Após quase oito anos longe do estúdio, A Forest Of Stars retorna com um dos álbuns de Metal mais ousados de 2026

Misturando sátira, violência e emoção sincera em um Prog Metal no qual cabem Atmospheric Black Metal e Folk, banda britânica quebra o hiato com um disco colossal e político.
Quem explora os cantos um pouco mais excêntricos do Metal às vezes encontra projetos de tanta originalidade que fica impossível classificar com um único rótulo. Definitivamente é o caso de “Stack Overflow in Corpse Pile Interface” (Prophecy Records), álbum lançado em 8 de maio no Bandcamp e plataformas de streaming por assinatura. O lançamento marca o retorno do grupo formado por sete ingleses, A Forest of Stars, em silêncio desde os últimos shows há quatro anos, e a chegada de “Grave Mounds and Grave Mistakes” (pela mesma gravadora, 2018). É também, provavelmente, o ponto alto da carreira da banda até o momento.
Embora a a apresentação do disco descreva a banda como “uma manifestação física do que pode ser chamado confidencialmente de ‘Black Metal Britânico’”, quem apertar o play esperando um disco clássico de Black Metal pode se surpreender.
Por outro lado, quem escutar livre dessa expectativa e com disposição para se deixar carregar por estilos que vão do Prog e Folk ao Doom, poderá se encantar por uma obra sólida, atormentada e meticulosamente composta.
Black Metal ousado, político e filosófico
E, sim, com um tanto considerável de Black Metal, seja atmosférico, sejam as blast beats e guitarras dissonantes do gênero em sua forma mais porrada. É só não se assustar com a introdução de dois minutos com violinos: a quebradeira é garantida e já está chegando. Nos 73 minutos de duração, o 6º álbum do A Forest of Stars é uma odisseia criada com muita coragem. O disco gira em torno de ideias políticas e filosóficas sobre uma humanidade que devora a si mesma e leva o planeta como efeito colateral.
O disco mais criativo da banda até o momento, também é o trabalho dos britânicos mais diretamente fincado na realidade dos tempos de seu lançamento. E há espaço para meditação, fúria, escárnio e até mesmo um pouco de esperança.
O Mundo Metal conversou com a banda, que conta mais sobre os passos que levaram a este novo lançamento, assim como temas políticos/psicológicos do álbum. E sobre como o “Stack Overflow” é fruto de uma experiência de quase morte da A Forest of Stars enquanto grupo.
Nascido do cadáver de outro disco

A Forest of Stars foi formada em Leeds em meados de 2006, inspirada na expansão criativa do Black Metal que gerou bandas como Ulver, In the Woods, Arcturus e Monumentum, assim como pela vontade de trazer sua própria voz para este caldeirão. Após algum tempo de ensaios e composição, em 2008 lançaram de forma independente o primeiro EP, “The Corpse of Rebirth”. Ele foi lançado mais tarde no mesmo ano oficialmente pelo selo canadense Transcendental Creations.
“The Corpse of Rebirth” foi gravado por quatro multi-instrumentistas com pseudônimos peculiares: o tecladista, percussionista e baterista The Gentleman, o vocalista Curse, a violinista, flautista e vocalista Katheryne, Queen of the Ghosts, bem como o guitarrista, baixista e backing-vocal T. S. Kettleburner. O EP já dava indícios das direções que a banda refinaria a cada lançamento durante as décadas de existência: um projeto da A Forest of Stars é um mundo à parte, onde as regras e sonoridades certamente são fluidas.
O Black Metal pode vir com flautas e violinos, somando tensão às guitarras em tremolo com camadas de delay, no que parece uma versão mais pesada do folk psicodélico do Comus. Assim, pode incorporar elementos de pós-rock a ponto de fisgar fãs de Godspeed You! Black Emperor e The Birds End.
O que um projeto da A Forest of Stars nunca pode é se tornar monótono.
Um universo de possibilidades
A disseminação na internet ajudou aquele som tão particular a encontrar seu público, e o desafio de tocar ao vivo fez o grupo expandir. Hoje, a banda conta com um total de sete membros (os quatro fundadores, junto ao guitarrista William Wight-Barrow, o baixista Titus Lungbutter e o baterista e percussionista John “The Resurrectionist” Bishop — todos também pseudônimos).
De 2008 para cá, outros cinco LPs também foram lançados, contando com “Stack Overflow in Corpse Pile Interface”. A captação sonora foi melhorando a cada lançamento, e as ambições e misturas sonoras da banda se expandiram proporcionalmente às possibilidades técnicas. Mesmo em uma trajetória de constante refinamento de composição e produção, onde cabem discos conceituais narrativos como “A Shadowplay for Yesterdays” (Lupus Lounge, 2012) e “Beware the Sword You Cannot See” (Lupus Lounge e Prophecy Productions, 2015), “Stack Overflow” chega em 2026 como um ponto alto de criatividade e requinte impressionantes, não apenas na discografia da banda em si, mas no cenário de lançamentos de Metal compromissados com expandir o gênero em suas possibilidades artísticas.

Na entrevista, feita por videoconferência com Curse (‘Maldição’, apelido dado por um amigo do passado) e The Gentleman (‘O Cavalheiro’), os membros-fundadores da banda detalharam melhor o que aconteceu no intervalo de quase oito anos longe do estúdio, e como finalmente o álbum veio a termo. Desse modo, é uma história bastante apropriada para uma banda que iniciou a carreira com um EP chamado, em tradução livre, ‘O Cadáver do Renascimento’.
“Nunca foi nossa intenção demorar tanto tempo entre os álbuns. Logo depois do ciclo do álbum de 2018 terminar, a gente voltou a compôr”, conta o Gentleman. “Nós acabamos até que escrevendo uma quantidade colossal de material, gravamos demos e começamos a montar as músicas… E a gente estava tentando fazer um algo de uma ambição ridícula, algo conceitual e muito difícil!”
O efeito Covid
Eles contam que, ao começarem as primeiras reuniões com representantes da gravadora para entender qual seria o orçamento disponível para o disco, as dúvidas começaram a surgir internamente na banda.
“Alguns membros não estavam totalmente certos da direção que estávamos tomando, e alguns elementos do projeto não pareciam estar funcionando”, continua o tecladista. “A gente decidiu que era melhor reconsiderar, ao invés de seguir adiante com força total, como costumamos fazer.”
Faixas começaram a ser retiradas de cena, enquanto outras eram dissecadas para tentar entender o que não estava funcionando.
“Antes que a gente pudesse perceber o que estava acontecendo, o projeto inteiro começou a se desfazer!”, sumariza.
Para completar o cenário complexo, a esta altura a pandemia de COVID-19 já estava em pleno curso. E as tensões que já estavam se acumulando foram tornadas ainda mais difíceis pelo isolamento social.
“Cada um de nós estava, além de confinado literalmente no seu próprio espaço, preso também dentro da própria mente. Por um momento, parecia que nós iríamos nos separar de vez! Nós estávamos usando o álbum como desculpa para discutir entre nós, as coisas foram ficando feias e desagradáveis. E tudo, sem dúvida, aumentado pelo cenário de isolamento.”
Um tempo depois, quando os casos começaram a diminuir e já era possível se encontrar em espaços abertos e ventilados, a banda decidiu se reunir. E aquele poderia ser certamente seu último encontro.
Se você está lendo este texto, já sabe que não ocorreu assim.
“A coisa mais crucial, com a qual todo mundo concordou, é que a única maneira de seguirmos juntos como uma banda era abandonar tudo aquilo no que estávamos trabalhando e começar do zero, encontrando um jeito diferente de trabalhar em conjunto!”, conta o tecladista.
O renascimento
A conclusão veio após uma tarde conversando ao ar livre, em um jardim público. Mas o caminho até o novo disco ainda demoraria mais de um ano, com a banda tentando diversos métodos para reaprender a criar projetos coesos. Quando finalmente foi plantada a semente do novo álbum, o solo já estava rico com a decomposição daquele projeto inacabado. Dessa forma, Gentleman conta que:
“De repente, alguma coisa meio que clicou. E quando deu esse clique, tudo só fluiu livremente. Quando vimos, tínhamos gravado um álbum.”
O tecladista e percussionista, que também atuou como principal nome na produção musical do álbum, refletiu sobre o momento. Ele diz que o que aconteceu durante esses oito anos não foi apenas o descarte de um projeto, e sim algo mais potente:
“O que nós passamos foi efetivamente um renascimento completo da banda, um processo absolutamente necessário. E foi doloroso e horrível! Mas, se nós não tivéssemos nos forçado a fazer isso, dificilmente iria acontecer. Eu odiei completamente o processo, mas agora estou absolutamente grato por isso. Porque a banda consiste em sete pessoas muito amigas. É como se tivessem camadas: No topo, nós somos um grupo de amigos muito próximos. A camada logo abaixo é que nós sempre tomamos conta da saúde física e mental uns dos outros. E isso vem antes de qualquer coisa. Só depois disso vem a banda, compôr, gravar, esse tipo de coisa. E com esse renascimento, isso ficou meio que escrito em pedra, como se fossem os nossos mandamentos.”
O Gentleman descreve ainda que as faíscas de escrever em pedra esses mandamentos da banda acenderam um incêndio criativo de proporções gigantescas.
“Depois que a gente conseguiu encarar o fogo que esse processo acendeu em nós, entender o que ele era e o que poderíamos fazer com ele, em termos de escrita e composição… Tecnicamente, foi um processo de oito anos, mas o tempo que a gente realmente passou criando esse álbum atual, foi bem curto. Porque o fogo se alastrou rápido em um fogaréu. Eu fico muito feliz quando eu ouço que [essa energia e paixão] transparecem quando as pessoas escutam a música.”

“A ascenção dos palhaços”
De fato, “Stack Overflow” é um álbum que soa exatamente como algo que demorou quase oito anos para acontecer. Ao longo das seis faixas longas, A Forest of Stars constrói experiências diversas. Há camadas de som que nunca parecem fora do lugar ou acidentais, e transições entre movimentos que soam extremamente naturais. Em um momento, você está em uma passagem de Doom Metal extremamente apocalíptico e ela flui para uma virada de Prog clássico. Então, entram riffs de Heavy Metal clássico acompanhados dos violinos e flautas cheios de feeling de Katheryne, Queen of the Ghosts. A mesma Katheryne acrescenta belos vocais melódicos ao misto de guturais e a declamação teatral de Curse.
É um tipo raro de obra de arte. Um disco ao mesmo tempo meticuloso e espontâneo, ao mesmo tempo sublime e brutal.
É também o disco mais abertamente político da banda, graças às letras sarcásticas, absurdistas e simbólicas. Todas elas foram escritas exclusivamente por Curse e revisadas em conjunto pela banda. Munindo-se de descrições apocalípticas, imagens que flutuam entre o macabro e o repulsivo com um vocabulário emocional vasto e existencial, o álbum inegavelmente pinta um panorama extremamente consistente do desespero contemporâneo. O horror de ver-se em uma sociedade global colapsando em câmera lenta, mas cada vez mais acelerada. Ainda assim, segundo Curse, não é exatamente um álbum conceitual. Embora tenha, nas palavras do vocalista, “algumas linhas centrais que costuram o projeto”.
“Eu não consigo responder sem ser honesto sobre isso: ao longo da minha vida, minha saúde mental tem sido bastante caótica”, desabafa o vocalista. “E em 2020, eu tive um colapso total. Foi neste período em que eu escrevi a maior parte do material do disco, então sequer me lembro direito de escrever a maior parte.”
Dificilmente se chega a um resultado artístico coeso estando exclusivamente em condições como estas. Curse explica que, ao longo do tempo, em momentos de melhora de sua condição emocional, ele revisitou o material. Dessa forma, adicionando trechos e cortando outros, mas sempre com o foco em manter nas letras um componente de livre-associação.
“Eu tento manter esse fluxo de consciência, mesmo as imperfeições. Porque é como eu tendo a escrever.”
Saúde Mental
O fluxo de consciência, neste caso, deparou-se com um cenário de mundo real desesperador. Os números de casos e mortes pela COVID-19 se avolumavam, a banda não podia se encontrar e passava pelas crises artísticas e pessoais já mencionadas. Ao mesmo tempo, projetos políticos centrados na intolerância se acirravam na humanidade como um todo. As letras que, anos mais tarde, seriam retrabalhadas e utilizadas para o “Stack Overflow in Corpse Pile Interface” começaram a refletir todo este cenário, o que também foi uma novidade para a A Forest of Stars.
“Apesar de nós adotarmos uma persona Vitoriana ao longo dos anos, quase nada é escrito com isso em mente. Com exceção, talvez, do ‘A Shadowplay for Yesterdays’, que tem um pouco mais de conexão”, conta Curse, perguntado sobre as aflições mais contemporâneas do disco. “Mas, mesmo naquele álbum, é sempre uma forma mal-velada de escrever sobre saúde mental. Entre muitas outras coisas, mas esse é o ponto central.”
Curse reflete ainda que o álbum novo é uma espécie de comentário sobre o quanto “o mundo está abjeto e repulsivo nos nossos tempos presentes”:
“Eu sei que nós nos esquivamos de nos posicionar politicamente no passado. Mas é quase impossível evitar falar alguma coisa, porque esse é o mundo em que vivemos. A gente parece estar descendo a ladeira a uma velocidade que não temos chance de regular. Se quisermos continuar girando juntos em cima dessa rocha, a gente realmente precisa começar a tratar uns aos outros de forma mais razoável. Eu não consigo ver nenhuma desculpa para alguém machucar outra pessoa com base em quem ela é, quem ela ama ou o que ela escolhe fazer, desde que ela não esteja prejudicando ninguém. Nós precisamos parar de matar as pessoas indiscriminadamente. E o álbum é principalmente uma reação a quem trabalha para tornar isso aceitável no mundo.”
O poder do dinheiro
A primeira faixa de “Stack Overflow” deixa essa reação bastante explícita. Com o nome de “Ascension of the Clowns” (‘A Ascensão dos Palhaços’, em tradução livre), os trechos cantados da música, acompanhados por linhas de baixo igualmente macabras e circenses, pintam um cenário de apocalipse na qual os palhaços tomam as rédeas de um espetáculo de morte, enquanto os corações dos desesperados “têm espasmos em código binário”. Quando perguntados sobre quem seriam os palhaços, tanto Curse quanto The Gentleman concordaram que se tratam das forças políticas reacionárias do mundo. Em especial, os gigantes da tecnologia que têm permitido o espalhamento de várias formas de intolerância e ódio. Aliás, enquanto isso destroem milhões de vidas para lucrar com a plataformização do mundo:
“Simplificando, são todas essas pessoas!”, diz Curse, rindo. “Mas eu decidi chamá-los de palhaços, porque eles são macabros. Eles usam um nó de forca ao redor do pescoço todos os dias, e ficam lá nos dizendo o que fazer, como pensar… Programando a nossa realidade. E são figuras tão caóticas que você se pergunta como é possível que tenham ganhado tanto espaço na sociedade.”

O Gentleman acrescenta:
“O que me pega é a arrogância! E o fato de que o sucesso hoje é medido pelo tanto de dinheiro que alguém consegue ganhar com uma empreitada. E, efetivamente, esse dinheiro é fruto da exploração dos outros, e da destruição de diversos sistemas”diz o tecladista, fazendo referência às chamadas ‘ideias disruptivas’, que normalmente deterioram as condições de trabalho de pessoas em um setor, como tem acontecido com a distribuição de música por streaming, com efeitos desastrosos para artistas e gravadoras menores. “Eles se acham brilhantes, e acreditam que possam levar essa genialidade para qualquer área. E definitivamente não é o caso! E vários deles são horríveis em se comunicar socialmente, são péssimos em inteligência emocional. Mas são considerados bem-sucedidos exatamente por causa do dinheiro que ganharam destruindo os setores!”, completa o tecladista.
Curse retoma seu argumento, precisamos levar a sério o risco que estas figuras trazem à sociedade, mas é importante rir da cara delas:
“Independente de quanto dinheiro eles têm ou do quão importante elas se julgam. No fim do dia, são a escória da terra. É importante levantar um dedo do meio convicto para eles. Nós temos tanto potencial, como espécie… não necessariamente para sermos bons, mas para fazer a coisa certa. Mas parece que estamos tão obcecados em se esgotar e produzir, ao invés de ajudar realmente as pessoas.”
E é por isso que ele gosta da imagem de palhaços aterrorizantes transformando o mundo em uma bagunça:
“Eu tenho uma visão… de tanques de guerra pintados de um jeito parecido com a Máquina do Mistério de Scooby Doo. Eu imagino esses tanques avançando sobre as cidades e varrendo todo mundo do mapa, ao mesmo tempo que jorram água em cima de tudo com uma flor de plástico. Esse tipo de coisa.”
Parece conceitual, mas…
“Ascension of the Clowns” é uma faixa de nove minutos, na qual muita coisa acontece. O caos social que a letra narra por meio de sátira, alegoria e imagens de fim do mundo aparece em algumas seções furiosas. Estas seções são costuradas por passagens instrumentais mais contidas, nas quais a melancolia dá as caras como emoção dominante. Mas, seja nesses momentos meditativos mais próximos do progressivo setentista, seja nos trechos nos quais Curse declama a denúncia dos versos acompanhado de música mais explosiva, a faixa é constantemente marcada por tensão.
Ela também é a música mais curta do disco.
Esta reportagem não irá repassar o álbum faixa a faixa, mas a conversa com a A Forest of Stars passou por outras das “linhas centrais” que, segundo Curse, fazem “Stack Overflow In Corpse Pile Interface” parecer um álbum conceitual. Também trouxe mais histórias de bastidores que certamente merecem ser contadas.

Respeito à Terra, duas escatologias e muitos jogos de palavras
Lyric-video de ‘Root Circle Usurpers’.
A mensagem de alerta sobre os “palhaços macabros” não é o único aviso que A Forest of Stars faz no disco novo: as letras de cada faixa colaboram entre si para pintar um cenário cheio de pontos de atenção para a humanidade como um todo. Por exemplo, em vários momentos ao longo do disco, a banda nos confronta com a ideia existencial de que nós não somos nós. O vocalista e letrista explica que a ideia vem com reflexões sobre a rejeição do ego, bem como sobre a possibilidade de nossa mente ser parte de um processo de consciência que está em todas as coisas. É também um lembrete do quanto a senciência é algo confuso, e das consequências dessa confusão para as relações humanas.
O cuidado com a alocação das palavras que versam sobre tópicos como esses é outro ponto que chama atenção em ‘Stack Overflow’. Em contraste com álbuns anteriores, em especial o antecessor imediato, aqui os versos de Curse estão bem mais contidos. Enquanto ele cantava e gritava uma imensidão de palavras em “Grave Mounds and Grave Mistakes”, aqui os espaços do instrumental e das palavras estão melhor delineados, e os movimentos dentro de cada música elevam uns aos outros.
Questionados sobre essa escolha, Curse e Gentleman explicam que normalmente o processo de composição e arranjo se dá separado da escrita das letras por Curse.
“Às vezes eu intencionalmente escuto as demos e tento criar coisas que combinem com o fluxo geral. Na maioria das vezes, são coisas que eu escrevo sem saber como será a música, e tudo se encaixa à medida que a gente trabalha.”
Ele explica ainda que a banda conseguiu dar luz a um jeito de trabalhar em que isso funciona muito bem, em especial o trabalho entre os dois entrevistados, sem dúvida fruto de mais de duas décadas trabalhando juntos.
“Mas dessa vez a gente meio que…”, comenta o Gentleman, “Acho que uns 95% das palavras, a gente simplesmente sabia: ‘Aqui cabem os vocais, aqui não tem espaço pra eles’. Mesmo considerando que a gente não estava pensando em como encaixar as letras ainda, só depois de já ter composto a maior parte da música. A gente só soube.” Música por música, os espaços já haviam sido separados.
As diferenças entre uma obra e outra
Esse modo bem coordenado de compôr, que o tecladista e produtor descreveu como um momento de “serendipidade”, pode ter menos de coincidência e mais de consistência com um projeto artístico por parte dos ingleses. O disco já começou a ser pensado a partir de uma lógica diferente da que a banda utilizou em outros álbuns.

Curse respondeu primeiro à pergunta do Mundo Metal sobre a diferença de direção entre esse álbum e “Grave Mounds and Grave Mistakes”, tendo em vista que a abordagem de “Stack Overflow” parece dar mais força às letras e mais significado às porções instrumentais.
“Houve uma decisão consciente, dessa vez, de dar espaço para todo mundo respirar no álbum, para que cada instrumento tivesse sua vez.”, conta o homem sério, mas de sorriso sincero. “E parte disso é que as malditas palavras não estejam por cima de tudo. Elas precisam ter o seu lugar, e não estar por cima, ou no caminho de todo o resto da música.”
“E esse era exatamente o objetivo: dar mais impacto a todos [os aspectos do disco]”, acrescenta o Gentleman, dizendo que a banda discutia a ideia de tentar ter mais respiros em álbuns anteriores, mas diz que “Nós nunca conseguimos fazer isso de verdade. Nesse a gente realmente levou isso a sério. Se nós queremos que essas palavras tenham mais significado e força, então a gente tem que usá-las de maneira esparsa. Daí sempre que elas vêm é um ‘BAM!’ Com intencionalidade total, sem nada interferindo no que as palavras têm a dizer.”
O Gentleman não ligou o vídeo durante a entrevista, então não foi possível ver o sorriso com o qual acrescentou uma tirada:
“Enquanto, antigamente, a gente construía as camadas densas de som e o Curse só arrebentava por cima, efetivamente! (risos)”
De fato, a menor densidade de palavras não significa comprometer as várias camadas de significado do disco. Muito pelo contrário, “Stack Overflow” consegue equilibrar com sucesso uma série de temas, para além da aliança crescente entre o reacionarismo e as plataformas de tecnologia. A começar pelo título, um comentário criativo sobre os desafios de manter a saúde mental em um mundo em combustão.
“Você deve conhecer o termo ‘stack overflow’, que vem da área de programação”, elabora Curse, dando uma explicação boa para leigos do que seria o fenômeno, também chamado em português de ‘estouramento de pilha’: “Você tenta alocar muita informação em um espaço limitado de memória, e não há memória o suficiente para encaixar tudo aquilo. Então a memória se esgota e ocorre um erro crítico”.
Mas a sobrecarga de memória à qual o disco se refere não ocorre em computadores inanimados:
“Com o mundo que enfrentamos atualmente, com genocídio e todos os problemas que conversamos até aqui… Esse mau tratamento de qualquer pessoa percebida como inferior por quem se acha mais importante por conta dos pedaços de plástico que carrega na carteira… Essa é a ‘Interface de Pilha de Corpos’, entende? São tantas mortes que nós não podemos, sem explodir ou ter um ‘stack overflow’, processar naturalmente o peso que é colocado sobre nós. O mundo parece se alimentar da morte. Depois de um tempo, é como a esquete do Senhor Creosote (de Monty Python e o Sentido da Vida): o cara comeu tanto que não pode nem comer uma balinha de menta sem explodir.”
O vocalista completa, com uma frase um pouco mais esperançosa.
“Nós precisamos fazer outras coisas, ao invés de só consumir mídia e ser moldados por ela. E nós precisamos rir!”
“Viver com a terra, e não tê-la como propriedade”
Talvez as únicas risadas possíveis neste disco novo sejam gargalhadas sardônicas. Mas são alguma coisa, em meio aos chacoalhões. Por exemplo, há um trecho em “Root Circle Usurpers” (‘Intrusos do Círculo de Raízes’), no qual o narrador da música menciona ter, certa vez, conversado com as árvores que, depois, foram derrubadas para que ele pudesse se limpar no banheiro. A banda tenta explorar com algum humor decadentista esse contraste entre uma vivência espiritualizada da natureza e a banalidade com a qual nossa sociedade a encara — como meros “recursos naturais”. Ao longo de todo o álbum, a banda pontua o absurdo de uma espécie jovem e presunçosa que perde o respeito não apenas por seus semelhantes, mas também pelo planeta como um todo.
Existe uma ironia muito grande no fato de que essa falta de respeito pelo planeta coloca a própria humanidade em perigo de aniquilação, junto com diversas outras formas de vida. Em um ponto, na faixa “Street Level Vertigo” (‘Vertigem no Nível da Rua’), a banda afirma: “Mesmo nosso registro fóssil é uma merda!”.
“Eu acho que nós deveríamos viver com a terra, e não tê-la como propriedade”, reflete Curse. Contemplar o fim da humanidade por essa soma de fatores sociológicos e ecológicos, é uma constante em “Stack Overflow in Corpse Pile Interface”. Está nó título do álbum: a pilha de corpos se avoluma, e um dia seremos todos nós. E, assim como no exemplo de “Root Circle Usurpers”, as imagens do fim de tudo são acompanhadas por muitas referências a fluidos corporais.
Escatologia
“Stack Overflow” é um disco onde imagens de valas comuns e do fim derradeiro da humanidade coexistem com mictórios cósmicos e trocadilhos sobre excrementos. Na língua portuguesa, tanto as concepções de fim do mundo de diferentes cosmovisões quanto as referências aos dejetos do nosso metabolismo acabaram sendo traduzidas do grego para uma mesma palavra. Apesar de outras línguas manterem os radicais gregos originais, por aqui, ao se falar “escatologia”, podemos estar nos referindo ao fim do nosso mundo ou ao fim das nossas refeições. Quando perguntado sobre o significado desse encontro de escatologias ao longo do disco, Curse responde que esse tipo de humor perverso acompanha a banda há muito tempo, e muitas vezes é a resposta a outra questão sociológica relevante.
“Isso é fruto de uma desconfiança razoavelmente saudável de religiões organizadas. A religião pode estar muito próxima de um monte de merda, mas ela tem o potencial de estar bem distante disso. Nas mãos erradas, você tem uma tempestade de merda”, reflete o letrista.
Responsável por um álbum repleto de trocadilhos e jogos de palavras — fruto de uma longa tradição britânica, e herdados mais diretamente da avó, que costumava deixar bilhetes com trocadilhos e enigmas, Curse comenta ainda:
“Eu estou impressionado em saber que a palavra ‘escatologia’ em português tem esses dois significados, porque é algo fundamental para a nossa mentalidade quando estamos atacando a religião organizada. Mas a gente também respeita a religião, de certo modo. Quando ela é vivenciada por pessoas que acreditam no que estão fazendo, e não machucam ou forçam as outras pessoas no processo. Nós somos pessoas mais velhas agora, e temos o benefício da experiência. Mas isso não impede o mundo de usar a religião como arma.”
Uma despedida em grande estilo
Um dos jogos de palavras presentes nas letras de “Stack Overflow in Corpse Pile Interface” é uma referência aos gigantes do Rock progressivo do Genesis, na sua primeira leva de álbuns nos anos 1970: “Who on Earth gives a firth of a fifth of a fuck?” (“Quem se importa sequer o estuário de 1/5 de uma porra?”). A tradução fica quebrada porque “Firth of Fifth”, título de um dos clássicos da fase prog da banda, também é um trocadilho com o estuário do rio Forth (“Firth of Forth”, que soa como ‘O Estuário de 1/4’).
Não é apenas em referências nas letras que aquela década dá as caras ao longo do álbum. Algumas das texturas utilizadas, sejam de teclado, baixo ou guitarra, têm um marcador óbvio das sonoridades da época, apesar de estarem inseridas em composições bastante contemporâneas. Assim, a tecnologia usada também não é exatamente vintage.
“É tudo baseado em software, os sons de sintetizador e tal”, conta O Gentleman. “Eu tenho um piano de verdade, um fortepiano [uma espécie de ancestral do piano moderno, no qual Mozart — por exemplo — compunha e executava suas sonatas]. Esse fortepiano é um bem muito querido meu, que eu tenho há muito tempo! E é insano o fato de que ele ainda pode ser afinado, porque a essa altura ele tem quase 100 anos, e está sendo levado ao limite!”
Esse mesmo fortepiano já dá as caras na discografia do A Forest of Stars desde “The Corpse of Rebirth”.
“Mas a maior parte dos sons neste álbum… A questão é que a recriação baseada em software para esse tipo de coisa é muito robusta hoje em dia”, continua ele. “E também depende muito de como você faz a produção sonora. Os exemplos que nós demos ao Rob Hobson, que mixou esse e a maioria dos nossos álbuns, foi de discos dos anos 70. A gente queria uma sensação moderna, mas também capturar a sensação daquela década. Por isso eu usei instrumentos que emulam Fender Rhodes, o Clavinet, coisas assim. O que ajuda a tocar ao vivo, porque eu não quero carregar oito teclados por aí que nem o Rick Wakeman! (risos)”.
Neste álbum, mais do que em qualquer ponto da história da banda, as texturas criadas pelo violino atingem uma direção sublime, às vezes apoteótica. A decisão de dar mais respiro às partes e valorizar cada instrumento permite momentos incríveis de bateria, baixo, guitarras e dos já citados teclados e fortepiano. Mas as contribuições de violinos e flautas, às vezes em linhas que remetem à música de câmara, às vezes folk como se pintadas com argila e tinturas em um círculo pagão, e em muitos momentos criando atmosferas psicodélicas reforçam como nunca o papel de Katheryne como rainha da trupe de fantasmas vitorianos do AFoS.
A produção musical mais meticulosa levou a ótimos frutos.
Tendo sido a principal voz nessa produção (com co-produção de Kettleburner e Wight-Barrow), o Gentleman conta ainda que foi ideia da banda que ele fosse o produtor deste projeto, o que ele considerou uma honra.
“É um trabalho de entender onde estão todas as partes e como organizar as pessoas de um modo que elas estejam confortáveis. Até porque você consegue os melhores takes quando está todo mundo feliz e relaxado. Antes de começar, você já tem que ter uma ideia de como quer que as coisas soem no final. E aí basta se certificar de que tudo siga nesse caminho, mas de um jeito que não seja horrível ou autoritário.”

Essa consistência com o projeto de colidir sonoridades e ideias tanto do presente quanto da longa história do prog e do metal talvez atinja o ponto mais refinado na última faixa, o ponto mais emocional do disco.
“Not Drinking Water” (‘Água Imprópria para Consumo’, em tradução livre) é uma faixa que funciona como um epílogo para o álbum conceitual que não estava lá. Para começar, é a única faixa neste disco acompanhada de uma dedicatória. “Para Benjamin James Hanson, 1978-2001”. Também é uma faixa na qual a linguagem simbólica e as parábolas poéticas sobre uma sociedade doente dão lugar a algo mais direto. Apropriado para a história por trás da faixa.
Atenção: O trecho a seguir lida com adoecimento psicológico profundo e suicídio. Se você está passando por uma crise, procure ajuda e a companhia de profissionais e redes de afeto. Para pular a parte sensível do texto, pule o trecho abaixo (incluindo o vídeo e o que vem depois dele) e continue a leitura a partir da próxima foto de show.
“Esse camarada era um amigo meu e do Gentleman”, diz Curse.
“De fato, a gente meio que se conheceu através dele, não?”
“Verdade. Foi ele quem nos apresentou”, constata o vocalista. “Ele tirou a própria vida em 2001, se afogando em um reservatório de água local. Ele ficou desaparecido por várias semanas, foi algo muito pesado.”
Curse e o Gentleman contam que sempre quiseram fazer uma homenagem para este amigo e que, de certo modo, toda a carreira da banda contém uma camada dessa homenagem. Curse explica que “ele sempre esteve nos nossos corações. E agora pareceu ser o momento certo para fazer [essa homenagem mais direta]. As palavras vieram e pareceram combinar com a música.”
O Gentleman completa: “É uma música muito emocionante para nós, especialmente para mim e para o Curse. Quando ele me mandou as letras, eu fui arrebatado por elas. Ele veio perguntando o que eu achava e, quando eu entendi do que se tratava, eu disse ‘Cara, isso é incrível!’. Era perfeito.”
Alquimia musical
Nas primeiras cinco faixas do disco, a A Forest of Stars faz a alquimia de transformar o caos da realidade à nossa volta em um metal potente, da cor da noite. Um metal sólido nas suas metáforas e maleável na sua sátira. Na última faixa, eles forjam uma marreta a partir desse mesmo metal, esmagando nossas cabeças com a reflexão: “Até quando vamos nos manter alimentando um sistema que quebra as pessoas desse jeito?“
Curse chama atenção para um último detalhe do disco:
“É importante dizer que, depois que acaba a letra, a música entra em uma jam cósmica massiva. E me parece um jeito perfeito de encerrar o álbum, além do sentimento de que a banda realmente está fazendo um tributo a uma pessoa incrível”
Ao que o Gentleman acrescenta:
“E, desde o início, eu insisti na ideia de que essa faixa deveria acabar em um fade-out. A gente não gosta de usar fade-out nas faixas, mas aqui pareceu a decisão certa. Porque, desse modo, é como se a faixa se estendesse para sempre. A única limitação é o formato. A faixa só diminui até o silêncio completo porque se trata de um disco!”
A banda fez o primeiro show da turnê do álbum no Fortress Fest, no dia 31 de maio, três dias depois da entrevista. Em um momento de vulnerabilidade, Curse comenta que, durante os ensaios, quando chega a parte da jam, “eu fico dizendo a mim mesmo: ‘Deixe ele ir’. Porque chegou o momento de deixá-lo ir.”

Um dos álbuns mais ousados de 2026
Ao trabalhar com contrastes de forma maestral, “Stack Overflow in Corpse Pile Interface” é uma obra de arte ambiciosa, que trata saúde mental e contemporaneidade com crueza e poesia. É um álbum que flutua entre estilos e constrói um som somente seu, trazendo uma raiva esperançosa como resposta a descrições de um mundo de desesperança. E faz isso com um Metal sombrio, potente e muito bem tocado, que mistura irreverência e ambição artística, como sempre fizeram os grandes nomes da música progressiva dos quais também beberam.
Por todo esse “estouro de pilha” de fatores, “Stack Overflow in Corpse Pile Interface” é, provavelmente, um dos discos mais ousados de metal deste 2026 que você vai ouvir.
