Vale a Pena Ouvir de Novo: Iced Earth — “The Dark Saga” (1996)

Lançado em julho de 1996, The Dark Saga é o quarto álbum de inéditas dos norte-americanos do Iced Earth. Após a boa recepção de Burnt Offerings, trabalho que fez a banda avançar significativamente em sua trajetória, o grupo precisava acertar novamente no disco seguinte.
O resultado foi The Dark Saga, álbum conceitual gravado entre janeiro e fevereiro de 1996 no Morrisound Studios, em Tampa, na Flórida. Produzido por Jim Morris e Jon Schaffer, o disco chegou ao mercado através da gravadora alemã Century Media.
Este é o segundo trabalho do grupo com Matt Barlow nos vocais e ajudou a consolidá-lo como a voz definitiva do Iced Earth. Ao mesmo tempo, o álbum trouxe uma abordagem mais melódica em relação ao antecessor, sem abandonar completamente o peso característico da banda.
Spawn invade o universo do Iced Earth
Com dez faixas distribuídas em aproximadamente 44 minutos, The Dark Saga funciona como uma adaptação musical da jornada espiritual de Al Simmons e seu alter ego, Spawn, explorando uma história certamente marcada por tormento, sofrimento, vingança e questionamentos sobre redenção.
O disco recebeu o aval de Todd McFarlane, criador de Spawn, que autorizou o uso das artes originais do personagem na capa e no encarte.
Baseado no universo criado por McFarlane, o álbum acompanha a história de Al Simmons, agente da CIA traído por seu superior, Jason Wynn, que ordena sua morte. Após ser queimado vivo, Simmons é enviado ao inferno.
Desesperado para rever sua esposa, Wanda, ele faz um pacto com o demônio Malebolgia: entrega sua alma em troca da oportunidade de voltar ao mundo dos vivos.
O pacto e a desilusão
Cinco anos depois, Simmons retorna como Spawn, o Soldado do Inferno, mas encontra uma realidade completamente diferente daquela que deixou para trás. Wanda está casada com seu melhor amigo, Terry, e os dois têm uma filha.
A narrativa do álbum pode ser dividida em três grandes momentos. O primeiro começa em “Dark Saga”, passa por “I Died for You” e “Violate” e termina com “The Hunter”.
Essas quatro faixas retratam o desespero de Simmons diante das consequências do pacto. Ele vendeu a própria alma para reencontrar Wanda, mas descobre que o tempo seguiu seu curso e que a vida da esposa continuou sem ele.
A perda da humanidade
A segunda parte mostra Spawn percebendo que não voltou à Terra como um homem livre. Pelo contrário: tornou-se escravo de seu criador, que debocha de seu sofrimento e pretende utilizá-lo como líder do exército do inferno.
Revoltado, o personagem rejeita esse destino e direciona sua fúria para a vingança, ao mesmo tempo em que passa a proteger os sobreviventes e marginalizados de Rat City.
Essa etapa começa em “The Last Laugh”, atravessa “Depths of Hell” e termina com “Vengeance Is Mine”, uma das faixas mais agressivas e marcantes do álbum.
A trilogia do sofrimento
O encerramento assume um tom mais melancólico e emocional através de “Scarred”, “Slave to the Dark” e “A Question of Heaven”.
Esta última, com quase oito minutos de duração, tornou-se uma das composições mais importantes da carreira do Iced Earth. Nela, Spawn direciona uma prece angustiada a Deus, questionando por que foi abandonado e se ainda existe alguma possibilidade de redenção.
Há alguma chance de sua alma atormentada encontrar paz? Ou seu sofrimento será eterno? O disco termina deixando justamente essa sensação de dúvida e desamparo.
Mudanças de formação durante as gravações
A banda também precisou lidar com ajustes internos durante e após as sessões de gravação. O baixista Dave Abell deixou o grupo e foi substituído por Keith Menser, que permaneceria por pouco tempo antes da entrada de James MacDonough.
O baterista Mark Prator também saiu após as gravações, sendo posteriormente substituído por Brent Smedley, músico que se tornaria presença recorrente em diferentes períodos da história do Iced Earth.
Apesar das mudanças, a formação responsável pelo álbum conseguiu entregar um trabalho bastante coeso, especialmente pela química entre os vocais de Matt Barlow e as guitarras de Jon Schaffer e Randall Shawver.
Um disco que dividiu opiniões
Embora The Dark Saga tenha recebido críticas positivas de publicações como Metal Storm, Chronicles of Chaos e AllMusic, o álbum também dividiu parte da base de fãs.
Enquanto alguns elogiaram a atmosfera sombria e a consolidação de Barlow como vocalista, uma parcela mais tradicional reclamou da redução do peso e do aumento das melodias.
De fato, existe uma diferença clara entre Burnt Offerings e The Dark Saga. O álbum de 1996 apresenta uma sonoridade mais acessível e melódica, deixando parte da agressividade do trabalho anterior em segundo plano.
Entretanto, o tempo mostrou que o alvo foi acertado. The Dark Saga conquistou fãs, tornou-se um dos discos mais importantes da carreira do Iced Earth, assim como se estabeleceu como um dos grandes trabalhos da banda dentro do Power Metal e do Heavy Metal.
Faixas como “Violate”, “Vengeance Is Mine”, “I Died for You” e principalmente “A Question of Heaven” permanecem entre os momentos mais celebrados daquele período.
Opiniões da crítica
- “Um álbum sólido e um dos melhores da banda.”
- “Impressionante do início ao fim.”
— Eduardo Rivadavia, AllMusic - “O estilo mais grave de Barlow também ajuda a conferir mais emoção às músicas.”
— Mike Stagno, Sputnikmusic
Algumas curiosidades sobre “The Dark Saga”
- A arte de Todd McFarlane ajudou o disco a alcançar um público diferente do habitual, permitindo que The Dark Saga também fosse comercializado em lojas especializadas em quadrinhos.
- Durante a divulgação, o Iced Earth participou de diversas convenções e eventos ligados às HQs, aproveitando diretamente a relação do álbum com o universo de Spawn.
- Inicialmente, Todd McFarlane não demonstrou grande interesse pela proposta apresentada pela banda. Ainda assim, autorizou o projeto e, posteriormente, manifestou satisfação com o resultado final.
- Na turnê de divulgação, o Iced Earth também realizou alguns de seus primeiros shows como atração principal na Alemanha.
Integrantes
- Matt Barlow — vocais
- Jon Schaffer — guitarras
- Randall Shawver — guitarras
- Dave Abell — baixo
- Mark Prator — bateria e backing vocals
Faixas
- “Dark Saga”
- “I Died for You”
- “Violate”
- “The Hunter”
- “The Last Laugh”
- “Depths of Hell”
- “Vengeance Is Mine”
- “Scarred”
- “Slave to the Dark”
- “A Question of Heaven”
Colaboração: Daniel Dante