Resenha: Toxikull — “Turbulence” (2026)

A todo momento somos surpreendidos por comentários de fãs reclamando das bandas que promovem o resgate do Heavy Metal oitentista. As falas são quase sempre as mesmas: “não tem originalidade”, “parece um clone”, “música datada” e por aí vai. E, toda vez que me deparo com um álbum como este dos portugueses do Toxikull, só consigo pensar que não poderia discordar mais dessas afirmações.
Nem sempre o Heavy Metal precisa ser inovador, revolucionário, ousado ou experimental. Em tempos nos quais, principalmente, os gêneros mais extremos assumem a missão de alcançar o “próximo nível” e se colocam cada vez mais à prova em termos de evolução e misturas, o Heavy Metal tradicional surge como um contraponto a tudo isso.
Um disco como “Turbulence”, quarto registro de estúdio do quarteto de Lisboa, nos lembra do básico: não é necessário reinventar a roda para divertir, empolgar e nos transportar de volta a um passado glorioso, mesmo que apenas por alguns instantes. E é justamente disso que se trata a música do Toxikull e de tantas outras bandas que abraçam com afinco e paixão esse tipo de proposta.
Um retorno consciente às raízes
Em meio a uma enxurrada de lançamentos dos mais variados, na qual inúmeras bandas tentam soar diferentes e, em muitos casos, acabam se distanciando dos principais pilares de sustentação do Metal, a NWOTHM certamente promove uma verdadeira volta às raízes. O movimento funciona hoje como um chamado para que headbangers de todas as partes não se esqueçam de onde tudo começou.
Dois anos depois de apresentar o excelente “Under The Southern Light” (2024), o Toxikull retorna ao front com “Turbulence”. O álbum chegou em 24 de abril através da Dying Victims Productions, possui dez faixas e pouco mais de 38 minutos de duração. Tempo suficiente para emocionar, despertar aquele inevitável sentimento de nostalgia e, é claro, mostrar ao ouvinte que o Heavy Metal tradicional e purista continua forte e poderoso.
Apesar de enxuta, a tracklist apresenta bastante variedade. Habilmente, o quarteto transita entre o Hard Rock, o Hard n’ Heavy, o Heavy Metal clássico e o Speed Metal. Há explosões de energia, faixas mais contidas, outras com clima festeiro e até uma belíssima balada. Tudo isso aparece em composições diretas, sustentadas por ótimos riffs, solos classudos, refrões marcantes e construções musicais que não apenas divertem, mas também satisfazem o ouvinte.
Melodia primeiro, peso na sequência
Ao contrário do que se poderia esperar, a trinca inicial abre o disco de maneira mais contida, apostando em músicas mais cativantes do que propriamente agressivas. “Midnight Fire” apresenta um refrão altamente viciante; “Turbulence” conquista justamente pela simplicidade; enquanto “Dragon Magic”, com suas cavalgadas e os vocais altíssimos de Lex Thunder, remete ao Judas Priest do final dos anos 1970, especialmente de discos como “Stained Class” e “Killing Machine”.
“Blessed By The Night” representa o primeiro ataque realmente potente de Heavy Metal. Guitarras encorpadas, riffs clássicos e linhas vocais de muito bom gosto fazem com que seja fácil lembrar de nomes como Jag Panzer, Tokyo Blade e Saxon, entre outros. Já em “Dying Star”, os portugueses diminuem o ritmo, baixam a adrenalina e nos presenteiam com uma balada à la Manowar. Tudo para, logo em seguida, fazer a audição colidir energia e fúria com a explosiva “Strike Again”, um Speed Metal visceral que chega para abrir a melhor sequência do disco.
Como o próprio nome entrega, “Hard To Break” é um Hard n’ Heavy pulsante que poderia facilmente ter sido um hit do Twisted Sister nos anos 1980. “Burning Spark” segue pela mesma estrada, mas desta vez remetendo a nomes como W.A.S.P. e Quiet Riot. O final do álbum ainda reserva duas de suas melhores composições: a certeira “King Of The Hammer” e a porrada devastadora que atende pelo nome de “Flames Of Glory”.
Sem vergonha de ser Heavy Metal
“Turbulence” é um disco maduro e consistente, que equilibra com evidente eficiência seus momentos mais melódicos com ataques de Heavy/Speed Metal de maior poderio. Não extrapola sua proposta, não tenta reinventar o Heavy Metal e tampouco subvertê-lo. O Toxikull é o que é e não demonstra qualquer vergonha disso — o que é ótimo.
Trata-se de um disco recomendado aos saudosistas, entusiastas e amantes dos primórdios da música pesada. Talvez não atenda aos anseios de ouvintes que procuram grandes rupturas ou experiências revolucionárias, mas inegavelmente irá divertir aqueles que simplesmente querem uma dose extra de música de qualidade.
Nota: 9
Integrantes
- Lex Thunder — guitarra e vocal
- Michael Blade — guitarra
- Infernando — baixo
- Tommy 666 — bateria
Faixas
- Midnight Fire
- Turbulence
- Dragon Magic
- Blessed By The Night
- Dying Star
- Strike Again
- Hard To Break
- Burning Spark
- King Of The Hammer
- Flames Of Glory
