Violator: “Vivemos num momento de dissonância cognitiva total, em que um bolsonarista se sente antissistema”

O vocalista e baixista do Violator, Pedro “Poney”, concedeu recentemente uma entrevista a Brunno Salgado do canal Casal Metal. Durante a conversa, Brunno questionou Pedro sobre o lugar do Violator no combate ao fascismo e ao preconceito, além do papel das novas gerações de músicos na cena em meio a tudo isso. Confira a resposta de Pedro “Poney”:
“O que eu vejo é que a molecada é muito mais bem resolvida em certas coisas do que os velhos de 40, 50 anos, que são muito headbangers, mas que, às vezes, têm uma dificuldade danada com homossexualidade, com homofobia, preconceito, machismo ultrapassado. Eu sinto que a nova geração — e isso não é porque eles são bangers —, a nova geração em geral já está mais resolvida com isso, já entende mais as questões raciais, étnicas e tal. Eles terão os seus desafios, seus problemas, suas questões, e eu não estou colorindo um mundo de rosa e falando que já está tudo resolvido ou que eles vão resolver seus problemas. Mas essa parte preconceituosa do metal — eu sinto que os novos vão dando conta de arejar e resolver, simplesmente pelos novos que estão vindo. E, dentro dessa perspectiva, falando mais de antirracismo, de homofobia, desse tipo de coisa.
Com relação ao enfrentamento político ao fascismo, eu acho que a gente tem um desafio de todos. Eu acho que esse é um desafio real no mundo. Quem duvidava disso, eu acho que, nesse primeiro ano de governo Trump, já deixa muito claro o que é mesmo uma fascistização real — uma extrema-direita sem freios no poder, o que é que faz, do que é capaz. Eu acho que essa cortina de ilusão — até tipo, “Ah, são dois lados que não têm muita diferença.” —, eu acho que essa diferença está muito clara agora para ser negada. Nós estamos vivendo tempos muito perigosos e quem puder ter algum tipo de voz para expandir as suas divergências, eu acho que deve usá-la.
Eu vejo o Violator nesse sentido. Eu não tenho a ilusão de que o Violator é uma arma da classe trabalhadora que vai transformar a sociedade brasileira. Não, cara! O Brasil precisa de massas, o Brasil precisa do estádio do Iron Maiden do nosso lado. [Risos]. Não é o Violator que vai resolver porra nenhuma. E eu muito menos, eu só sou um metaleiro dando opinião por aí.
Mas, se nós pudermos usar o Violator para expressar o que nós consideramos justo, o que consideramos certo, nós vamos fazer, porque é um enfrentamento a esses canalhas, a esse neofascismo, a esse fundamentalismo religioso, é uma questão de dignidade humana. Eu sou pai de uma menina, e eu quero que ela cresça em um mundo, em países onde ela seja respeitada por ser mulher, por qualquer escolha que ela queira tomar na vida dela. E eu quero viver num país onde as pessoas tenham o mínimo de comida para se alimentar, onde não haja uma desigualdade tão grande. Me posicionar com relação a isso me parece uma coisa básica de dignidade humana.
O Thrash Metal sempre foi um estilo politizado. Nós não inventamos isso, nós aprendemos isso. Eu tenho o Nuclear Assault tatuado, porque para mim era o exemplo de banda que estava falando sobre a realidade, sobre as coisas e tal, com as limitações de serem metaleiros. Vão ser contraditórios, claro, vamos ser, ninguém está fazendo tese de doutorado, não, mas estamos falando sobre o mundo como a gente vê — o que é que a gente acha certo e o que é que achamos importante nos engajar e enfrentar.”
Quando questionado sobre o que pensa a respeito de metaleiros que “ouvem errado” músicas de bandas reconhecidamente politizadas — como o Pink Floyd ou até mesmo o próprio Violator —, ou seja, ouvintes que escutam as canções sem compreender suas letras e propostas, e derepente se “surpreendem” ao descobrir que suas bandas favoritas não compartilham da mesma corrente ideológica, Poney comentou:
“Cara, com o Violator eu me surpreenderia muito se existisse esse cidadão [fã] totalmente desavisado. [Risos]. Mas, independente disso, é uma coisa que está na raíz da banda, na demo Killer Instinct já tem ali uma tentativa de se escrever sobre a manipulação mental feita pela Igreja, sobre a escravização no capitalismo, sabe? E feito por meninos do ensino médio. Mas já tinha isso de ‘Vamos falar sobre as mazelas do mundo.’ E isso é uma história, não é uma virada recente, não é uma mudança, é uma longa história em desenvolvimento.
Então, eu falaria para uma pessoa como essa que é muito importante que ela revise os conceitos dela, porque a música e a mensagem estão completamente conectadas, mesmo que seja uma coisa em inglês. O Thrash Metal é o som da resistência, dos fracos contra os fortes, é um som da união, é um som de uma energia violenta contra o que está estabelecido, contra o poder — mesmo que você não entenda isso de uma forma sociológica, não importa, isso está na própria ontologia, na própria existência do som; assim como outros estilos carregam outras coisas, o Power Metal melódico vai carregar a grandiosidade do guerreiro, o poder, a superação do indivíduo e tal, você tem uma coisa ali da força, da superação, e que é diferente da energia do Thrash Metal.
A energia do Thrash Metal é da destruição. Da forma como eu vejo, só faz o sentido o Thrash Metal contra o autoritarismo, contra a autoridade, que seja pela destruição do modo opressor de vida que a gente vive, e isso é muito claro. Mas é foda, vivemos num momento de dissonância cognitiva total em que um bolsonarista se sente atissistema. Eles tiveram o Paulo Guedes como o grande ultraliberal na fazenda, servindo tudo, liberando as bets no Brasil, servindo a todos os interesses mais escancaradamente capitalistas, e querendo transformar o Brasil numa fazenda, e eles de alguma forma se consideram antissistema porque sei lá, são contra a ditadura do judiciário, ou contra a mídia, que é na verdade uma mídia burguesa, uma mídia liberal e tal.”
Veja a entrevista na íntegra abaixo:
Cara é uma pena uma banda de metal ser esquerda, ou melhor, ficar se posicionando sobre. Queima o filme da banda, se tem filme pra queimar. Mais uns coitados que nao aparecem em lugar nenhum e querem oacrar, mas isso ja apareceu tanto e nunca deu certo pra ninguem