Resenha: Valiant Sentinel – “Neverealm” (2026)

Nos últimos anos, diversos projetos surgiram sob o formato de one man bands, mas muitos deles evoluíram naturalmente para formações completas assim que o idealizador encontrou parceiros à altura. Com o Valiant Sentinel, o caminho foi semelhante. Se no debut autointitulado de 2021 o multi-instrumentista Dimitris Skodras conduzia praticamente tudo sozinho, cinco anos depois o cenário mudou consideravelmente. Em Neverealm, o projeto se apresenta como uma banda sólida, melhor estruturada e com identidade mais definida.

Formação consolidada e participações de peso

Lançado em 16 de janeiro pelo selo Theogonia Records, o novo álbum mostra Dimitris Skodras focado apenas em guitarras e teclados, enquanto Panos Manikas assume o baixo e Veandok fica responsável pelos vocais. Nas gravações de bateria, o grupo contou com ninguém menos que Frederik Ehmke, do Blind Guardian, o que por si só já eleva o nível técnico do trabalho. Além disso, a formação ao vivo conta com John Allagiannis na bateria e Nikos Sarbanis como segundo guitarrista, reforçando a solidez do conjunto.

O disco apresenta nove faixas muito bem construídas, que transitam entre o Heavy Metal e o Power Metal com naturalidade. Em diversos momentos, o material flerta com o Speed Metal clássico, mas mesmo nessas passagens o grupo preserva sua identidade sem parecer preso a um único molde estilístico.

Photo: Elisabeth Papagiannidi

Vocais versáteis e convidados marcantes

Veandok surge como um dos grandes trunfos do álbum. Assim, o vocalista alterna com facilidade entre linhas limpas e momentos mais agressivos, sempre priorizando melodias fortes quando o Power Metal pede destaque. Essa versatilidade ganha ainda mais força com duas participações especiais que se transformam em pontos altos do disco.

Na faixa-título, a presença da vocalista holandesa Laura Guldemond, do Burning Witches, cria um dueto envolvente e poderoso. Já em Arch Nemesis, o encontro com Zak Stevens, do Savatage, resulta em um dos momentos mais memoráveis do álbum, combinando peso, velocidade e melodias marcantes, mas tudo isso com performances exemplares.

Peso e energia acima da média

Embora o álbum esteja firmemente ancorado no Heavy/Power, a pegada de Frederik Ehmke somada aos riffs e linhas afiadas de Dimitris Skodras adiciona uma camada extra de peso ao material. Mesmo nas faixas menos velozes, a intensidade nunca diminui, e o disco mantém uma energia constante do início ao fim.

A abertura com War in Heaven estabelece o tom do trabalho com um Power Metal clássico, guiado por bumbos duplos e um refrão forte. Logo depois, a faixa-título Neverealm surge como um dos grandes destaques, tanto pela agressividade quanto pela construção e pelo dueto com Laura Guldemond.

Mirkwood Forest apresenta uma abordagem mais épica e cadenciada, com trechos acústicos muito bem encaixados e um solo inspirado de Dimitris Skodras. Já The Underdark, segunda faixa mais longa do disco, começa de forma climática e misteriosa antes de explodir em peso e energia. O refrão marcante e os coros épicos no meio da música transformam a faixa em um dos pontos altos do álbum.

O bloco inspirado no Blind Guardian

O pequeno interlúdio To Mend The Ring remete inegavelmente às fases Tales From The Twilight World e Somewhere Far Beyond do Blind Guardian. Essa influência se estende para Elden Lord e Come What May, formando um bloco que poderia facilmente figurar em um disco de Hansi Kürsch e companhia.

Enquanto Elden Lord aposta na velocidade e na agressividade, lembrando o lado mais visceral da banda alemã, Come What May segue uma linha mais melódica e emotiva, próxima de clássicos como Lord Of The Rings ou The Bard’s Song.

Um encerramento épico e convincente

Em Arch Nemesis, o dueto entre Veandok e Zak Stevens entrega exatamente o que se espera: peso, velocidade e melodias cativantes. A química entre os dois vocalistas funciona de forma impecável.

O álbum se encerra com The Battle Of Hornburg, a faixa mais longa do trabalho, com mais de oito minutos de atmosfera épica e um mergulho nos clichês mais nobres do Heavy/Power oitentista. É um final grandioso, mas coerente com a proposta do disco.

Photo: Iro Kalligeri

A força do Power Metal grego

A Grécia vem se consolidando como um polo importante para o Power Metal contemporâneo, especialmente no sentido de renovar o estilo. Assim como o Heavy Metal teve o movimento NWOTHM resgatando suas raízes no início dos anos 2000, o Power Metal agora busca uma nova geração menos teatral e mais conectada à essência do gênero. Não precisamos de mais Sabaton’s ou Powerwolf’s…

Nesse cenário, o país já revelou nomes como Silent Winter, Warrior Path, Emerald Sun e Achelous, além de veteranos como Firewind, InnerWish e Sacred Outcry. O Valiant Sentinel surge como mais uma peça importante nesse movimento de revitalização que ganha força principalmente na Europa.

Conclusão

Comparado ao disco de estreia de 2021, Neverealm mostra uma evolução clara em composição, identidade e execução. O Valiant Sentinel apresenta talento, coesão e um potencial de crescimento evidente. Mesmo no início do ano, o álbum já soa como presença quase garantida em listas de melhores do Power Metal de 2026.

Trata-se de uma aposta segura para fãs do estilo e, especialmente, para quem prefere um Power Metal mais pesado e menos açucarado. Aqui, o peso fala mais alto do que a estética festiva — e isso faz toda a diferença.

Nota: 9,3

Integrantes:

  • Dimitris Skodras (guitarra e teclado)
  • Panos Manikas (baixo)
  • Veandok (vocal)
  • Frederik Ehmke (bateria – músico convidado)

Faixas:

  • 01 War in Heaven
  • 02 Neverealm (feat. Laura Guldemond)
  • 03 Mirkwood Forest
  • 04 The Underdark
  • 05 To Mend The Ring
  • 06 Elden Lord
  • 07 Come What May
  • 08 Arch Nêmesis (feat. Zak Stevens)
  • 09 The Battle Of Hornburg
Fabio Reis
Paulistano, nascido em 1981, fã de Rock e Heavy Metal desde criança. Idealizador, fundador e criador do Mundo Metal. Valoriza tanto os clássicos como as novas gerações. Assíduo frequentador de shows e se considera um organismo movido à música.
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