De fã à hater, de hater a fã. Como o Metallica afetou a minha vida

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Após quase dez anos fazendo este trabalho para vocês, estive pensando em como as pessoas mudam no decorrer do tempo. Eu, por exemplo, era uma pessoa em 2013, quando o Mundo Metal iniciou e, olhando para trás, vejo como eu mudei a minha visão sobre uma infinidade de temas relacionados a música. Mais do que isso, eu mudei como pessoa. Reavaliei condutas, crenças, opiniões, dogmas, pontos de vista e questões comportamentais. Se o meu “eu” de hoje conversasse com o “eu” de 2013, certamente, não nos entenderíamos. E quer saber, isso é muito bom. Olhando para aqueles dias e me lembrando de como era minha vida, preciso ser honesto e dizer que hoje estou muito mais próximo do que considero ideal do que algum dia já estive. Isso me faz crer que as coisas estão indo bem.

Realmente, nós mudamos e evoluímos. Com a maturidade, passamos a não ligar tanto para algumas coisas que antigamente eram tão importantes e nos tiravam do sério. Também percebemos que na maioria das ocasiões não existem verdades absolutas. Aprendemos que alguns, independente da idade ou vivência, ainda vão demorar um pouco mais para entender o que estou querendo dizer. E as coisas são assim mesmo. A caminhada de cada pessoa será de acordo com a estrada que ela escolheu trilhar.

Vocês devem estar me perguntando: “mas por que essas divagações sobre a vida? Aonde você quer chegar com isso?”

Hoje quero falar sobre o Metallica de uma forma que eu nunca fiz antes. E para isso vocês precisam entender todo o turbilhão de emoções que a banda já me fez passar no decorrer dos anos.

Comecei a ouvir a banda na época da explosão do Black Album na mídia e, naqueles tempos, eu era apenas um jovem padawan que não sabia o que significava o termo Thrash Metal, apenas ouvia determinado disco ou determinada banda e avaliava se gostava ou não. Pronto, ouvi o tal “disco preto”, gostei e passei a querer conhecer mais a fundo aquela banda que, no momento, conquistava o mundo. Entendam, para uma criança de dez, onze anos no início dos anos 90, um álbum do Metallica ou do Iron Maiden significava “mudança de vida para sempre”. E foi exatamente isso que aconteceu comigo, primeiro com o Maiden, depois com o Metallica. As duas foram extremamente importantes na minha adentrada ao vasto universo do Heavy Metal.

Como todo moleque curioso dos anos 90, sem internet e sem ter condições financeiras para comprar todos os discos, fui dando meu jeitinho e, aos poucos, fui ouvindo os álbuns anteriores. Alguns pegava emprestado e gravava em fitas cassete, outros adquiri e, em meados de 93 ou 94, não me lembro muito bem, já conhecia toda a discografia à fundo. Sabia cantar quase todas as músicas, lia todas as matérias que saiam aqui e ali sobre a banda e, é claro, estava mega ansioso para o próximo disco de estúdio. Segundo a própria banda dizia em entrevistas que a MTV passava, seria “o álbum que revolucionaria o Metal”. Uau! O que esses caras irão nos apresentar? Quão maravilhosa será esta obra? Esse era o meu pensamento inocente da época. Bem, vocês já devem imaginar que em 1996, quando “Load” foi lançado, ocorreu a minha primeira grande decepção com o Metal e os responsáveis por isso foram justamente Lars, James, Jason e Kirk.

Me lembro de ter comprado “Load” em fita cassete porque na ocasião eu não tinha o dinheiro suficiente para comprar o CD. Ouvi aquela fita à exaustão, ouvia e ouvia e ouvia, seguidas vezes, na esperança de que, com mais audições, eu entenderia melhor as músicas e passaria a amar como amava os discos anteriores. Não era possível que uma banda tão boa como o Metallica tinha pisado na bola daquele jeito.

Mas aí começaram as entrevistas da banda com aquele monte de declarações esquecíveis. “O Heavy Metal morreu e nós somos a evolução do estilo.”, diziam eles. “Nunca nos consideramos Thrash, não sei nem se somos Metal.” O que há de errado com esses caras? Eu não podia acreditar que eles estavam dizendo aquilo. E na sequência, vieram à tona aquelas sessões de fotos “vergonha alheia” em que pareciam uma boy band de quinta categoria…

Não, não dava para crer que aquilo estava realmente acontecendo, não dava pra acreditar que eles estavam falando aquelas coisas e tendo aquele tipo de atitude. Justo eles? Como assim “o Metal morreu”? Eu tinha acabado de ouvir os discos novos do King Diamond, ouvi o poderoso “Dehumanizer” do Black Sabbath, Ozzy havia lançado “No More Tears”, Megadeth vinha de uma sequência incrível de bons álbuns… E o que dizer do Pantera explodindo na mídia mainstream? Do Sepultura conquistando o mundo? Não, o Metal não estava morrendo coisa nenhuma!

Foi nesse momento que eu entendi que tudo era uma jogada de marketing. E claro, naquele momento, eu já era um adolescente rebelde com meus 15, 16 anos e, vocês sabem, nesta fase da vida nós tendemos a tomar decisões radicais e achar que somos os portadores da verdade suprema. Eu não era diferente de nenhum adolescente espinhento que fala e faz muita besteira. Quando eu assisti ao videoclipe de “I Desappear” e me deparei com James Hetfield, o outrora cara mal que gritava “Whiplash!” impiedosamente e cantava coisas como “Die, by my hands, I creep across the land, killing first born man”, aparecendo de topetinho descolorido, óculos escuros, fazendo caras e bocas e tocando o tema de “Missão Impossível”, decidi que o Metallica estava ELIMINADO da minha vida de uma vez por todas.

E assim foi. Durante bons anos eu não queria nem ouvir falar da banda. Ignorei completamente o lançamento de “Garage Inc.” e dei uma verificada rápida e desesperançosa quando “St Anger” veio à tona. Nesta época eu já era um hater assumido e, me limitei a fazer piadas sobre o disco, estava convencido que aquela banda maravilhosa de outrora jamais existiria novamente. Os caras eram “meros impostores”, haviam “se vendido” e, caso quisessem gravar uma obra no patamar de “Master Of Puppets” ou “Ride The Lightining” novamente, teriam que nascer de novo.

Acontece que a gente vai mudando com o passar dos anos, a gente vai amadurecendo dia após dia e vai entendendo melhor as coisas. Quando “Death Magnetic” foi lançado, eu realmente fiquei muito surpreso com o resultado. Cheguei a me empolgar de novo. Mas o meu nível de maturidade ainda não era o suficiente para entender o que estava acontecendo e, apenas por não querer dar o braço a torcer, eu resolvi que o disco “não era tão bom assim”. Haviam zilhões de bandas gravando coisas muito melhores e eu não iria ficar dando atenção para aquela banda que me fez pegar tanto ranço na adolescência. “O Metallica já era e eu não vou ficar ouvindo isso”. Foi o que eu decidi em 2008, já não muito convicto da decisão.

Segui acompanhando a cena Metal mundial maravilhado com a qualidade das bandas novas e, poucos anos depois, veio o Mundo Metal. À partir do momento que criei o grupo e a página no Facebook e resolvi começar a escrever buscando algo em uma linha “mais profissional”, comecei aos poucos aprender a analisar álbuns de uma forma mais técnica e desprovida de paixões. A minha visão sobre as bandas, os discos e a cena passou a mudar gradativamente e, quando o Metallica lançou “Hardwired… To Self Destruct”, em 2016, eu já era uma pessoa diferente de anos atrás. Quando me sentei para ouvir o registro e me ater aos detalhes, percebi que não conseguiria mais fazer uma resenha de hater. Eu precisava ser honesto com o que eu estava ouvindo e precisava ser honesto com as pessoas que liam os meus textos. A minha análise do álbum saiu desse jeito:

Bem, nesse momento, eu percebi que não existia mais ódio com a banda, eu apenas não entendia alguns porquês sobre algumas decisões que foram tomadas no passado. Eu não estava os absolvendo dos discos que eu abominei por tantos anos, mas tentando entender o que havia acontecido naqueles dias. E passei a buscar respostas, reassisti ao documentário “Some Kind Of Monster”, que tinha me causado náuseas na primeira vez em que vi. Reassisti ao documentário sobre as gravações do “Black Album”, reassisti ao documentário “Cliff ‘Em All” e, à partir daí, comecei a entender algo que eu jamais havia entendido.

Através do Metallica, consegui aprender uma das maiores lições da minha vida.

Eu finalmente entendi que por trás daquela estrutura gigante existem pessoas, pessoas comuns como nós, e as pessoas fazem coisas boas e ruins, erram e acertam, evoluem, mudam as suas formas de pensar e de agir, as pessoas tem os seus dramas pessoais e os seus problemas internos. São apenas seres humanos em uma jornada de altos e baixos. E todo esse turbilhão de coisas que acontecem com absolutamente todos nós, refletem nas nossas ações, nas nossas atitudes, no nosso trabalho, na forma como lidamos com os problemas. Isso é absolutamente natural. Eu tenho os meus dramas, as minhas falhas, fiz as minhas besteiras no decorrer da vida e busquei evoluir. E assim é com quase todo mundo. Á partir deste momento, ao invés de julgamentos prévios e críticas injustas, eu passei a me IDENTIFICAR com o lado pessoal dos músicos do Metallica.

Como todos sabem, James Hetfield tem problemas com álcool e, recentemente, esteve internado em reabilitação. Será que algum de nós, que criticamos o cara durante tantos anos, sabe o que é conviver com este tipo de problema? Será que as decisões tomadas lá atrás seriam as mesmas caso a banda tivesse a bagagem, a experiência e a maturidade que tem hoje? Será que agiríamos diferente se tivéssemos a oportunidade de estar à frente de uma banda tão grande como o Metallica? Eu assisti ao trecho do show em Curitiba, no momento em que James desabafa, chora e é abraçado pelos seus amigos de banda e, me desculpem, foi extremamente comovente aquele momento. Vi muita verdade ali e, sem dúvida, me deparei com o homem, não o rockstar, mas o homem, com todos os seus dramas, inseguranças e problemas. Tentando seguir em frente da melhor forma possível… Essa é a IDENTIFICAÇÃO que eu mencionei.

Tenho observado que há um bom tempo, Metallica deixou de ser uma banda que se preocupa com a opinião pública. Eles não precisam mais fazer isso e não fazem. As entrevistas deixaram de trazer as polêmicas e fofocas que a mídia especializada tanto ama, para trazer depoimentos sóbrios e assertivos. As ações da banda vem demonstrando uma maturidade incrível. O reconhecimento de James e Lars no episódio do falecimento de Jon Zazula, dono da Megaforce Records, a simples atitude de ajudar um músico de rua que havia sido roubado e perdeu seus instrumentos, o reconhecimento de Kirk com o Exodus no documentário “Murder In The Front Row”, a não entrada da banda nessa polarização política que apenas nos divide, a busca de James por sua redenção como pessoa, a preocupação em lançar os materiais mais lindos e caprichados, os encontros com os fãs para entregar instrumentos autografados…

O Metallica é uma banda de proporções inimagináveis. São mais do que gigantes, são verdadeiros titãs. E é muito importante frizar que eles utilizam a sua mega estrutura para dar aos fãs um universo quase infindável de conteúdo exclusivo. Neste sentido, nenhuma outra banda faz o trabalho que o Metallica faz. Me lembro que no lançamento de “Hardwired”, se preocuparam em lançar um videoclipe para cada canção do álbum, achei fantástico, e aí começaram a filmar praticamente todos os shows e os fãs podem acompanhar em tempo real todos os passos do quarteto. Vejo o Metallica hoje como uma banda que se esforça para oferecer a melhor experiência possível para seus fãs. Eu simplesmente não consigo imaginar uma cena Metal pulsante sem a presença do Metallica.

Vejo por aí diversos comentários criticando a musicalidade, criticando a histeria dos fãs, criticando as mídias especializadas por darem tantos holofotes, enfim, criticando e criticando e criticando e criticando…

Nada disso importa. Só é criticado ao extremo quem é extremamente importante e relevante. Ponto final.

Enquanto alguns headbangers mais radicais continuam sendo o meu “eu de 20 anos atrás”, o Metallica segue sendo a maior e mais importante porta de entrada para toda uma nova geração de apreciadores do Heavy Metal. O trabalho que o Metallica e o Iron Maiden prestam ao Metal é impagável. Tenho dito que todos que diminuem a importância destas duas bandas hoje em dia, num futuro muito próximo, irão sentir saudades destes tempos.

E sendo muito justo comigo e mais ainda com a banda, não poderia terminar este texto de outra forma. Eu agradeço de coração pela existência de uma banda como o Metallica. Ao longo dos anos, eles erraram e acertaram, mas mesmo nos seus erros, me ajudaram a evoluir como pessoa. Me ensinaram lições importantes que agregaram valores que eu ponho em prática na minha vida. Sem a menor dúvida, esta foi a maior relação de amor e ódio que tive com uma banda, mas hoje, posso dizer convicto que sou um hater convertido. Não os odeio mais, na verdade, acho que jamais odiei de verdade. Quando ficamos muito desapontados com algo que nos importa, acaba não sendo ódio. Reconheço e valorizo todas estas décadas de serviços prestados ao Heavy Metal e espero que ainda venha muito mais.

Tenho certeza absoluta que Cliff está muito orgulhoso dos seus amigos onde quer que ele esteja.

Redigido por: Fabio Reis

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