Em entrevista de 2015, Cronos relembrou as histórias por trás de clássicos do Venom

Em uma entrevista concedida à BraveWords durante o 70000 Tons Of Metal 2015, há cerca de 11 anos, Cronos, vocalista e baixista do Venom, falou sobre as histórias e inspirações por trás de algumas das músicas mais marcantes da banda. A conversa, que também contou com os então integrantes Rage (Stuart Dixon) e Danté (Danny Needham), recuperou detalhes de composições que ajudaram a estabelecer as bases do Black Metal e influenciaram gerações de músicos.
Ao explicar “Black Metal”, Cronos revelou que a música foi concebida como uma representação do espetáculo ao vivo do Venom.
“‘Black Metal’ é sobre o show ao vivo do Venom. Essa foi a ideia original por trás dela. Estava descrevendo ‘black’, sendo a noite, e ‘metal’ era a força preparada para explodir. Éramos nós no palco. É meio que o que acontece em nossas mentes — criando aquele caos. Você sabe, você tem todas as suas outras bandas de Rock — seus Deep Purple, etc. — e fica sentado batendo o pé, e é ótimo, mas nós queríamos que as pessoas surtassem; pessoas fazendo mosh, mergulhando, pulando por aí e enlouquecendo.”
Terror, satanismo e devoção dos fãs
Sobre “Witching Hour”, Cronos contou que seus quadrinhos de terror da infância serviram como ponto de partida, embora a composição também explorasse a representação do satanismo feita pela Igreja.
“Eu costumava ler muitos quadrinhos de terror quando era criança, que foi mais ou menos onde a inspiração começou. Mas, na verdade, é sobre como a Igreja retrata o satanismo. Eu queria fazer algo baseado exatamente nesse ideal que a Igreja tem dele. É exatamente como o título diz — todas as bruxas voando por aí em suas vassouras e dançando com o diabo.”
Já “Die Hard” tinha um significado diferente:
“É sobre as legiões… os fãs. É sobre a dedicação deles à música.”

Em “Manitou”, o músico decidiu abordar uma dimensão mais pessoal de sua identidade:
“Sou descendente de quinta geração de indígenas Cherokee, então queria escrever uma música sobre o espírito dos indígenas. Queria criar uma música que fosse um pouco mais sobre mim do que apenas sobre o diabo.”
Enquanto isso, “At War With Satan” nasceu de um livro que Cronos havia escrito:
“Essa música é sobre um livro que escrevi. Simplesmente peguei as letras da história. Ela começa mais ou menos onde a Bíblia termina e retrata a guerra contra o céu e o inferno. Eu adoraria terminar o livro um dia.”
Uma composição sem riffs repetidos
Ao falar sobre a estrutura de “At War With Satan”, Cronos também revelou que pretendia transformar a história em um espetáculo de aproximadamente duas horas e citou sua admiração pelo Rush, especialmente “2112”. Além disso, explicou que a longa composição serviu para aproveitar ideias musicais acumuladas ao longo dos anos:
“Do ponto de vista de um músico, tenho milhares de riffs, linhas de baixo, batidas de bateria e letras que nunca usei, e foi uma oportunidade de utilizar parte desse material. Achei que seria ótimo ter uma música em que você tivesse os temas — usando um riff aqui, ali e ali — e todos esses riffs aqui e aqui, mas eles nunca se repetem. Então, conforme cada seção termina e ela passa para outra parte da música, você nunca ouve aqueles riffs se repetirem. Isso simplesmente cria algo diferente. Para alguém ouvindo aquele álbum pela primeira vez, deve ser difícil absorvê-lo, porque não há realmente nada em que se agarrar — ao contrário de uma música comercial.”

Cronos ainda explicou que “Possessed” foi escrita durante o mesmo período das faixas de “Welcome To Hell” e lembrou uma curiosidade sobre “Manitou”:
“É engraçado você mencionar ‘Manitou’ e ‘Possessed’, porque elas costumavam ter os riffs e as letras uma da outra.”
Já “Live Like An Angel” seguia uma direção mais festiva:
“Uau! Eu escrevi isso em parceria com o guitarrista. Ele tinha muitas músicas de rock, como Motörhead e outras bandas, que meio que escrevem músicas sobre simplesmente sair por aí e festejar. Então, ‘Angel’ é meio assim, um pouco mais despreocupada — sair, fazer sexo, ficar bêbado. Uma música de festa. Não ter tanto medo de viver.”
O “dedo do meio” para a Igreja
Por fim, Cronos explicou a intenção provocadora de “In League With Satan”:
“Eu queria que aquelas músicas fossem controversas — um enorme dedo do meio para a Igreja. Eu sabia que eles iriam odiar pra caralho e que isso os assustaria pra caralho. Sendo um grande fã do Sabbath, eu sempre ficava frustrado quando Ozzy parava antes de ter algo grande a dizer — então eu queria levar isso muito mais longe.”
A conversa realizada em 2015 hoje ganha um significado ainda mais especial após a morte de Cronos, em 29 de setembro de 2026. Ao lado de Mantas e Abaddon, ele ajudou a criar uma sonoridade e uma atitude que mudaram os rumos do Heavy Metal e deram origem ao termo Black Metal como conhecemos. Descanse em paz, Cronos, e que seu legado permaneça vivo por muitas gerações.

