Edu Falaschi (Live Review): Mi’raj & The Legacy Tour 2026

Boas histórias merecem destaque, e a trajetória do cantor Edu Falaschi certamente é uma delas. O músico celebra 35 anos de carreira ao somar todos os seus projetos e bandas. Embora sua passagem pelo Angra tenha rendido os maiores frutos e o reconhecimento dentro e fora do país, o vocalista construiu uma sólida caminhada até atingir esse ápice de alcance e sucesso.
Atualmente, Edu colhe os frutos de um trabalho árduo em sua carreira solo. Seu mais recente lançamento, “Mi’raj” (2026), encerra uma trilogia conceitual complexa e muito bem estruturada, que contou com a dedicação de muitos profissionais. Com esse novo show, o cantor pretende celebrar o seu legado e, ao mesmo tempo, projetar os próximos passos de seu futuro.
A produção idealizou a apresentação em São Paulo com um repertório dividido em três atos. O cronograma inicial previa que o show passaria pela trilogia solo composta por “Vera Cruz” (2021), “Eldorado” (2023) e “Mi’raj”. Além disso, o músico planejava resgatar fases marcantes de sua trajetória nas bandas Symbols, Almah e Angra. Por fim, o roteiro original reservava um bloco especial dedicado exclusivamente aos álbuns “Aurora Consurgens” e “Aqua”, ambos da época do Angra.
No entanto, a produção modificou o anúncio de última hora. O artista entregou uma apresentação direta e com um repertório variado, sem seguir o roteiro planejado inicialmente. Apesar da mudança, o público reagiu de forma extremamente positiva. Os fãs não demonstraram qualquer tipo de insatisfação; pelo contrário, todos celebraram com entusiasmo cada escolha musical de Edu Falaschi.
Os 35 anos de carreira de Edu Falaschi
Para comemorar um repertório de mais de três décadas, Edu Falaschi escolheu o Tokio Marine Hall, em São Paulo, um local já habitual de suas apresentações. O espetáculo aconteceu no último sábado e reuniu não apenas fãs e amigos do músico, mas também a imprensa especializada e diversos convidados notáveis.
Durante a noite, o cantor uniu o seu trabalho atual a composições de outras épocas, trazendo uma releitura de músicas que ele mesmo admitiu não cantar por anos a fio. Dessa forma, o artista criou a oportunidade perfeita para fazer o público mais velho relembrar tais canções, enquanto apresentava esse repertório histórico para os espectadores mais jovens.
De fato, a base de fãs de Edu Falaschi está mudando e se expandindo. Esse fenômeno ocorre tanto por conta de sua marcante interpretação em temas de anime quanto pelo impacto dos seus trabalhos recentes. Como resultado, essa renovação constante do público garante ao músico o fôlego necessário para continuar seguindo em frente com sua carreira.

O abrir das cortinas com Tito Falaschi
Para transformar a noite em uma verdadeira festa em família, Edu Falaschi convidou seu irmão, o vocalista e baixista Tito Falaschi, para realizar as honras de abertura do show com o seu repertório solo. Durante o intervalo entre as músicas, Tito destacou a iniciativa do irmão e revelou que aceitou o convite sem pensar duas vezes, demonstrando imensa alegria por estar naquele palco. Contudo, a sua participação não se limitou a abrir as cortinas do espetáculo, visto que ele retornou mais tarde para dividir os vocais com Edu em um momento especial do show principal.
Vale ressaltar que Tito lançou o seu mais novo trabalho independente, o álbum “Time to Move On”, no dia 17 de julho. Por isso, os estandes no hall de entrada do Tokio Marine Hall disponibilizaram o disco para venda ontem à noite.
No palco, a jornada começou com a já tradicional “Fight for Freedom”, faixa do álbum de estreia “Mirror of Souls” (2022). Essa escolha se mostrou assertiva, pois o público presente reagiu com muito entusiasmo. Em seguida, o músico apresentou “Mirror” para introduzir o novo disco. A faixa entregou uma atmosfera emotiva e cadenciada, com melodias e sinfonias que se encaixaram perfeitamente à proposta. Logo depois, a banda emendou “The World is Falling”, trazendo uma curiosidade: no tracklist oficial de “Time to Move On”, as duas canções aparecem em ordem invertida.

Entre balada e cover, houve um diferencial
Dando continuidade à divulgação do trabalho atual, Tito tocou “War”, uma composição que pertence à reta final do novo álbum. Embora cadenciada, a música trouxe momentos expressivos e um riff de base muito contundente. Na sequência, a balada “Leave It All Behind” — segunda faixa do primeiro disco executada na noite — conquistou os olhares do público. Embora esse estilo mais emotivo, que lembra temas de novela, divida opiniões, a performance funcionou perfeitamente para os fãs desse formato.
Posteriormente, a faixa-título do segundo álbum veio consolidar a forte presença da banda no palco. “Time to Move On” abre o disco, mas no show ela serviu para quase fechar a curta apresentação. Os músicos posicionaram a canção estrategicamente nesse ponto por ser mais rápida, complementando a calmaria da música anterior e injetando um gás extra no evento. Como resultado, a banda entregou uma performance altamente satisfatória: o guitarrista solo Alexandre Nascimento comandou os arranjos e os próprios solos de forma contundente, enquanto o baterista Arthur Marques despejou energia em seu kit. Além deles, o guitarrista base Bruno Andrew e o tecladista Leandro Freitas adicionaram técnica e categoria de maneira formidável.
Finalmente, para encerrar a breve apresentação, Tito Falaschi anunciou que tocariam uma música da banda favorita dele e de seu irmão. Dessa forma, a banda executou “The Evil That Men Do”, hino histórico lançado pelo Iron Maiden no clássico álbum “Seventh Son of a Seventh Son” (1988).

Integrantes:
- Tito Falaschi (vocal, baixo)
- Arthur Marques (bateria)
- Bruno Andrew (guitarra rítmica)
- Alexandre Nascimento (guitarra solo)
- Leandro Freitas (teclado)
Setlist do show:
- Fight for Freedom
- Mirror
- The World is Falling
- War
- Leave It All Behind
- Time to Move On
- The Evil That Men Do (Iron Maiden cover)

“Mi’raj & The Legacy Tour”
Apesar do sucesso, a produção atrasou o início do show de Edu Falaschi em cerca de dez minutos, o que gerou algumas reclamações pontuais entre os fãs presentes. Contudo, o descontentamento não ganhou força, visto que o público logo abafou os comentários ao entoar o coro fervoroso de “Edu! Edu! Edu!”. Assim que as luzes se apagaram, a equipe revelou uma superprodução cenográfica montada especialmente para exaltar o conceito do álbum “Mi’raj”. O cenário destacava um enorme backdrop digital com a capa do novo disco, além de duas estátuas gigantes de cavaleiros com espadas e escudos em punho, posicionadas em cada canto ao fundo do palco. Ademais, canhões em versões de época e outros adereços temáticos completavam a atmosfera visual da trilogia.
No início, eu alimentava a expectativa de assistir a uma apresentação dividida estritamente em três atos. No entanto, logo percebi que a banda não seguiria essa divisão e, em vez disso, despejaria uma avalanche musical misturando sons novos e antigos da carreira de Edu. Certamente, essa quebra de protocolo não diminuiu o valor do evento para mim. Mesmo assim, vale notar que contradizer um anúncio oficial pode acarretar o descontentamento de uma parte dos espectadores. Felizmente, Edu sabe perfeitamente como lidar com sua base de fãs. Por consequência, a plateia abraçou e celebrou a mistura fina que a produção apresentou logo de cara, a partir da execução de “Watchers of the Light”.

O início da jornada comemorativa
A faixa escolhida não foi por acaso. Afinal, possui bastante impacto e proporciona aos músicos colocarem um ímpeto misturado com surpresa e energia redobrada. Logo após a entrada de cada músico, Edu apareceu e recebeu a ovação do público. Sem enrolação, o vocalista tratou de cumprir o roteiro ensaiado e planejado, entrando com o pé na porta através da canção que abre o tracklist de “Mi’raj”. Em seguida, ele quebrou a “regra” dos três atos anunciados e trouxe aos espectadores a faixa “Ego Painted Grey”, do álbum “Aurora Consurgens” (2006).
Para deixar a noite ainda mais surpreendente, Edu chamou ao palco seu irmão Tito Falaschi e o guitarrista Demian Tiguez para cantarem “Eyes in Flames”, clássico de sua antiga banda, o Symbols. Na sequência, a banda emendou “Echoes of Vows”, que ganhou o brilho especial de um trecho de “Tears of the Dragon”, hino na voz de Bruce Dickinson. Logo depois, mais uma faixa do Angra entrou no repertório: “Running Alone”. Edu continuou a celebrar o passado ao resgatar “Eyes of Time”, composição do Mitrium, sua primeira banda profissional.
Novamente, o Angra ganhou os holofotes. “Lease of Life”, do álbum “Aqua” (2010), colocou o público mais uma vez nas mãos de Falaschi. Após a introdução “Burden”, a pesada “The Ancestry” fez a dobradinha idêntica à abertura do disco “Vera Cruz”. Nesse momento, a participação de Thiago Bianchi trouxe ainda mais energia à canção, alternando versos individuais e dividindo um duo poderoso com Edu.

Surpresas e saxofone
Dando sequência ao show, “Unchained” adicionou mais uma pitada do tempero do disco novo. Para apimentar a festa, o saxofonista Wagner Barbosa adentrou ao palco e tocou o famoso solo de “Careless Whisper”, de George Michael, como introdução para a música seguinte. A reação do público misturou surpresa e alegria contagiante ao perceber que a banda executaria a faixa por completo, sem o uso de bases pré-gravadas, valorizando as linhas originais de saxofone.
Logo depois, “A Monster in Her Eyes” trouxe o Angra de volta ao centro das atenções. Mais uma representante do “Aqua”, a música confirmou definitivamente que a produção ignorou a estrutura dos três atos e preferiu misturar todo o repertório anunciado.
Nesse ponto, a banda Venus recebeu sua homenagem com “Leaving the Light” (do álbum “Ordinary Existence”, de 1998), contando com a presença de Kao, baixista original do grupo. Seguindo adiante, a intro “Viderunt te Aquae” gerou uma onda de expectativa, nervosismo e curiosidade no ar. A surpresa veio quando as primeiras notas de “Arising Thunder” rasgaram os alto-falantes com um refrão poderoso que arrastou a galera. Vale destacar que ambas as faixas abrem a audição original do álbum “Aqua”.

Maestrick e O Teatro Mágico
Mais tarde, o medley “Land Ahoy” / “Eldorado” contou com a ilustre presença de Fábio Caldeira, vocalista do Maestrick, trazendo o álbum “Eldorado” de forma breve, porém elegante. Para complementar a boa sequência, a banda emendou “The Voice Commanding You” (“Aurora Consurgens”), fazendo a alegria dos fãs mais antigos.
Surpreendentemente, Edu chamou ao palco o artista Fernando Anitelli (O Teatro Mágico) para interpretar de forma teatral o medley “Sintaxe à Cabeça” / “Da luta”. Anitelli dominou o palco do Tokio Marine Hall e trouxe a essência d’O Teatro Mágico para o show. O público aprovou o momento lúdico e diferenciado. Inclusive, ao notar a forte aceitação, o ator e músico agradeceu o prestígio e o reconhecimento dos fãs de Metal para com o seu projeto.

Improvisos e parcerias inusitadas
Problemas eventuais na guitarra e pausa para hidratação? Diante de eventuais problemas, Falaschi teve a ideia de puxar um trecho de “Blue Forever”, tema de encerramento do anime Os Cavaleiros do Zodíaco. O público cantou junto imediatamente. Além dessa surpresa, o vocalista revelou que está investindo na produção dessa faixa, bem como na música de abertura da série.
No disco “Mi’raj”, há uma faixa cantada em português. Para emocionar a plateia com essa música, intitulada “Intuição”, Edu reuniu no palco Fernando Anitelli, o guitarrista do Angra, Rafael Bittencourt, e o pianista Tiago Mineiro. O trecho final, coroado pelo solo sentimental e cadenciado de Rafael, deixou os olhos e ouvidos atentos para o que viria a seguir.
Assim que Rafael saiu, o baixista Felipe Andreoli subiu com seu instrumento em punho para executar “Birds of Prey”, faixa de abertura do segundo disco do Almah, “Fragile Equality” (2008).

Um bardo cheio de histórias para contar
Pouco depois, Edu pediu a atenção do público para contar um caso curioso sobre a clássica “Bleeding Heart” (do EP “Hunters and Prey”, de 2002). O músico explicou que a canção estourou em outros idiomas e ganhou diversas versões fora do Metal. Brincou, inclusive, que se a versão em russo fizesse sucesso, ele teria que cantar nesse idioma, arrancando risos da plateia e tornando o ambiente ainda mais festivo. Aindasobre a música, Edu provocou o público a cantar a famosa versão em português gravada pelo grupo de forró Calcinha Preta. Pode isso, Arnaldo?! Bem, pode. Afinal, o momento inusitado de fato aconteceu, e eu testemunhei tudo diretamente do meu rascunho para inserir aqui neste pergaminho musical.
Após as brincadeiras, o público descansou os ouvidos enquanto a gravação de “Deus le Volt!” anunciava a monumental “Spread Your Fire”, ambas do álbum “Temple of Shadows” (Angra, 2004). A música ganhou um impacto ainda maior com a voz operística de Veronica Bordacchini (Fleshgod Apocalypse). Na sequência, Veronica emendou mais dois sons. Primeiro, cantou sozinha “Ode to Art (de’ Sepolcri)”, de sua própria banda, referente ao álbum “Opera” (2024). Depois, dividiu com Edu os vocais de “Mi’raj”. Ao vivo, o dueto funcionou muito bem, equilibrando as técnicas e os estilos distintos de ambos com nuances marcantes.

Covers de bandas clássicas e de anime
Em seguida, “Heroes of Sand” contou com a participação do cantor croata Dino Jelusick (Whitesnake), grande revelação do Hard Rock atual. Jelusick também cantou dois covers elegantes: “Stand Up and Shout” (Dio) e “Here I Go Again” (Whitesnake). O croata honrou o legado de Dio com maestria e mostrou total desenvoltura ao cantar o clássico da banda de David Coverdale. Porém, essa última me fez rir por um motivo: “Here I Go Again” sendo cantada em português ficaria “Aqui vou eu novamente (ou de novo)” (risos).
Deixando os covers e as piadas sem graça de lado, a reta final resgatou “Pegasus Fantasy”, preenchendo o ambiente com a nostalgia dos Cavaleiros do Zodíaco – que também é um cover, pois, existe a versão original em japonês. Dando continuidade à jornada, a banda tocou o hino “Rebirth”. Dessa vez, contudo, Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli subiram juntos ao palco. O trio clássico estava formado para executar um dos maiores sucessos da carreira de Edu e do próprio Angra.
Finalmente, o tema instrumental “In Excelsis” preparou o público para o grande encerramento. A união de Edu, Rafael e Felipe entregou uma performance digna de “Nova Era”. Com o trio reunido, Edu encerrou a festa em grande apoteose diante de uma plateia explodindo de felicidade. O show terminou ao som de uma gravação encurtada de “Glory of Love” (Peter Cetera) ecoando pelo local do evento.

Considerações poderosas e progressivas finais:
Particularmente, eu não esperava encontrar muitas surpresas do meu agrado. Minha relação distante com o Power Metal justificava esse sentimento. Apesar disso, reconheço o talento de cada músico participante, assim como a contribuição de todos para uma noite bonita e com total ar de celebração dos 35 anos de carreira de Edu Falaschi.
Além disso, Edu abriu bastante espaço para os convidados realmente aparecerem e entregarem o seu melhor. Em dado momento, o vocalista afirmou que o ego é uma grande besteira, elemento que inclusive o afastou dos seus parceiros de Angra por um longo período. Por outro lado, sua resiliência diante das várias situações vividas em sua trajetória, o fizeram amadurecer diante desse afastamento.
Como resultado, o músico e os demais convidados demonstraram leveza e felicidade genuína no palco. A apresentação se transformou em uma verdadeira noite de confraternização e premiação para quem compareceu ao show. Contudo, para quem rejeita covers e baladas, ficou a sensação de que o dono da festa poderia ir além no resgate de seus trabalhos mais undergrounds. De qualquer forma, Edu Falaschi soma 35 anos de dedicação à sua visão musical, o que projeta um horizonte bastante promissor para a sequência de sua carreira solo.

Integrantes:
- Edu Falaschi (vocal, violão)
- Raphael Dafras (baixo)
- Diogo Mafra (guitarra)
- Fábio Laguna (teclado)
- Jean Gardinalli (bateria)
- Victor Franco (guitarra)
Músico de apoio:
- Marcus Cesar (percussão e instrumentos variados)
Músicos convidados:
- Tito Falaschi (vocal)
- Demian Tiguez (vocal)
- Thiago Bianchi (vocal)
- Wagner Barbosa (saxofone)
- Kao (baixo)
- Fabio Caldeira (vocal)
- Fernando Anitelli (vocal)
- Rafael Bittencourt (guitarra)
- Tiago Mineiro (piano)
- Felipe Andreoli (baixo)
- Veronica Bordacchini (vocal)
- Dino Jelusick (vocal)
Setlist do show:
- Watchers of the Light
- Ego Painted Grey
- Eyes in Flames
- Echoes of Vows
- Running Alone
- Eyes of Time
- Lease of Life
- Burden (intro gravada)
- The Ancestry
- Unchained
- A Monster in Her Eyes
- Leaving the Light
- Viderunt te Aquae (intro gravada)
- Arising Thunder
- Land Ahoy / Eldorado
- The Voice Commanding You
- Sintaxe à vontade / Da Luta
- Blue Forever
- Intuição
- Birds of Prey
- Bleeding Heart
- Deus le Volt! (intro gravada)
- Spread Your Fire
- Ode to Art (de’ Sepolcri)
- Mi’raj
- Heroes of Sand
- Stand Up and Shout
- Here I Go Again
- Pegasus Fantasy
- Rebirth
- In Excelsis (intro gravada)
- Nova Era
- Glory of Love (gravação encurtada)
O show comemorativo aconteceu no sábado, dia 15 de agosto de 2026.
- Local: Tokio Marine Hall
- Endereço: Rua Bragança Paulista, nº 1281 – Vila Cruzeiro – São Paulo/SP
