Roger Waters pede votos a Lula, insulta Bolsonaro e faz acusações sem provas que vão da Amazônia à Marielle

O músico britânico Roger Waters, ex-integrante e um dos principais responsáveis pela trajetória artística do Pink Floyd, voltou a provocar polêmica ao publicar um vídeo em suas redes sociais, nesta terça-feira, 20 de outubro, manifestando apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na gravação, o baixista não economizou insultos contra Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo, 25 de outubro. Entretanto, o conteúdo não se limita aos ataques pessoais: o músico também apresenta uma série de acusações graves sem oferecer evidências que as sustentem.
Ao comentar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Waters chamou o senador de “filho de um babaca”, acrescentando que ele próprio seria um babaca, pertencente a uma longa linhagem de pessoas igualmente desprezíveis. Em seguida, afirmou que o político estaria em conluio com os EUA, que pretendem roubar as riquezas brasileiras, incluindo a Floresta Amazônica e reservas minerais. O músico foi além, alegando que esses recursos seriam entregues à família do presidente norte-americano Donald Trump e ao empresário Jared Kushner. Apesar da gravidade das acusações, não apresentou documentos, investigações ou qualquer elemento concreto para demonstrar a existência desse suposto plano.
Em contrapartida, a avaliação de Waters sobre Lula foi bastante diferente. O músico afirmou conhecer pessoalmente o presidente brasileiro e apresentou uma justificativa curiosa para considerá-lo honesto:
“Eu já conheci Lula da Silva. Olhei nos olhos dele. Esse é um homem honesto. E é um homem que trabalhou por vocês durante toda a vida, e vocês deveriam permitir que ele continue trabalhando por vocês.”
A declaração representa uma avaliação pessoal do artista, mas certamente não constitui comprovação da honestidade de qualquer figura pública. A integridade de um governante exige uma análise de sua trajetória e de seus atos, não podendo ser estabelecida pela impressão obtida durante um encontro.
De uma avó montada em um jumento ao assassinato de Marielle Franco
Outro momento da gravação chama a atenção pela maneira como Waters procura incentivar o comparecimento às urnas. Após defender uma participação de 90%, 95% ou até 100% do eleitorado, o músico utilizou uma situação bastante peculiar para ilustrar seu apelo:
“Se vocês têm uma avó que não consegue se levantar da cadeira para ir até a seção eleitoral, carreguem-na! Coloquem-na em um burro, coloquem-na em um carro, levem-na até a seção eleitoral e votem, votem, votem!”
A referência ao transporte de uma idosa em um jumento pode ser entendida como uma hipérbole para enfatizar a importância do comparecimento eleitoral. Ainda assim, a escolha da imagem contrasta com o tom de urgência política que o artista procura transmitir. O comparecimento no primeiro turno foi de aproximadamente 79%, segundo dados da Justiça Eleitoral.
Contudo, a declaração mais delicada veio no encerramento do vídeo, quando Waters mencionou o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido em março de 2018:
“Por favor, por favor, por favor, lembrem-se de que eles mataram minha amiga Marielle Franco. Eles a assassinaram. Vocês se lembram disso? Eu me lembro. Jamais vou esquecer. Por Marielle Franco, vão votar no domingo. Votem no Lula.”
A afirmação merece uma contextualização indispensável. Waters não esclarece a quem se refere ao utilizar a palavra “eles”, mas a sequência de ataques aos Bolsonaro pode produzir uma associação ao crime. Ocorre que, em fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão como mandantes do crime, além de responsabilizar outros envolvidos. Os irmãos Brazão historicamente atuam de forma transversal no Centrão e com grupos políticos e clãs do Rio de Janeiro — como MDB, União Brasil, PL e o grupo de Eduardo Paes (PSD), além de apoios pontuais que incluem até mesmo o PT.
Quanto à referência a Marielle Franco como sua amiga, Waters possui um histórico documentado de homenagens à vereadora. A mais notória durante uma apresentação no Rio de Janeiro, em outubro de 2018, quando recebeu familiares dela no palco. Isso demonstra sua ligação com a causa defendida por Marielle, mas não existe uma amizade pessoal anterior ao assassinato como ele diz no vídeo.
Veja a declaração na íntegra:
Os ataques recentes a Ozzy Osbourne e James Hetfield
O novo episódio também se soma a outras declarações controversas de Roger Waters envolvendo personalidades do Rock e do Heavy Metal. Em agosto de 2025, poucas semanas após a morte de Ozzy Osbourne, o músico desmereceu o trabalho do vocalista e afirmou nunca ter se interessado pela música do Black Sabbath. Suas palavras provocaram uma reação contundente de Jack Osbourne, filho de Ozzy, que criticou publicamente a postura do ex-integrante do Pink Floyd.
Mais recentemente, em outubro de 2026, Waters também atacou James Hetfield, vocalista e guitarrista do Metallica, após o músico declarar durante uma apresentação em Las Vegas que sua banda não estava ali para influenciar politicamente os fãs, mas para oferecer música pesada, energia e entretenimento. Em resposta, Waters chamou Hetfield de babaca, questionou sua inteligência, afirmou que ele não era músico e chegou a classificá-lo como um ninguém.
As posições políticas de Roger Waters fazem parte de sua trajetória artística há décadas e não representam, por si só, qualquer novidade. Entretanto, a liberdade de manifestação também envolve a responsabilidade sobre aquilo que se apresenta publicamente como fato. Há diferenças importantes entre expressar uma convicção política, fazer uma acusação sustentada por evidências e reproduzir alegações sem comprovação. Quando o discurso envolve supostos planos internacionais para roubar riquezas de um país ou insinuações sobre os responsáveis por um assassinato, essas distinções tornam-se especialmente necessárias.
O episódio também reacende uma discussão recorrente entre os fãs de Rock e Heavy Metal: qual é o papel de artistas que construíram suas carreiras questionando autoridades e estruturas de poder quando passam a participar diretamente de campanhas eleitorais? E até que ponto a contundência de suas manifestações políticas permanece acompanhada do mesmo rigor na apresentação dos fatos?