Violator: “Unholy Retribution também é sobre a masculinidade tóxica de uma extrema direita ressentida”

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O vocalista do Violator, Pedro Poney, concedeu uma nova entrevista aocanal Undergrounds Voice para falar sobre o novo álbum “Unholy Retribution”, que estreou em 5 de setembro de 2025 através do selo Kill Again Records. Poney explicou que o novo registro é uma continuação de “The Hidden Face of Death”, EP lançado em 2017 e, comentou sobre o que mudou no estilo de som do Violator. Além disso, ele citou algumas referências presentes no novo álbum:

“Unholy Retribution é uma continuação do EP de ‘The Hidden Face of Death’, que ele já mostra uma leve mudança no estilo do Violator — de ser uma coisa mais… é um giro primitivo, é um giro que as referências passam de serem mais do Reign In Blood mais para o Hell Awaits; eu acho que vai um pouco para trás nos anos do Thrash Metal. Então em vez de fazermos aquela coisa 1989, up energy, mosh, gang vocals… nós vamos para uma coisa mais com influências de Possessed, até mesmo de proto Death metal, eu diria.

Eu acho que tem a ver com o fato de estarmos envelhecendo, está todo mundo com quarenta anos, e aquele Thrash Metal de muita festa, energia, ‘addicted to mosh’, é muito da juventude, combina com ser jovem. Mas definitivamente nós queríamos fazer um disco de Thrash Metal. É side thrash, side metal, não é uma ruptura com o estilo. É um reforço agressivo, como que a gente consegue fazer alguma coisa que seja ainda mais violenta, mais agressiva dentro do Thrash Metal. É sempre esse desafio, e é muito orientado ao riff.

Eu acho que o Violator é uma banda de Thrash Metal que coloca mesmo a ênfase no riff. Vai todo mundo tocando atrás dos riffs de guitarra, e é para ele que a música existe. Ele é a base, é a unidade do Heavy Metal nosso entendimento. Então é muito direcionado ao riff.”

O entrevistador observou que o Violator também é conhecido por suas músicas de protesto e por suas opiniões bastante fortes. Perguntado se o estado atual das coisas no mundo acaba se tornando combustível para a criatividade da banda, Pedro Poney respondeu:

“Sim. Eu acho que o melhor Thrash Metal é aquele que é feito sobre a realidade. É m estilo que tem um pé no Punk Rock, e veio do Punk de certa forma, não apenas, mas veio. E o punk é isso, é mundo real, é mundo verdadeiro. São os dramas, as violências, o desespero do mundo real. A força vem daí, e não de imaginar um mundo fantástico e tal, que eu acho que tem o seu espaço no Heavy Metal também em outras formas, mas eu acho que a força do Thrash está nesse contato com o seu tempo, sabe? E eu acho que isso é uma coisa que eu aprendi com o Violator, porque eu acho que sempre, desde o começo, desde a primeira demo de 2002, Killer Extinct, sempre teve uma tentativa de fazer uma coisa política, uma coisa que falasse dos dramas do mundo real, digamos assim. É rum pra caramba essa demo, viu cara? [Risos] Ruim demais. A gente tinha dezessete anos, no último ano do ensino médio. E Killer Extintc já é uma coisa fazendo uma referência ao livro do Machado de Assis, que nós fomos obrigados a ler na escola pro vestibular, mas quer tinha umma coisa da competição de todos contra todos, e uma crítica ao capitalismo, e tal. Eu já tinho isso.

Mas se você pegar o Violent Mosh é uma coisa mais celebração do Thrash — Chemical Assault tem uma coisa meio fantasiosa, Mad Max, assim, meio que uma distopia oitentista que a gente gostava muito mas que não era realidade ali no começo dos anos 2000, é realidade agora. A ironia é essa. O medo da guerra nuclear é real agora em 2026. As letras do Chemical Assault são políticas, mas tem essa aura. Depois, a gente foi fazendo cada vez um giro pro mundo real. E Scenarios Of Brutality, que é o outro álbum, ele tem muito isso, tanto é que ele foi um disco quase profético, ele previu a ascensão de um neofascismo no Brasil, de uma extrema direita militante, e a gente nunca tinha vivido isso desde o final dos anos setenta. O Brasil vivia sempre a redemocratização, o clima de que ‘o amanhã será melhor’ mesmo que hoje esteja ruim, ‘o melhor é a democracia mesmo’, ‘a disputa se dá democraticamente’ e tal. E você tem de 2013 para cá, uma ascensão de uma extrema direita orgulhosa, violenta, neofascista mesmo, que a gente nunca tinha visto na nossa geração. E o Scenarios Of Brutality de alguma forma prevê essa noite que o Brasil viveria. Há dez anos, uma década, quem foi jovem nesse momento sentiu muito mais do que eu, que já estava adulto.

Então, mesmo o Unholy Retribution, que tem essa estética no sentido de demoníaca, satânica, infernal, não necessariamente tem um elemento fantasioso Heavy Metal nisso, mas as músicas são todas metáforas de conflitos reais. É sobre Palestina, é sobre neocolonialismo, o neoimperialismo dos trumpistas, é sobre até a masculinidade tóxica dessa extrema direita ressentida pra caramba, puro ressentimento. Tudo isso está ali nos temas das letras — os médicos da pandemia no Brasil, No Brasil morrreram 700.000 pessoas na pandemia, cara, 700.000. A gente esquece o que é que é isso, mas era tipo assim, amanhecia e já tinha contagem de mortos, 3.000, 4.000 mortos em um dia. Uma coisa absurda que a gente esqueceu… o lema do brasileiro é vida que segue, para o bem ou para o mal, tá ligado? Às vezes muito para o mal, mas é ‘vida que segue, vida que segue’. E isso foi um projeto da extrema direita no poder, não foi uma calamidade da natureza, um acidente, foi projeto mesmo, enfim.

Então, a realidade, a crueldade da realidade, é sem dúvida, motor para a raiva do Violator. Tem que ser um som que está com ódio, que está mandando se foder. No Brasil a gente vive um contexto neopentecostal, de fundamentalismo cristão, evangélico, dominando. Um puritanismo bizarro dominando a mente dos jovens, dos velhos e de todo mundo. Até por isso a gente quis fazer uma coisa… é cruz de cabeça para baixo, é Heavy Metal mesmo, é isso. É para agredir, não é para achar bonito, não é para os seus colegas de trabalho olharem e falarem assim: ‘Pô, que legal!’— é pros seus colegas de trabalho falarem: ‘Meu Deus, que isso? Que sinistro!’ [Risos]”

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