As letras das músicas são mais importantes que a sonoridade das bandas?

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Esta pode parecer uma pergunta que possui uma resposta óbvia, mas em tempos onde a segregação impera no meio Metal, até mesmo raciocínios básicos se tornam temas de grandes debates acalorados.

Primeiramente, deixo claro que o intuito deste artigo é estimular o leitor a raciocinar logicamente sobre o assunto e criar seu próprio conceito, acredito que repetir chavões e discursos prontos não seja a melhor formula de se chegar a um veredito final. Também devo mencionar que admiro letras bem escritas sobre assuntos diversos e gosto bastante quando uma banda e/ou artista tem todo um cuidado com a composição lírica de seus discos e músicas.

Qual é o problema nesta discussão?

Basicamente, questões ideológicas e grupos militantes que tentam impor uma verdade absoluta dentro de um tema que é, notoriamente, subjetivo.

Vamos fazer um exercício rápido para estabelecer algumas ponderações importantes. Você se lembra quando começou a ouvir Rock ou Heavy Metal? Pense no que te chamou a atenção no estilo: as guitarras distorcidas, riffs insanos, solos matadores, vocalistas de excelência técnica, baterias aceleradas, ritmos alucinantes, variedade de vertentes dentro de um mesmo estilo musical, capas de discos chocantes e chamativas? Ou uma letra de música cantada aos berros em outro idioma que você não conhece, mas leu em algum lugar e, só depois disso, passou a se interessar pela sonoridade da banda?

Posso afirmar sem qualquer medo de errar que a estrondosa maioria dos amantes da música pesada irá se identificar com o primeiro caso.

Mas por que então essa estúpida imposição de regras sobre, obrigatoriamente, ter que conhecer o conteúdo lírico de determinadas bandas para “conquistar o direito” e ser “digno” de ouvir determinadas bandas e estilos?

O que acontece é que, hoje em dia, as pessoas possuem extrema dificuldade em conhecer significados objetivos de determinadas palavras. Vide o uso indevido de termos como “fascismo”, “racismo”, “nazismo”, “homofobia”, “conservadorismo” e etc, onde basta que você discorde de determinada narrativa para automaticamente ser taxado de um destes “adjetivos”. Aqui nesta página, por diversas vezes eu repeti que o Heavy Metal (como gênero musical que é) é livre, transgressor, apartidário e não religioso. Isso é algo bastante óbvio, já que é um gênero musical e não um movimento político repleto de teor ideológico, portanto, sendo uma simples forma de entretenimento, não faria o menor sentido ser calcado em regras, dogmas e condições para que se possa fazer parte. Isso é bobagem. Você ouviu, gostou, se sentiu atraído? Ouça e seja feliz.

E é neste ponto que muitos se descabelarão e começarão a babar de raiva, afinal, “como assim o Heavy Metal é apenas música e entretenimento? Como você se atreve a dizer que um gênero que nasceu das raízes africanas (com o Blues) e depois se desenvolveu em uma cidade inglesa pela classe trabalhadora oprimida é apenas entretenimento? Você não conhece as letras de War Pigs, de Breaking The Law, não conhece a luta contra a censura conservadora do PMRC? Vai estudar e para de falar bobagem!”

Aposto que todo mundo já viu argumentações como essa…

O que posso dizer a estes sabichões é que realmente é preciso estudar, até para não confundir termos como apartidário e apolítico, que é bastante comum em pessoas que usam as argumentações descritas acima. O Black Sabbath foi absolutamente político na letra de War Pigs, mas também foi 100% apartidário, a crítica é sobre o sistema como um todo e não apenas sobre um dos lados da moeda. Se você ler a letra de War Pigs, ela não embasa qualquer discurso de esquerda ou direita. O Judas Priest foi 100% transgressor em Breaking The Law, aliás, se você reparar bem, usar uma música que fala em “quebrar as regras” para tentar impor regras é algo bem contraditório. O PMRC foi, inclusive, tema de uma publicação recente nossa e, fica muito claro, que se tratava de mera politicagem para aprovar um novo imposto, o HR 2911. Para isso, usaram algumas senhoras (na verdade, esposas de personalidades da política) que não passavam de fanáticas religiosas que se escandalizavam com tudo e todos. É fato consumado que o PMRC não resultou em qualquer tipo de prejuízo para os artistas do Rock e Metal, as argumentações absurdas foram facilmente rebatidas por Dee Snider e Frank Zappa e o tal selo de “explicit content” que foi colocado nas capas dos álbuns, serviram apenas para aquecer ainda mais as vendagens das bandas.

Distorcer eventos históricos para convencer jovens padawans alienados a comprarem determinadas narrativas é o que mais tem sido feito no meio Metal, mas para desbancar tais artifícios basta conhecer os fatos. A verdade se impõe sobre falácias.

Voltando as letras, vamos ser claros aqui, em um país onde a maioria esmagadora da população não fala corretamente nem o português básico, como exigir o conhecimento de milhares de letras de música em outro idioma? Você pode pensar, “Mundo Metal, mas temos o Google e sites que traduzem as letras de forma instantânea”. Sim, temos, mas você realmente acredita que esse pessoal passa dias a fio lendo letras para depois decidir se vai gostar da música?

Todos nós sabemos que não é assim que funciona.

BRIGHTON, ENGLAND – NOVEMBER 28: Lemmy Kilmister of Motorhead poses backstage at Brighton Centre on November 28, 2010 in Brighton, England. (Photo by Marc Broussely/Redferns)

Para finalizar, gosto de acreditar que as letras são um atrativo a mais dentro da música, apenas isso, jamais serão a parte fundamental. Eu admito, é legal quando você descobre através de uma letra que o seu músico favorito tem uma visão de mundo parecida com a sua, isso ocasiona uma maior identificação com a banda, mas não é uma regra. Somos pessoas diferentes, com pensamentos, atitudes, posicionamentos e crenças distintas, esta é a beleza de uma sociedade livre. Precisamos ser maduros o suficiente para encarar as coisas como elas são, uma letra escrita por um membro de banda reflete apenas a opinião dele sobre determinado tema, se você se identificar com tal posicionamento, beleza, se não se identificar, beleza também. Você pode ouvir aquela música sem qualquer problema, apenas sabendo que apesar de excelente musicalmente, ela não reflete as suas convicções pessoais.

Precisamos, urgentemente, aprender a respeitar o pensamento alheio sem transformar aquele que pensa diferente em um criminoso ou em um ser desprezível. Se todos focassem em cuidar das suas vidas e parassem de patrulhar o traseiro alheio, tudo seria melhor e poderíamos focar em coisas realmente importantes, como tornar o Heavy Metal mais forte e menos segregador.

♫ “You don’t know what it’s like
You don’t have a clue
If you did you’d find yourselves
Doing the same thing too
Breaking the law, breaking the law
Breaking the law, breaking the law” ♫

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