Deicide: “Não tento perseguir zumbis e não enterro vaginas de ninguém no quintal”, diz Glen Benton

O Deicide lançou seu último álbum “Banished By Sin” em 26 de abril de 2024, pela Reigning Phoenix Music (RPM). Segundo o vocalista/baixista Glen Benton, o disco foi um retorno ao estilo dos anos 90 — se referindo ao som e à parte criativa, embora tenha recebido crítica um tanto mais negativas que positivas.
Em uma entrevista ao Consequence.net, Glen Benton refletiu sobre tudo o que envolveu a criação do disco, inclusive, como o novo álbum foi uma “luz” em meio ao “lugar sombrio” em que ele se encontrava já há alguns anos. Ele explicou:
“Recentemente conheci algumas pessoas que fizeram muito sentido para mim em relação ao momento em que eu estava. Você envelhece. Os filhos seguem em frente, e a família já faleceu. E você se vê sozinho na vida. É isso que eu quero dizer com ‘um lugar sombrio’.
Algo me tirou disso. Sou muito grato por isso. E isso me fez perceber muitas coisas. Aprendi a ser um pouco mais egoísta comigo mesmo. Em vez de tentar correr atrás da felicidade de todo mundo, comecei a focar na minha. Passei a vida inteira tentando fazer todo mundo feliz pra caralho e meio que me deixei de lado. Agora voltei para a linha de frente. Os filhos já se foram. Eu me sinto como se tivesse 18 anos de novo. Estou como um canhão solto. Posso ser preso a qualquer momento.”
Ele acrescentou:
“Posso dizer que foi definitivamente o começo do próximo capítulo da minha vida.
A coisa toda da COVID… foi horrível. Mas tínhamos todo esse tempo, sem prazos; não tínhamos gravadora. Então, quando a COVID chegou, foi tipo: ‘Vamos fazer um disco só por diversão, e o que tiver que acontecer, acontece’. E eu o Steve [Asheim, baterista] pensamos: vamos compor um disco, depois vamos procurá-lo e fazer do jeito certo. Não assinar um contrato multi-gravação com uma gravadora de merda e deixar que eles guardem todos os nossos discos.
Quando você tem o disco pronto e um produto, é muito mais fácil conseguir o que quer. Conseguimos um contrato com a RPM para um único disco, uma fortuna, dinheiro para um vídeo. Foi ótimo, cara, pela primeira vez. E esses caras estão realmente pressionando a banda como deveríamos ter sido pressionados naquela época.”
Questionado se a banda já tinha algum relacionamento com a RPM e como a gravadora reagiu ao novo álbum, ele respondeu:
“Gerardo Martinez trabalhava para a Nuclear Blast e fundou o novo selo [RPM]. A gente levava samples para eles. Tipo, quando tínhamos todas as faixas brutas gravadas, a gente levava para eles e deixava eles ouvirem, e eles ficavam tipo: ‘Uau’. Quando comecei a gravar os vocais, todo mundo curtiu.
Foi incrível, cara, gravar do jeito que fizemos. É como um disco ao vivo para nós… tem um toque de som ao vivo. Sem compressão pesada. Optamos por sons de bateria mais ao vivo, sons de microfone em vez de… Eu simplesmente cansei dessa coisa toda de samples.
Todo mundo quer usar a amostragem, os amplificadores de modelagem e toda essa porcaria. Usamos amplificadores de verdade com microfones e gabinetes, e gravamos um disco, como os discos costumavam ser gravados. Usamos o ProTools onde era necessário, mas, na maioria das vezes, não queremos isso. Não quero aquele som de bateria de elevador.”
O entrevistador observou que a mixagem a masterização por compressão do novo álbum trouxe pontos muito positivos e, uma sensação revigorante de ouvir disco de metal moderno mas que realmente soa como o que eles gravaram, ao contrário de muitos discos que acabam sendo homogeneizados no processo. Benton comentou:
“Individualismo, cara. Ninguém quer mais ser um indivíduo e se destacar porque tem medo do que todo mundo vai dizer sobre ele nas redes sociais. Então, todo mundo tem medo de bancar o idiota. Eu não dou a mínima. Tirem sarro de mim o quanto quiserem. Eu vou continuar sendo idiota, sabe?
Todo mundo está tão preocupado com o que o próximo vai dizer ou pensar que as pessoas perderam esse individualismo. Todos os grandes vocalistas tinham essas personas e personalidades — elas se foram… Todo mundo quer se misturar.
Eu simplesmente não quero. Quero ser aquela unha do pé toda amarelada e estragada.”
O Deicide não mudou o seu foco lírico ao longo dos anos e continua carregando a tocha do Death Metal feito para agradar Satanás e sua legião, e Benton costuma receber muitas críticas por nunca mudar o foco. Ele comentou sobre isso:
“Eu simplesmente faço o que me vem à mente. Não tento perseguir zumbis e não enterro vaginas de ninguém no quintal. Eu simplesmente mantenho a realidade, vinda da minha alma. É onde eu a mantenho. Não estou tentando entrar de graça na Comic Con [risos].”
Indagado sobre as situações adversas pelos quais a banda já passou, Benton diz que houve momentos em que teve que tomar atitudes extremas; no entanto, ele admite que não se orgulha disso:
“Muita coisa disso é verdade. Não vou me defender. Às vezes eu me pergunto como consegui me safar de metade das merdas das quais me safei.
Era uma época diferente. Eu não fiz nada que constituísse prisão nem nada assim, mas as coisas eram loucas nos anos 90 fazendo isso. Minha reputação, sendo empresário da banda, era de não tolerar que me passassem a perna. Eu não aceitava. Viajei todo esse caminho para tocar para os fãs, porra, e aí eu tinha que aguentar a sua merda estúpida tentando pedir desconto quando você já tinha enchido os bolsos: você me ferrava na porcentagem do merch, me ferrava no catering e depois ainda não queria me pagar o valor combinado.
Eu ia te enforcar, ou te levar de caixa eletrônico em caixa eletrônico até te limpar. Mas você ia pagar. E acho que houve momentos em que precisei pôr as mãos em algumas pessoas, e não me orgulho disso. Mas quer saber? Quando você tenta passar a perna nas minhas bandas de abertura — e esses caras já estão trabalhando por praticamente porra nenhuma, praticamente de graça — aí sim, cara, você deixou putos os que mandam.”