Harlott encerra jejum de seis anos com “Exsequiis” e conduz Deus ao próprio funeral

Os australianos do Harlott lançaram nesta sexta-feira “Exsequiis”, quinto álbum da carreira e primeiro trabalho completo desde “Detritus Of The Final Age”, de 2020.

O intervalo de seis anos não resultou em uma tentativa de recuperar simplesmente aquilo que o grupo já fazia bem. O novo disco mantém o Thrash Metal como fundamento, mas abre espaço para dissonância, melodias, grooves mais lentos e construções que Andrew Hudson provavelmente evitaria nos primeiros anos da banda.

O próprio título dá uma boa pista da atmosfera escolhida. Exsequiis é um termo latino relacionado a ritos e procissões funerárias.

Depois da humanidade, chegou a vez de enterrar Deus

A ideia visual continua uma sequência apocalíptica presente na discografia do Harlott. Depois de abordar destruição biológica, colapso social e a deterioração provocada pela própria humanidade, Hudson se perguntou o que ainda restaria quando tudo estivesse acabado.

A resposta foi: Deus.

A capa criada por Shaun Farrugia, do In Malice’s Wake, apresenta uma divindade em chamas enquanto uma procissão funerária atravessa a cena. A figura utiliza como referência os Ophanim, seres descritos em textos bíblicos como rodas repletas de olhos, mas também pode lembrar uma estrutura atômica ou mesmo um sistema planetário.

A ambiguidade entre religião e ciência não é acidental. Hudson trabalha como químico e possui formação ligada à bioquímica e biologia, áreas que frequentemente acabam encontrando espaço em suas letras.

“The Joyful Stain” quebra a própria regra da banda

Uma das faixas mais curiosas é “The Joyful Stain”. O Harlott sempre foi associado a velocidade, mas a composição praticamente recusa essa ferramenta. Sendo assim, em vez de esperar por uma explosão típica de Thrash, a música permanece pesada e cadenciada.

Hudson chegou a brincar com a reação recebida:

“É a coisa menos Thrash Metal em que já coloquei meu nome.”

Apesar disso, vários ouvintes interpretaram a música justamente como um grande retorno do Thrash da banda. A letra é menos ambígua.

O músico utiliza referências ao hino australiano para atacar aquilo que considera corrupção, estupidez, indiferença e interesse próprio dentro da política de seu país. Dessa forma, a expressão tradicional “girt by sea” é transformada em “girt by greed” — cercado pela ganância.

Ciência volta ao vocabulário do Harlott

Outras faixas carregam referências diretamente retiradas da ciência.

“Kleptogenesis” utiliza o nome de um processo reprodutivo encontrado na biologia como metáfora para estruturas sociais que sobrevivem drenando aquilo que existe ao redor.

“Endling” parte do termo utilizado para designar o último indivíduo vivo de uma espécie, enquanto “A Still More Glorious Dawn Awaits” faz referência deliberada ao astrônomo e divulgador científico Carl Sagan.

“Exsequiis” possui 11 músicas e chega pela Metal Blade Records, justamente no ano em que o Harlott completa aproximadamente duas décadas de existência.

Em vez de comemorar a data tentando soar como adolescentes outra vez, a banda encontrou uma solução mais interessante: continuar escrevendo Thrash, mas parar de perguntar se cada ideia é Thrash o suficiente.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
Deixe seu comentário