfield afirmou que prefere guardar suas opiniões políticas para si e destacou que seu papel é ser cantor e guitarrista de uma banda de Rock.
Na ocasião, explicou que considera música uma ferramenta para aproximar pessoas, enquanto política e religião frequentemente provocam divisões.
O próprio Lars Ulrich já comentou algo semelhante sobre a dinâmica interna do Metallica. Apesar de demonstrar publicamente opiniões políticas com mais frequência do que Hetfield, o baterista afirmou que praticamente nunca se sentou com o companheiro para discutir política de maneira aprofundada.
Um contraponto interessante ao debate recente
A declaração também surge poucos dias depois de Tom Morello falar justamente sobre a relação entre artistas e política.
O guitarrista do Rage Against The Machine defendeu que bandas não precisam obrigatoriamente produzir música política. Para ele, o mais importante é que cada artista seja verdadeiro com aquilo que acredita e não se autocensure por medo de perder público.
Nesse sentido, as duas posições não são necessariamente opostas.
Morello defende que músicos politizados devem se sentir livres para expressar suas ideias, enquanto Hetfield deixa claro que não deseja utilizar os shows do Metallica para tentar influenciar politicamente quem está diante do palco.
A diferença está principalmente na maneira como cada um enxerga sua própria função como artista.
Sphere virou o centro do universo do Metallica
A fala ocorreu em meio à residência mais ambiciosa visualmente da história do grupo.
O Metallica está utilizando a tecnologia da Sphere para desenvolver projeções específicas para cada música, com equipes como Industrial Light & Magic e Treatment criando visuais gigantescos ao redor da plateia.
O conceito preserva também o formato “No Repeat Weekend”, utilizado pela banda nos últimos anos: quem assiste às duas apresentações de um mesmo fim de semana recebe repertórios completamente diferentes.
Nos dias 8 e 10, por exemplo, nenhuma música foi repetida entre as duas noites.
A apresentação de sábado incluiu novamente “For Whom The Bell Tolls”, que chegou ao impressionante número de 1.605 execuções ao vivo na carreira do grupo.
Música pesada antes de qualquer discurso
É justamente dentro de um espetáculo desse tamanho que a declaração de James Hetfield chama atenção. O Metallica poderia utilizar uma plataforma gigantesca para defender praticamente qualquer causa ou mensagem. Hetfield, no entanto, parece preferir que o público encontre ali algumas horas para escapar de tudo aquilo que já enfrenta fora do local.
Para Hetfield, o fã não comprou ingresso para receber orientação política entre uma música e outra.
Comente o que achou do posicionamento do músico!
Pelo menos dentro da Sphere, a agenda anunciada pelo vocalista permanece bastante simples: amor, energia e música pesada.