M.O.A.: O maior fracasso do Heavy Metal brasileiro

Realizado em abril de 2012, em São Luís, festival prometeu reunir algumas das maiores bandas de Heavy Metal do mundo, mas terminou marcado por atrasos, cancelamentos, falta de estrutura e milhares de fãs prejudicados

Durante décadas, assistir a uma grande banda internacional no Brasil foi um privilégio raro. Quem começou a frequentar shows de Heavy Metal durante os anos 1980 e 1990 sabe exatamente o que isso significava: turnês que ignoravam a América do Sul, longos intervalos entre as apresentações e anúncios recebidos como verdadeiros acontecimentos históricos.

Do outro lado do oceano, festivais como o Wacken Open Air, na Alemanha, pareciam pertencer a uma realidade completamente diferente. Grandes estruturas, dezenas de milhares de fãs e alguns dos nomes mais importantes do Metal reunidos durante vários dias faziam daquela experiência um sonho distante para a maioria dos brasileiros.

Viajar para a Europa ainda era uma possibilidade para poucos. O câmbio desfavorável, as passagens aéreas e os demais custos transformavam esse tipo de aventura em algo praticamente inalcançável. Foi justamente nesse cenário que surgiu a promessa de reproduzir, em território brasileiro, algo semelhante aos gigantescos festivais europeus.

O sonho de um “Wacken brasileiro”

No final de 2011, começaram a circular informações de que São Luís, no Maranhão, receberia uma edição brasileira do Wacken Open Air. As negociações para a utilização da marca alemã, entretanto, não avançaram. Sem autorização oficial, o evento passou a se chamar Metal Open Air.

A organização do festival alemão chegou a divulgar um comunicado esclarecendo que não possuía vínculo com o projeto brasileiro e que sua marca não poderia ser utilizada. Mesmo diante do alerta, a expectativa dos fãs continuou crescendo. O festival estava marcado para acontecer entre os dias 20 e 22 de abril de 2012, no Parque Independência, em São Luís.

A empolgação tinha uma justificativa evidente. O Metal Open Air prometia um line-up que poderia rivalizar com qualquer grande festival europeu.

Entre as atrações anunciadas estavam Megadeth, Anthrax, Blind Guardian, Symphony X, Exodus, Destruction, U.D.O., Grave Digger, Anvil, Exciter, Orphaned Land, Korzus, Shaman, Ratos de Porão, Stress, Hangar, Rock and Roll All Stars e dezenas de outros nomes nacionais e internacionais.

Outras bandas chegaram a ser relacionadas ao evento durante diferentes etapas de sua divulgação, enquanto alguns cancelamentos começaram a acontecer antes mesmo da abertura dos portões. Ainda assim, para os fãs de Thrash Metal, Power Metal, Death Metal e Heavy Metal tradicional, a programação permanecia impressionante.

Parecia bom demais para ser verdade.

Infelizmente, era.

Foto: Alex Trinta/G1

A chegada ao Parque Independência

Eu também embarquei naquele sonho. Saí de Belo Horizonte rumo a São Luís depois de organizar, com meses de antecedência, passagens aéreas, hospedagem, camping, alimentação, ingresso e dias de férias.

A expectativa era testemunhar um dos momentos mais importantes da história do Heavy Metal brasileiro. No entanto, bastaram poucos minutos dentro do Parque Independência para perceber que alguma coisa estava completamente errada.

A primeira banda deveria subir ao palco por volta das 10 horas da manhã. Cheguei ao local próximo desse horário e encontrei um enorme campo praticamente vazio. Os palcos não estavam preparados, as lojas ainda não funcionavam e boa parte da estrutura anunciada simplesmente não existia.

O camping, vendido como parte da experiência do festival, havia sido improvisado em antigos estábulos do parque. Faltavam condições adequadas de higiene, alimentação, energia elétrica e segurança. Reportagens produzidas durante o evento mostraram fãs acomodados em áreas originalmente destinadas a cavalos.

A sensação era de que havíamos chegado dias antes do início da montagem. Entretanto, aquele já era o primeiro dia do festival.

Foto: Igor Almeida/G1

Cinco horas de atraso e nenhuma explicação

As horas passaram sem que o público recebesse informações claras. É importante lembrar que tudo isso aconteceu em 2012, quando a circulação de notícias pelas redes sociais ainda não possuía a velocidade e o alcance atuais.

Sem respostas, as pessoas conversavam entre si, criavam teorias e torciam para que os shows finalmente começassem.

A primeira apresentação aconteceu apenas durante a tarde, aproximadamente cinco horas depois do horário inicialmente previsto. Apesar da desorganização, algumas bandas conseguiram salvar parcialmente o primeiro dia.

Exciter, Orphaned Land, Anvil, Destruction, Exodus, Symphony X e, finalmente, Megadeth subiram ao palco diante de um público que havia atravessado o país para participar daquele momento.

Relatos publicados posteriormente indicaram que parte dos equipamentos utilizados durante as apresentações foi disponibilizada pela própria equipe do Megadeth. Em outras palavras, uma das principais atrações internacionais precisou colaborar para minimizar problemas que deveriam ter sido solucionados previamente pela organização.

Após o evento, Dave Mustaine agradeceu aos fãs brasileiros e reconheceu o esforço realizado pelo público para estar presente. O músico explicou que o Megadeth decidiu tocar por respeito às pessoas que haviam viajado até São Luís, mesmo diante dos problemas encontrados no festival.

Foi um gesto simples, mas extremamente significativo. Muitos fãs cruzaram o Brasil inteiro. Outros vieram de países vizinhos. Todos estavam ali movidos pela mesma paixão.

Foto: Honório Moreira/UOL

O segundo dia revelou a dimensão do desastre

No sábado, tornou-se impossível esconder a realidade. Os horários divulgados já não faziam sentido e os cancelamentos se acumulavam. Embora a programação previsse apresentações desde o final da manhã, os shows começaram apenas no início da noite.

Ao mesmo tempo, surgiam informações de que bandas, fornecedores e prestadores de serviço não haviam recebido os valores previstos em contrato. O efeito dominó foi inevitável.

Blind Guardian cancelou sua participação. Anthrax também não tocou. O projeto Rock and Roll All Stars anunciou que não se apresentaria devido a problemas relacionados ao cumprimento dos acordos estabelecidos com a produção.

Bandas nacionais como Hangar e Shadowside também comunicaram cancelamentos relacionados à falta de pagamento. Outros grupos nem sequer receberam passagens aéreas ou confirmações adequadas de hospedagem. Ao todo, aproximadamente 30 das 47 atrações anunciadas deixaram de se apresentar.

A situação envolvia não apenas os artistas. Fornecedores de som, iluminação, palco e estrutura também enfrentavam problemas financeiros e logísticos. As duas produtoras envolvidas na realização do evento, Negri Concerts e Lamparina Filmes e Produções, trocariam acusações públicas após o fracasso do festival.

Naquele momento, qualquer esperança de recuperação havia desaparecido.

Foto: Cauê Muraro/G1

O cancelamento definitivo

No domingo, 22 de abril, veio apenas a confirmação oficial. Sem condições de continuar e com grande parte da estrutura já sendo desmontada, o Metal Open Air foi definitivamente cancelado. As apresentações restantes não aconteceriam.

Nós desmontamos nossas barracas e seguimos para o aeroporto de São Luís na tentativa de antecipar os voos. Passei horas no local e cheguei a conceder uma entrevista para a televisão local, demonstrando toda a indignação de quem havia investido tempo e dinheiro para participar daquele evento.

Na época, eu já trabalhava como perito criminal em Belo Horizonte e me lembro perfeitamente da revolta que tomou conta dos fãs reunidos naquele aeroporto.

O prejuízo financeiro era considerável. Além do ingresso, muitas pessoas haviam comprado passagens, reservado hotéis, alugado veículos, organizado férias e atravessado milhares de quilômetros.

Entretanto, havia algo ainda pior: a sensação de ter sido enganado.

O maior erro não foi sonhar grande

Anos depois, continuei pensando sobre o que havia acontecido. Na minha visão, o maior erro dos responsáveis pelo Metal Open Air não foi sonhar grande. O problema foi acreditar que um projeto daquela dimensão poderia nascer gigantesco sem possuir uma base sólida.

Organizar um festival internacional exige planejamento, logística, capital, experiência, credibilidade e respeito absoluto pelos artistas, fornecedores e público. Nenhum desses elementos pode ser improvisado.

Quando alguém compra um ingresso, não está adquirindo apenas o direito de entrar em um evento. Muitas vezes, essa pessoa também compra passagens, reserva hospedagem, pede férias e reorganiza toda a própria vida.

Quando um festival fracassa dessa maneira, o prejuízo ultrapassa qualquer valor financeiro. O que realmente desaparece é a confiança — e confiança pode levar anos, ou até décadas, para ser reconstruída.

A tentativa frustrada de 2023

Onze anos depois, o Maranhão voltaria a receber o anúncio de um grande festival de Metal. O Maranhão Open Air 2023 pretendia reunir atrações nacionais e internacionais, mas acabou sendo cancelado antes de sua realização.

Embora se tratasse de um projeto com outro nome, a presença do mesmo organizador trouxe a comparação inevitável com o desastre de 2012. A memória do público falou mais alto e o novo cancelamento trouxe de volta as lembranças de um dos episódios mais traumáticos da história dos festivais brasileiros.

Talvez essa seja a principal lição deixada por toda essa história: no Heavy Metal, assim como em qualquer outra área, reputação vale mais do que qualquer campanha publicitária.

Promessas impressionam. São as entregas que permanecem.

Hoje consigo olhar para aquele final de semana com algum humor e até com certa nostalgia. O desastre se transformou em uma história curiosa para contar, especialmente depois de ter conhecido festivais como Hellfest, Graspop Metal Meeting e o verdadeiro Wacken Open Air.

Em abril de 2012, porém, não havia nada de engraçado.

Para milhares de fãs espalhados pelo Brasil, o Metal Open Air representou a destruição de um sonho que parecia impossível: viver, dentro do próprio país, a experiência de um grande festival internacional de Heavy Metal.

O que deveria ter sido uma celebração histórica terminou como um dos capítulos mais tristes da música pesada brasileira.

E eu estava lá para testemunhar tudo.

Foto: Honório Moreira/UOL

Assista ao vídeo no canal Além do Metal Clássico!

Deixe seu comentário