Tom Morello diz que bandas de Metal não precisam ser políticas: “Façam música honesta com o que sentem”

Photo: John Stanton/WireImage

Conhecido por transformar política em parte inseparável de sua obra com o Rage Against The Machine, Tom Morello surpreendeu ao responder se mais bandas de Heavy Metal deveriam adotar mensagens políticas em suas músicas.

Em entrevista à rádio alemã Star FM 87.9, de Berlim, o guitarrista afirmou que não acredita que artistas devam escrever sobre política simplesmente porque alguém espera isso deles. Para Morello, a prioridade deve ser outra: autenticidade.

Segundo ele, o artista tem uma responsabilidade principal:

“Dizer a verdade por meio da sua arte.”

“Não façam música política para agradar Tom Morello”

Morello explicou que, no caso dele, ignorar temas como injustiça social seria artificial, porque essas questões fazem parte de sua maneira de enxergar o mundo e, consequentemente, de compor.

Mas isso não significa que outros músicos precisem seguir o mesmo caminho.

O guitarrista chegou a usar o Mötley Crüe como exemplo. Para ele, quando a banda escreve sobre festas, mulheres e excessos, aquilo também funciona porque existe autenticidade naquela proposta.

A mesma lógica valeria para o Judas Priest, cujas letras percorrem assuntos completamente diferentes entre si.

“Não façam música política para agradar Tom Morello. Façam música que seja honesta com o coração de vocês.”

Para Morello, é essa honestidade que cria conexão com o público.

Photo: Ollie Millington / Redferns

Metal sempre teve política — mesmo quando isso não é percebido

O guitarrista também contestou a ideia de que mensagens políticas sejam algo estranho ao Heavy Metal.

Ele lembrou que “War Pigs”, do Black Sabbath, é uma das músicas políticas mais fortes já escritas, enquanto “Run To The Hills”, do Iron Maiden, aborda a violência contra povos indígenas durante a expansão colonial na América do Norte.

Ou seja, para Morello, a discussão não deveria ser simplesmente se uma banda é “política” ou “apolítica”.

Mensagens sociais, históricas e críticas ao poder sempre estiveram presentes no gênero, mesmo em grupos que nunca fizeram da militância sua principal identidade.

O problema, para Morello, é a autocensura

Existe, entretanto, uma situação que o guitarrista considera problemática.

Segundo ele, se um artista realmente possui opiniões sobre injustiça, política ou questões sociais, mas decide esconder essas posições por medo de perder fãs, espaço em rádio ou apoio da indústria, então passa a existir uma forma de autocensura.

Morello considera isso prejudicial tanto ao artista quanto ao período histórico em que ele vive.

Em outras palavras, ele não exige que músicos adotem posições políticas. Mas entende que, caso tenham algo a dizer, não deveriam esconder isso apenas para preservar mercado ou evitar críticas.

“Por que cobrar isso apenas das bandas?”

Morello também ampliou o debate para fora da música.

Segundo ele, não faz muito sentido perguntar apenas se bandas deveriam ser mais politizadas.

O guitarrista argumentou que qualquer pessoa — seja músico, radialista, empresário de turnê, carpinteiro ou estudante — deveria agir de acordo com aquilo em que acredita.

Por isso, em sua visão, a pergunta correta não seria se mais bandas deveriam ser políticas, mas se mais pessoas deveriam se posicionar sobre assuntos que consideram importantes.

Photo: ZUMA Press, Inc. / Alamy

Tom Morello também se vê como defensor do Heavy Metal

A entrevista não ficou restrita à política.

Morello voltou a falar sobre sua relação histórica com o Heavy Metal e disse que atua como uma espécie de defensor do gênero desde a adolescência.

Ele lembrou que muitas bandas importantes foram tratadas com desprezo durante décadas fora do circuito do Metal e destacou sua atuação dentro do Rock And Roll Hall Of Fame.

Segundo o guitarrista, trabalhou diretamente para ajudar a ampliar o reconhecimento de artistas como Randy Rhoads, Judas Priest, Iron Maiden, Rush, Kiss e Stevie Ray Vaughan.

Morello também codirigiu, ao lado de Sam Dunn, o documentário “The Ballad Of Judas Priest”, projeto que ele descreveu como uma oportunidade de contar a história de uma banda pela qual possui profunda admiração.

Priest e Maiden atravessaram gerações

Para Morello, o atual tamanho de bandas veteranas prova que o Heavy Metal conseguiu atravessar gerações.

Ele citou o Iron Maiden comandando alguns dos maiores festivais do mundo, o momento vivido pelo Judas Priest e a capacidade de grupos com mais de quatro décadas de história continuarem atraindo fãs jovens.

O guitarrista afirmou perceber isso também em seus próprios shows. Ao tocar riffs do Rage Against The Machine em festivais como Rock Am Ring e Rock Im Park, ele observa adolescentes e jovens adultos reagindo com a mesma intensidade de gerações anteriores.

Uma posição menos simples do que “Metal deve ser político”

As declarações são interessantes justamente porque fogem de uma conclusão automática que muitas vezes acompanha o nome de Tom Morello.

O guitarrista não afirmou que bandas de Metal tenham obrigação de promover candidatos, partidos ou causas políticas.

Sua defesa é pela liberdade do artista para falar daquilo que realmente faz parte de sua identidade.

Se uma banda quer escrever sobre guerra, injustiça e política, deve fazê-lo.

Se quer escrever sobre carros, festas, sexo, fantasia ou qualquer outro assunto, também.

Para Morello, o problema começa apenas quando o artista deixa de dizer aquilo em que realmente acredita por medo da reação do público.

No fim das contas, sua tese é bastante simples: a arte não precisa ser política — precisa ser autêntica.

Photo: Larry Marano/REX/Shutterstock
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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