Blaze Bayley opina sobre quem é a verdadeira lenda entre os vocalistas do Iron Maiden

Poucas bandas de Heavy Metal possuem fases tão claramente definidas quanto o Iron Maiden. Embora as mudanças de formação tenham ocorrido em diferentes momentos de sua trajetória, os vocalistas ajudam a separar alguns dos capítulos mais importantes dessa história. Paul Di’Anno representa o começo, a época mais crua e imprevisível do grupo; Bruce Dickinson costuma aparecer como o cantor mais importante, principalmente por ter participado dos discos que transformaram a banda em um fenômeno mundial; enquanto Blaze Bayley, até hoje, ocupa uma posição peculiar, considerado por muitos um vocalista injustiçado e, por outros, o rosto da fase mais controversa da Donzela de Ferro.

Provavelmente, se colocarmos fãs do Iron Maiden em uma discussão sobre quem merece o título de vocalista mais lendário do grupo, a esmagadora maioria apontará Bruce Dickinson. Afinal, foi com ele que surgiram clássicos como The Number Of The Beast, Piece Of Mind, Powerslave e Seventh Son Of A Seventh Son. Porém, Blaze Bayley enxerga essa questão de maneira completamente diferente. E, mesmo que muita gente discorde de sua escolha, o argumento apresentado pelo músico possui uma lógica difícil de ignorar.

Para Blaze Bayley, a lenda começou antes de Bruce Dickinson

Em uma nova entrevista concedida ao Metal OBS, Blaze Bayley falou longamente sobre Paul Di’Anno, morto em outubro de 2024, aos 66 anos. Os dois ex-vocalistas do Iron Maiden não mantinham apenas uma relação profissional. Ao longo dos anos, dividiram diversas excursões e apresentações ao redor do mundo, passando por países como Rússia, Suécia, Austrália e Nova Zelândia.

Ao recordar a convivência com o antigo companheiro de estrada, Blaze destacou uma característica de Di’Anno que, segundo ele, nem todos conheciam:

“Éramos colegas. Paul era um cara muito engraçado. Acho que as pessoas não sabem disso sobre ele. Ele tinha um ótimo senso de humor. E nós [fizemos turnês juntos] por toda a Rússia — de São Petersburgo e Moscou até Vladivostok —, e também tocamos juntos na Suécia. Fizemos toda a Escandinávia, além da Austrália e da Nova Zelândia. E quando tínhamos uma boa banda e ele havia descansado bem, você podia fechar os olhos e era como [ouvir] o primeiro álbum do Iron Maiden, só que melhor. Era como aqueles dois primeiros álbuns, mas melhor. Às vezes ele tinha dificuldades para descansar a voz, mas em outras ocasiões conseguia ficar alguns dias sem cantar, descansava bem e simplesmente… ele soava incrível.”

“Você nunca sabe quando será a última vez”

A lembrança ganhou um tom muito mais pessoal quando Bayley contou sobre seu último encontro com Paul Di’Anno. Os dois se viram rapidamente em Wolverhampton, e Blaze saiu daquele encontro acreditando que haveria outra oportunidade para conversarem com mais calma. Ela nunca aconteceu.

“A tristeza é que, na vida, você nunca sabe quando será a última vez que verá alguém. Eu encontrei Paul em Wolverhampton, disse oi, foi um cumprimento rápido, e pensei: ‘Bem, da próxima vez que eu encontrá-lo, teremos mais tempo para conversar.’ E foi isso. Duas semanas depois, ele faleceu. Então, fica uma lição para a vida: quando você encontra as pessoas, precisa pensar consigo mesmo: ‘Eu não quero que esta seja a última vez. Se esta for a última vez que eu as vejo, como quero me despedir?’ Porque pode ser. E essa é a parte triste.”

Além da amizade construída na estrada, Blaze sempre demonstrou enorme respeito pelo legado musical de Di’Anno. O vocalista original esteve à frente do Iron Maiden entre 1978 e 1981 e gravou os dois primeiros discos da banda: Iron Maiden, lançado em 1980, e Killers, de 1981. São justamente esses trabalhos que sustentam a opinião de Bayley sobre quem merece ser chamado de verdadeira lenda da Donzela de Ferro.

“A lenda do Iron Maiden pertence a Paul”

Ao abordar diretamente o lugar ocupado por cada vocalista na história do grupo, Bayley fez uma distinção interessante. Para ele, os cantores que vieram posteriormente ajudaram a carregar a chama do Iron Maiden, mas Paul Di’Anno possui uma condição única por ter participado do nascimento daquela identidade.

“Existem diferentes eras do Maiden, é claro, mas somente Paul, de verdade, na minha cabeça, somente Paul é a lenda. Depois dele, nós carregamos o nome, carregamos a chama do Iron Maiden. Talvez eu me torne uma lenda, [o atual vocalista do Iron Maiden] Bruce Dickinson talvez se torne uma lenda, mas a lenda do Iron Maiden pertence a Paul naqueles dois primeiros álbuns. Porque eles quebraram o molde, não apenas do Heavy Metal, mas da música. Aqueles discos são muito diferentes e fazem tantas coisas distintas. Eles quebram as regras e dizem: ‘É assim que nós fazemos.’ E isso é algo que… Ele é uma lenda. Ele era uma lenda. Agora, ele é uma lenda eterna. Portanto, isso é algo que nunca poderá ser mudado, na minha opinião. É apenas a minha opinião. Outras pessoas dirão coisas diferentes, mas, para mim, quando você escuta algumas das músicas dos dois primeiros álbuns… cara, aquilo é muito diferente de tudo o que estava acontecendo naquela época.”

E é justamente aí que a declaração de Blaze Bayley se torna mais interessante do que uma simples escolha entre Di’Anno e Dickinson. Ele não argumenta que Paul foi tecnicamente superior a Bruce, tampouco tenta negar tudo o que aconteceu posteriormente. Sua defesa está ligada ao pioneirismo. Para Bayley, existe uma diferença entre alguém que se tornou gigantesco dentro de uma banda já existente e aquele que ajudou a construir sua identidade quando ainda não existiam regras estabelecidas.

Os primeiros discos realmente mostram um Iron Maiden bastante diferente daquele que dominaria arenas alguns anos depois. A agressividade quase punk de Di’Anno, os arranjos pouco convencionais, as mudanças bruscas de andamento e a mistura entre Heavy Metal, energia de rua e a efervescência da NWOBHM formaram uma combinação que ainda procurava seus próprios limites. Para Blaze, é justamente essa falta de preocupação em seguir uma fórmula que torna aqueles registros especiais.

Três vocalistas, três capítulos completamente diferentes

Curiosamente, Blaze Bayley nunca precisou diminuir Bruce Dickinson para exaltar Paul Di’Anno. Em entrevistas anteriores, o próprio cantor já definiu Dickinson como um dos vocalistas mais importantes não apenas do Metal, mas da música, destacando a enorme influência que sua voz exerceu sobre diferentes gerações de artistas.

A trajetória de Bayley também ocupa um lugar muito particular nessa história. Ele assumiu o posto de vocalista do Iron Maiden em 1994 e permaneceu até 1999, participando de The X Factor e Virtual XI, dois trabalhos que dividiram profundamente os fãs e surgiram durante um dos períodos mais difíceis comercialmente para a banda.

Por isso, talvez a declaração funcione melhor quando entendemos exatamente o significado que Blaze atribui à palavra “lenda”. Bruce Dickinson pode ser o vocalista mais famoso, bem-sucedido e identificado mundialmente com o Iron Maiden. Blaze Bayley escreveu seu próprio capítulo em uma fase de enormes mudanças. Mas, na visão de alguém que ocupou aquele mesmo microfone e posteriormente dividiu muitos palcos com Di’Anno, a figura que representa a origem de tudo continua sendo Paul.

E há algo difícil de contestar nesse raciocínio: antes de existir a gigantesca máquina chamada Iron Maiden, com aviões personalizados, turnês monumentais e milhões de fãs espalhados pelo planeta, existiu aquela banda jovem e indomável dos dois primeiros discos. E a voz que estava na linha de frente era a de Paul Di’Anno.

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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