Resenha: Edu Falaschi – “Mi’raj” (2026)

Após literalmente renascer para a música com o álbum Vera Cruz (2021), Edu Falaschi viveu cinco anos de acontecimentos intensos. Nesse período, o vocalista encarou uma sequência invejável de turnês, atravessou mudanças importantes em sua banda, participou de shows de reunião com o Angra e, certamente, acumulou muito aprendizado em todas as esferas de sua carreira.

Mi’raj encerra um ciclo e, segundo o próprio Edu Falaschi, ainda é cedo para dizer se outro será iniciado. Sendo assim, o disco pode representar tanto a abertura de uma nova fase em sua trajetória solo quanto um ponto final. Somente o tempo responderá a essa dúvida.

Lançado de forma independente em 12 de junho, Mi’raj apresenta nove faixas distribuídas ao longo de pouco mais de 53 minutos. Para quem esperava uma transformação drástica nas composições após a saída do guitarrista Roberto Barros, é importante avisar: apesar de algumas mudanças, principalmente na maneira como Victor Franco conduz as guitarras, o trabalho soa como uma continuação natural dos dois registros anteriores e evidencia um DNA musical que pertence, inegavelmente, a Edu Falaschi.

Com mais ou menos notas entre uma passagem instrumental e outra, as músicas foram construídas com ousadia e receberam ajustes pontuais que acrescentam um charme especial ao álbum. O encerramento da trilogia dedicada à saga de Jorge finalmente chegou. Nas próximas linhas, vamos descobrir se o saldo dessa jornada é positivo.

Crédito: Fabio Augusto/ divulgação

O conceito por trás de Mi’raj

Após o sequestro de Janaína pela Ordem da Cruz de Nero, Jorge retorna a Portugal em busca de informações sobre o paradeiro da esposa. Ele descobre que ela foi levada ao Oriente Médio, onde a organização comandada pelo Bispo Negro Cortés prepara um ritual capaz de abrir o caminho para o retorno do chamado Dragão. Diante disso, o protagonista precisa atravessar a região, enfrentar seus inimigos e impedir a concretização do plano.

Entretanto, a verdadeira batalha de Mi’raj não acontece apenas no campo físico. Jorge descobre que ocupa o papel de “Escolhido” de sua geração e precisa atravessar o Templo dos Doze Véus, em uma jornada espiritual na qual cada véu representa um obstáculo da condição humana, como medo, orgulho, dor, renúncia e crise de identidade. Assim, guiado por uma misteriosa Vidente, ele terá de aceitar sua origem, compreender seu propósito e reconhecer sua verdadeira identidade como Santo Jorge de Vera Cruz.

A ambientação no Oriente Médio do século XVI permite que a história dialogue com o surgimento e a consolidação das grandes tradições religiosas, sobretudo por meio de elementos ligados ao Cristianismo. Ainda assim, Edu Falaschi já explicou que a narrativa não pretende entrar em discussões políticas. O foco permanece na fé, no autoconhecimento e na transformação pessoal do protagonista.

Reprodução/Facebook

Power Metal como eixo central

Embora algumas músicas soem diferentes de tudo o que Edu Falaschi havia lançado até aqui, a maior parte do repertório de Mi’raj segue definitivamente voltada ao Power Metal. É preciso entender que esse é o terreno no qual o músico se sente confortável e exerce total domínio sobre melodias, linhas vocais, ideias e arranjos.

A trinca inicial forma uma sequência certeira, capaz de arrancar sorrisos dos fãs do gênero. Watchers Of The Light abre o disco com uma longa introdução, cria suspense e desemboca em uma verdadeira avalanche instrumental. Na sequência, conhecemos a marca registrada do novo guitarrista, Victor Franco.

Se os discos anteriores começavam com grandes passagens virtuosas e levavam a técnica ao limite, desta vez encontramos riffs e melodias mais bem encaixados, além de solos que podem ser facilmente cantarolados. Mesmo sem tantos malabarismos instrumentais, Watchers Of The Light mantém o ritmo acelerado adotado anteriormente e apresenta um andamento frenético, conduzido por bumbos duplos e linhas vocais diretamente ligadas aos grandes clássicos do Power Metal.

Here I Stand surge com uma introdução voltada ao Prog e, aparentemente, tenta reduzir um pouco a rotação — pelo menos nos primeiros instantes. A partir do refrão, porém, os bumbos duplos retornam, enquanto a composição ganha velocidade e peso. A faixa alterna momentos explosivos com passagens melódicas de maneira habilidosa e competente.

Na sequência, a faixa-título Mi’raj chega com ritmos orientais e a participação da vocalista Veronica Bordachini, do Fleshgod Apocalypse. Provavelmente, este é o refrão mais forte do álbum. Em pouco tempo, torna-se inevitável perceber que você está cantando involuntariamente os versos: “I am soul, truth and unending / Mi’raj the seer everlasting / Your glory is ascending”.

Experimentações pontuais e certeiras

Depois desse início realmente poderoso — talvez o melhor de toda a trilogia —, Edu Falaschi apresenta uma de suas tradicionais baladas: Echoes Of Vows. Sabemos que essa é uma das especialidades do músico e, novamente, ele não decepciona. O grande destaque fica por conta da introdução instrumental, com mais de um minuto e meio de solos inspiradíssimos de Victor Franco. O trecho é tão bom que remete aos momentos mais melódicos de John Petrucci, do Dream Theater, quando o guitarrista privilegia o feeling em vez da exibição de virtuosismo puro e simples.

Em Unchained, encontramos talvez o momento mais experimental da carreira de Edu Falaschi. Aqui, o músico mergulha literalmente no desconhecido. O resultado surpreende positivamente e, depois de algumas audições, o ouvinte começa a captar as diferentes ideias, compreender os arranjos e apreciar a aventura musical proposta. A faixa flerta com Rock Progressivo e Fusion, além de apresentar um sensacional solo de saxofone. Os puristas provavelmente arrancarão os cabelos, mas o resultado fica muito acima da média.

Seguindo a proposta de explorar novos limites, Intuição conta com a participação de Rafael Bittencourt, antigo companheiro de Edu Falaschi no Angra, e apresenta a primeira faixa de sua carreira solo cantada integralmente em português. Musicalmente, a composição dialoga com aquilo que o próprio Angra desenvolveu com bastante propriedade no clássico Holy Land (1996). Embora seja a música que menos chama minha atenção em todo o repertório, ainda assim seria impossível classificá-la como ruim.

O retorno à força do Power Metal

Na reta final, o Power Metal retorna com força. Circle Of Dust apresenta um ótimo dueto entre Edu Falaschi e Roy Khan, ex-vocalista do Kamelot. A faixa possui melodias viciantes, um refrão grandioso e uma performance de destaque da cozinha formada pelo baixista Raphael Dafras e pelo baterista Jean Gardinalli.

On Your Own é mais uma das baladas características de Edu Falaschi. A impressão é que o sujeito poderia compor álbuns inteiros utilizando apenas esse formato. Impressiona sua habilidade para conceber refrãos marcantes e melodias pegajosas sem transformar a canção em algo previsível ou descartável.

O encerramento chega com Wrath Into The War e, pelo título, já podemos imaginar que estamos diante de mais uma faixa de Power Metal. Desta vez, os destaques ficam por conta dos ótimos riffs de guitarra e das linhas vocais. Edu Falaschi se arrisca em regiões mais agudas, diferencia-se positivamente do restante do álbum e, em alguns momentos, lembra o Edu do Velho Testamento.

Reprodução/Facebook

O legado de uma trilogia

Com três ótimos discos lançados entre 2021 e 2026, podemos afirmar que a trilogia de Edu Falaschi reúne todas as condições para ser tratada como clássica dentro de poucos anos. Ao contrário do que muitos imaginavam, os álbuns são formados por músicas memoráveis, carregadas de ambição, criatividade, assim como uma quantidade robusta de melodias cativantes.

Todos os fãs que se amontoam em shows nostálgicos para se emocionar com execuções de discos como Rebirth (2001) e Temple Of Shadows (2004) deveriam se debruçar com o mesmo afinco sobre esses três trabalhos. Enquanto as obras do Angra representam um passado cada vez mais distante, aqui estamos diante de álbuns excepcionais produzidos no presente. Em muitos momentos, eles apresentam as mesmas qualidades dos clássicos mencionados — e, por vezes, conseguem até superá-los.

O projeto mostrou-se ambicioso, mas foi conduzido com respeito ao público e planejado nos mínimos detalhes. Da parte gráfica ao conceito lírico, passando pelos materiais físicos, pela produção e pelas estruturas caprichadas dos shows, precisamos ser justos e apontar o óbvio: estes são os melhores trabalhos do Power Metal brasileiro desde o lançamento de Temple Of Shadows. Nada produzido nesse meio-tempo se compara.

Nota: 9

Integrantes

  • Diogo Mafra – guitarra
  • Victor Franco – guitarra
  • Fábio Laguna – teclado
  • Raphael Dafras – baixo
  • Edu Falaschi – vocal
  • Jean Gardinalli – bateria

Faixas

  1. Watchers Of The Light
  2. Here I Stand
  3. Mi’raj
  4. Echoes Of Vows
  5. Unchained
  6. Intuição
  7. Circle Of Dust
  8. On Your Own
  9. Wrath Into The War
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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