Andreas Kisser revela influências do Sepultura: “Fomos influenciados por Chico Science, Tropicalismo, Novos Baianos, Raimundos…”

Photo: Instagram @andreaskisser/ @pridiabr/ The Music Journal

Nos últimos meses, Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, vinha marcando presença constante em podcasts. No entanto, apesar da visibilidade, muitos fãs passaram a demonstrar certo incômodo com a repetição de comentários polêmicos em diferentes entrevistas. As falas acabavam soando previsíveis e pouco acrescentavam ao debate sobre a trajetória da banda.

Por outro lado, a participação no Flow Podcast, publicada no último dia 8 de abril, trouxe um cenário completamente diferente. Sob a condução de Igor, o bate-papo ganhou novos rumos, explorando temas menos recorrentes e aprofundando reflexões relevantes. Assim, a conversa se destacou como uma espécie de virada de chave na forma como o músico vem se comunicando com o público.

O sucesso internacional e o “mistério” do Sepultura

Durante a entrevista, Andreas Kisser relembrou os primeiros passos do Sepultura fora do Brasil, destacando como a ausência de internet ajudava a criar uma aura de mistério em torno da banda:

“Na época, obviamente, não tinha nenhuma outra banda. Então foi sempre muito exótico. Não tinha internet, então não tinha essa coisa de TikTok ou Instagram, que você fica mostrando o que você come no café da manhã ou o que você usa pra dormir e o cacete a quatro. Era uma coisa muito mais fechada, você via o disco e a foto que tava no disco. E as revistas eram muito burocráticas no sentido de mostrar a imagem oficial da banda e etc. Não tinha essas coisas de backstage ou saber o que o cara tava fazendo em casa. E isso era por conta da época, não tinha essa comunicação.

Então quando saía o Sepultura lá fora e ouviam o que estava sendo feito no Brasil por esses moleques, no caso, a gente, criou-se um lance assim: ‘a gente precisa conhecer esses caras, quem são esses caras?’, ‘Como é que eles são? É alto, é preto, é branco, como é que eles são?’. Enfim, ficava uma aura de mistério. E a gente foi aprendendo a lidar com essa surpresa de cada um. Era coisa de chegar na Europa e ter dois fãs da Alemanha com a bandeira do Brasil e os caras ouvindo o hino nacional brasileiro no talo dentro do carro (risos). E era pra agradar a gente, isso em 1989. Os caras seguiam o ônibus, iam em todos os shows da região e tudo. Era quase como um Grateful Dead.”

Entre o artista e a pessoa: dois mundos distintos

Em outro momento, o músico refletiu sobre a diferença entre a persona artística e a vida pessoal, fazendo referência a Pelé para ilustrar seu ponto:

“É igual o Pelé falava sobre o Edson e o Pelé, ele falava: ‘O Edson vai morrer um dia, o Pelé vai ser eterno’. Porque são duas coisas diferentes, o Pelé é uma outra coisa, é o cara dentro do campo. Todo artista dentro do palco e fora dele, é muito diferente. São dois ambientes, onde a gente entra numa outra realidade. Se você começa a acreditar muito naquilo e trazer isso pra esse mundo real, vamos dizer assim, você começa a perder contato com essa realidade.

E as coisas aconteceram, parece rápido hoje, mas aconteceram de uma forma gradual. Com o Nirvana, por exemplo, foi uma coisa da noite pro dia. E isso realmente é muito nocivo, porque você tá em um patamar e depois de um ou dois meses você tá com milhões na conta, todo mundo em cima, você não pode mais sair na rua. Isso realmente é ruim, mas com o Sepultura não foi assim, aqui no Brasil a galera não tava dando a mínima pra gente. A gente teve que fazer um sucesso lá fora pra todo mundo começar a perceber aqui no Brasil.

Eu lembro que no ‘Beneath The Remains‘ a gente saiu naquele New Musical Express, aquele importante jornal musical inglês. Tava lá os charts com os 10 mais vendidos na Inglaterra na época, então tá lá uma banda da época, em segundo lugar ‘Beneath The Remains‘ do Sepultura e em terceiro New Order. A galera daqui pirou, né? Como assim, quem são esses caras que estão na frente do New Order? A referência do que tava acontecendo começou a vir pra cá e teve o Rock In Rio 1991, né. Foi justamente a época do ‘Rust In Peace‘ do Megadeth, que os caras estavam no auge, Queensryche, Guns N’ Roses, Judas Priest, e a gente tocando com eles no estádio do Maracanã. Aquilo realmente mostrou o Sepultura pro Brasil. Passou na Globo, a imprensa falando: ‘Olha, essa banda brasileira tá tocando mais fora do que aqui’. Então, o Rock In Rio 1991 foi o evento que colocou o Sepultura aqui no Brasil.”

O desdém ao Heavy Metal no Brasil

Na sequência, Andreas Kisser abordou diretamente a falta de reconhecimento do Sepultura e do Heavy Metal dentro do Brasil. Segundo ele, mesmo com décadas de carreira e impacto internacional, o gênero ainda enfrenta resistência:

“Tinha um pouco de ‘foda-se’, mas tinha também um pouco de ficar incomodado por essa ignorada que a mídia dava. A gente tava fazendo uma coisa muito pioneira que, porra, depois de Carmen Miranda e Mutantes, sem exagero nenhum, o Sepultura foi a banda que levou a cultura brasileira pra fora e até hoje não é considerado parte da cultura brasileira. Sepultura não é chamado pra um Criança Esperança, por exemplo. Com todo respeito à diversidade, mas o Criança Esperança não é show de entretenimento, é o foco para um assunto muito mais sério, onde a sociedade tem que ser representada por um todo. A nação Metal não se sente representada num momento como esse. Porque não chamar um Angra, um Sepultura, um outro representante do Metal que possa trazer a atenção dessa nação Metal para que doem, para que participem do negócio?

‘Ah não, porque tá Sandy, tá Luiza Sonza, cara, e daí? O Brasil é isso! E é também o Heavy Metal. E porque eu amo tocar com músicos? Toquei com Ivete Sangalo, toquei com Samuel Rosa recentemente, toco com a galera porque é musica brasileira. O Heavy Metal faz parte disso. A gente não tem que ter vergonha nenhuma de tocar e ter essa conexão porque o Brasil é maior do que qualquer gosto musical, pessoal. O Sepultura tá aqui há 42 anos porque absorveu os estilos da música brasileira. Fomos influenciados por Chico Science, influenciados pelo Tropicalismo, pelos Novos Baianos, pelo Raimundos. Bandas que influenciaram o Sepultura a trazer mais uma brasilidade pra música. Carlinhos Brown, Timbalada, tudo isso tá na nossa música. Isso é Brasil. Agora, porque a gente canta em inglês a gente não representa uma banda brasileira?”

Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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