Resenha: Tierramystica – “Trinity” (2025)

Em 2025, o Tierramystica lançou seu terceiro full-length, o primeiro álbum de inéditas após um hiato de 12 anos. Lançado de forma independente em 12 de setembro, Trinity apresenta um power metal fortemente inspirado em estilos musicais nativos da América do Sul. Com o uso de instrumentos pouco convencionais e temáticas culturais, o grupo reafirma uma identidade já marcante em sua trajetória, agora apresentada de maneira mais madura e consistente.
Um começo devidamente ambientado
O álbum se inicia com “Awakening”, uma faixa instrumental executada com instrumentos pouco usuais no metal — uma introdução que ambienta o ouvinte para o que está por vir. Em “Chaski Way”, o power metal entra em cena com intensidade total. Baixo e bateria formam uma base veloz, enquanto a ocarina conduz uma melodia compassada, conferindo à música uma estética singular. Esse contraste permeia toda a composição, inclusive, evocando um clima de aventura e conexão com a natureza.
O “Chaski” mencionado no título faz referência aos mensageiros do Império Inca — corredores ágeis, treinados para transportar mensagens orais e encomendas.
Na sequência, “Raindancer” apresenta contornos épicos e excelente uso dos instrumentos de sopro, que adicionam novas camadas à sonoridade. O solo de guitarra é outro destaque, perfeitamente integrado à estrutura da faixa. Já “Eldritch War” se sobressai pelo instrumental elaborado, alternando momentos acelerados e passagens mais calmas, com mudanças de ritmo cativantes. A letra aborda a eterna luta entre o bem e o mal presente em cada ser humano — um tema complexo tratado de forma certamente interessante e bem construída.

Canções mais cadenciadas e boas sensações
A quinta faixa, “Fly As One”, é uma balada que fala sobre união e esperança, fazendo uma bela analogia ao voo de um condor e uma águia. Dessa forma, a junção da letra com elementos naturais e a instrumentação cria uma atmosfera mística e aventureira.
“Cosmovision” apresenta um viés mais progressivo, com um instrumental repleto de camadas, em que se destacam os teclados, bem como a percussão nas partes mais suaves. A letra reflete sobre a comunhão entre o ser e o universo, transmitida com grande sensibilidade pela interpretação vocal.
Em seguida, “Bedtime Stories” traz uma sonoridade leve e nostálgica, remetendo a lembranças de um passado acolhedor. A faixa cumpre bem o papel de respiro emocional antes do desfecho do disco.
Guardando ouro para o final
“Eye of the Tribe” é outro ponto alto do álbum: um power metal de altíssimo nível, com muita energia assim como trazendo um vocal cativante. A faixa remete ao som clássico do Shaman, tanto em estética quanto em temática.
A penúltima música, “Beyond the Cape of Storms”, é provavelmente a mais pesada do disco. Aqui, o trabalho de guitarra se destaca com palhetadas precisas e riffs inegavelmente agressivos. Os vocais também ganham mais peso, combinando perfeitamente com a letra, que aborda as grandes navegações e o temido “Cabo das Tormentas” — posteriormente rebatizado como “Cabo da Boa Esperança”.
Encerrando o álbum, “Death Whistle” mantém o peso, mas adota um tom mais sombrio e ameaçador. A faixa faz uso do som do “apito da morte asteca”, presente na introdução e em outros momentos, o que reforça a atmosfera ritualística. O instrumento, utilizado em batalhas pelo povo asteca, emitia um som semelhante a um grito humano — um detalhe que enriquece a proposta da música.

Um retorno memorável do Tierramystica
O Tierramystica entrega um trabalho autêntico e diversificado nas dez faixas que compõem Trinity. A banda demonstra uma identidade sólida, explorando instrumentos e temáticas ainda pouco comuns no metal, o que a diferencia dentro do gênero.
Além desse diferencial, as composições são bem estruturadas e mostram um ótimo equilíbrio entre letra e instrumental. As letras despertam curiosidade, levando o ouvinte a pesquisar sobre as culturas e povos que inspiraram as canções — um mérito sobretudo raro.
O tracklist é coerente e bem organizado: músicas rápidas no início, faixas mais cadenciadas no meio e um encerramento com composições pesadas e marcantes. Embora seguro, um arranjo mais ousado na ordem das faixas poderia potencializar ainda mais os pontos fortes do álbum.
Em suma, o Tierramystica marca o cenário nacional com um lançamento sólido e repleto de personalidade. Trinity tem tudo para se tornar um clássico moderno do metal brasileiro. Para quem aprecia o som de bandas como Angra, Shaman e Caravellus, esta é uma audição certamente indispensável.
A versão disponível no Spotify traz ainda uma faixa bônus, “Hearts on the Edge”, que aborda as recentes enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.
Nota: 8,9
Integrantes:
- Alexandre Tellini – Guitarra, Violão, Zampoña
- Luciano Thumé – Teclado
- Ricardo Chileno – Vocal, Violão, Ocarina, Charango, Craviola, Bombo
- Gui Antonioli – Vocal, Percussão
Convidados:
- Marcelo Caminha Filho – Baixo
- Thiago Caurio – Bateria
- Giovani Facchini – Flauta
- Lucas Vidal – Vocal
Faixas:
- Awakening
- Chaski Way
- Raindancer
- Eldritch War
- Fly as One
- Cosmovision
- Bedtime Stories
- Eye of the Tribe
- Beyond the Cape of Storms
- Death Whistle