Resenha: Yes – “Aurora (2026)”

A Riqueza da Maturidade: Yes Entrega Elegância e Musicalidade em “Aurora”

O Peso da História e o Desapego Necessário

Acompanhar a trajetória do Yes em 2026 exige do ouvinte uma postura de desarmamento. Tentar mensurar cada novo passo da lendária instituição do Rock Progressivo a partir do prisma inalcançável de clássicos setentistas como “Close To The Edge” é uma armadilha injusta, já que “Aurora” surge separado dessas obras por pelo menos quinze álbuns de estúdio e mais de cinco décadas de profundas transformações.

Parte do público ainda carrega o desgaste gerado por registros do passado recente, como “Heaven & Earth” (2014), o que cria uma barreira injustificada e impede que muitos mergulhem a fundo na atual fase do grupo. Aqueles que superam o preconceito encontram em “Aurora” um álbum repleto de bom gosto, requinte nos arranjos e um nível de musicalidade que apenas músicos com tamanho gabarito conseguem entregar.

No Brasil, os colecionadores e entusiastas do estilo contam com o apoio e o lançamento físico em CD via Shinigami Records, com duas faixas bônus e em uma bela edição em formato Digipack acompanhada por um interessante trabalho gráfico, garantindo a chegada do material ao mercado nacional com o capricho que a obra merece.

Estabilidade Inédita e a Liderança Incansável de Steve Howe

Um dos grandes trunfos deste lançamento é a consolidação de sua formação. Com três álbuns de inéditas lançados em um curto intervalo de cinco anos, a aliança entre Steve Howe, Jon Davison, Geoff Downes, Billy Sherwood e Jay Schellen demonstra um entrosamento que reflete diretamente na coesão do repertório. Longe de soar como um mero exercício de nostalgia ou de tentar perseguir a sonoridade comercial dos anos 1980, o quinteto atua como uma unidade segura de sua própria identidade atual.

O veterano Steve Howe, além de assinar a produção com extremo apuro, continua dando aulas de elegância nas guitarras. Transitando com fluidez entre passagens violadas, pontuações de aço e fraseados limpos de inspiração jazzística, Howe lidera a banda sem precisar recorrer a virtuosismos exagerados. Ao mesmo tempo, Jon Davison se firma cada vez mais como peça central na composição e nos arranjos vocais, enquanto os teclados de Geoff Downes ganham mais espaço e presença no mix. A cozinha mantida por Sherwood no baixo e Schellen na bateria sustenta com precisão o universo sinfônico do grupo.

Os Grandes Destaques de “Aurora”

Longe de ser um trabalho apressado, “Aurora” revela seus encantos em uma audição atenta, entregando momentos que figuram entre os mais inspirados da banda nos últimos anos:

“Aurora”: A faixa-título é um verdadeiro monumento de abertura. Trazendo um clima contemplativo que remete ao Rock Sinfônico mais nobre do grupo, a composição se destaca pelas linhas inspiradas de guitarra de Howe com um sutil toque jazzístico, arranjos orquestrais primorosos e harmonias vocais cristalinas que definem perfeitamente o espírito do disco.

“Countermovement”: Sem dúvida a melhor e mais ambiciosa faixa do álbum. Trata-se de uma suíte épica de quase catorze minutos dividida em seções que flertam diretamente com o ápice do Rock Progressivo. Entre mudanças de andamento, passagens instrumentais de bom gosto e citações sutis que remetem com elegância à própria história do Yes, a música evidencia o topo do talento composicional do grupo considerando seu atual momento.

“Emotional Intelligence”: Uma balada extremamente inspirada e sensível. A faixa se destaca pela delicadeza de seus arranjos, onde os vocais de Jon Davison encaixam com perfeição sobre uma base instrumental calorosa e melódica, figurando como um dos momentos mais bonitos e emotivos de todo o registro.

Ainda valem menções especiais para a bela “Ariadne”, rica em arranjos orquestrais sob a regência do maestro Vladimir Martinka junto à Czech National Symphony Orchestra, e para a enérgica “All Hands on Deck”, que traz um lado mais enfático.

Veredito

“Aurora” não tem a pretensão de reescrever a história do Rock Progressivo, e nem precisa. O Yes entrega um disco honesto, elegante, refinado e recheado de grandes momentos que em grande parte honram o nome impresso na capa. Se o álbum serve como prova de terreno seguro para esta formação, a tendência é que o grupo siga lapidando essa sonoridade com ainda mais propriedade caso novos álbuns venham a surgir. Para quem aprecia música feita com alma, esmero técnico e maturidade, trata-se de uma audição certamente recomendada.

Tracklist e Ficha Técnica

Tracklist:

  1. Aurora (7:27)
  2. Turnaround Situation (5:50)
  3. Love Lies Dreaming (6:24)
  4. Countermovement (13:48)
  5. Ariadne (6:18)
  6. All Hands on Deck (3:04)
  7. Outside the Box (4:20)
  8. Emotional Intelligence (3:30)
  9. Jambustin (Bonus Track) (4:24)
  10. Watching the River Roll (Bonus Track) (4:42)

Formação / Line-up:
Steve Howe: Guitarras e Vocais
Geoff Downes: Teclados e Vocais
Billy Sherwood: Baixo e Vocais
Jon Davison: Vocais Principais, Violão, Teclados e Percussão
Jay Schellen: Bateria

Músicos Convidados:
Czech National Symphony Orchestra (Regência de Vladimir Martinka)

Ficha Técnica:
Ano de Lançamento: 12 de Junho de 2026
Gênero: Rock Progressivo / Rock Sinfônico
Produção: Steve Howe
Arte de Capa: Roger Dean
Gravadora Internacional: InsideOutMusic
Lançamento Nacional / Edição Física: Shinigami Records (Formato Digipack)

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