Resenha: Thrash Attack – “Only the Forces of Metal Will Live Last” (2026)

O território chileno respira Heavy Metal, principalmente, quando o assunto envolve o underground. Dessa forma, podemos encontrar várias pepitas de ouro musical com facilidade. A honraria da vez parte da banda Thrash Attack, que dispensa maiores apresentações, muito por conta do seu próprio nome. Embora ativos desde 1999, lançaram o seu segundo álbum de estúdio. Para ser mais exato, “Only the Forces of Metal Will Live Last” foi lançado no dia 17 de julho via formato independente. Ou seja, a energia underground chileno pulsa forte e nem todo adepto de Metal sabe.
Os representantes de Limache, Valparaíso, possuem em sua bagagem musical, o debut “Brazen Bull”, de 2023. Além disso, também possuem o EP “Mental Torture” (2010) e a demo “Only the Forces of Metal Will Live”, com semelhanças ligadas ao novo trabalho. Grande parte do material da demo foi reaproveitado e inserido ao álbum em específico.
Contudo, essa ideia funciona bem quando determinadas músicas soam bem tanto na demo quanto ao vivo, oferecendo a oportunidade de serem relançadas. Seja com nova roupagem, algumas mudanças no som, ou simples melhorias para acrescentar ao já qualificado trabalho.
A segunda investida dos chilenos do Thrash Attack
Nossos hermanos chilenos, representantes de Limache, Valparaíso, acabam de entregar este ano um trabalho definitivamente voltado aos tempos áureos do Thrash Metal. Nesse sentido, encontramos pergaminhos sonoros de bandas do porte de Kreator, Sodom e Destruction, além de um catálogo ainda mais vasto de grupos que tocaram o terror na saudosa década de 1980 através de uma musicalidade direta e pútrida, sem qualquer polimento ou limpeza nas melodias.
Para costurar e fechar esse plano, o formato musical possui estruturas mais longas e tradicionais. As faixas, por sua vez, apresentam riffs cíclicos a fim de priorizar refrões diretos e incisivos, com ritmos acelerados através de contratempos precisos e construções instrumentais caóticas. Tudo isso, portanto, é condensado em 9 faixas distribuídas em ótimos 33 minutos e 24 segundos de duração.
A sujeira imperou por determinado tempo e aqui ela impera novamente. Resumidamente, a banda chilena se inspira diretamente no circuito do Teutonic Thrash. O tempero germânico está em voga por aqui, e logo dissecaremos esse sapo sul-americano para entender melhor esse estudo de caso prático.

O plano tático dos thrashers chilenos
A análise detalhada das faixas passa por uma intro de preparação para o ato principal. Portanto, a “Intro” abre o caminho para o caos alarmado e a esperança de uma destruição sonora aos moldes da saudosa década. Sons climáticos e utópicos abrem o registro, criando tensão antes do caos. Logo de imediato, a faixa “Apostasy from Christianity” colapsa o ouvinte com riffs cortantes, moldados a partir de uma leitura que varia em frequência – com intervalos específicos e velocidade desenfreada. O ritmo violento auxilia os vocais a proferirem versos de renúncia à fé cristã popular e de destruição de simbologias vãs, de modo mais enérgico e voraz. No entanto, os solos breves funcionam como cordões de navalha para cortar a respiração. Cadência no momento propício e alavancadas precisas exalam a aura violenta da composição.
Através da parede sonora criada pela aceleração da bateria e dos bumbos duplos, “Mental Torture” invade os campos aprisionados da agonia psicológica, revelando uma grande paranoia sob o colapso da mente humana. O confinamento mental recebe uma carga explosiva de linhas de guitarra e baixo evidentes e contundentes, trafegando em um ritmo alucinante e sufocante. Isso se deve, principalmente, aos solos distorcidos e provocativos. Tudo soa torturante, oferecendo o momento-chave para fazer o pescoço trabalhar em prol do Metal!
A construção da primeira trinca (sem contar a abertura do disco) ocorre de modo assombroso, com uma insanidade ainda não vista no registro. O entrevero chega para somar e transformar “Soul Hunter” em uma verdadeira avalanche sonora. Riffs simples e diretos são a chave para uma agressividade real e perspicaz. As variações funcionam bem, embora o refrão não apresente o mesmo ímpeto do restante da música, que descreve a ação do demônio em sua caçada às almas condenadas (desta vez, longe de ser uma caça ao pato ou ao coelho). Contudo, vale destacar os ótimos solos que surgem em um ambiente repleto de sujeira e linhas sonoras serrilhadas.
O brilhantismo reduz, mas o equilíbrio permanece
O brilho maior termina em “I Will Kill You”, pois essa composição domina o centro das atenções na fase central do disco. De acordo com a nossa divisão de três em três músicas para destrinchar, a segunda tríade concentra o seu maior poder de fogo neste quinto som da tracklist. A sua abertura abrangente retrata com fidelidade o passado do Kreator. Além disso, o vocalista Jorge San Martin destila linhas vocais idênticas às que Mille Petrozza fazia naqueles tempos. Deixei para citar essa característica neste ponto, visto que é aqui que ele encarna o Mille da era “Terrible Certainty” (1987) e “Extreme Aggression” (1989).
Nessa dinâmica, os solos obedecem a escalas de queda vertiginosa, impulsionados por bases ríspidas, cortantes e altamente inflamáveis. Paralelamente, o ritmo da bateria atinge uma frequência excelente, combinando velocidade, técnica e o tilintar cirúrgico dos pratos. Mesmo sendo uma faixa mais curta que a sua sucessora, ela ecoa por mais tempo na mente do ouvinte. Por essas e outras razões, elegi a música como o carro-chefe de “Only the Forces of Metal Will Live”. Desse modo, o seu tema — que envolve uma vingança movida a ódio pleno, absoluto e muita violência — faz todo o sentido.
Porém, “Death Dealer”, com seu grito “interminável”, mantém o bom nível e prepara o terreno para as homenagens às bandas já citadas. O som entrega riffs de calibre reforçado, mas o destaque fica por conta dos trechos que o ritmo mais brutal sofre quebras abruptas através de paradas de prato. Nesses momentos, os pedais vagarosos entram em cena, enquanto a figura central deixa um rastro de sangue e cadáveres pelos campos de batalha.
Por fim, após alguns segundos de silêncio causados pelo término antecipado da faixa anterior, “Thrash Attack” entrega riffs em forma de serra seca, apoiados por uma bateria trepidante. A música funciona como um hino dos chilenos para celebrar o poder do Metal e a devoção dos fãs ao estilo. Os solos mais melódicos contrastam as bases densas, mas tudo dentro de uma velocidade contagiante, até certo ponto.
Homenagem a Destruction e Kreator, mas sem ser cover
Antes de mais nada, ressalto que fiquei com dúvidas quando me deparei com as duas últimas faixas do álbum do Thrash Attack: seriam elas covers? De fato, esse pensamento vem à tona, muito por conta dos títulos das composições e também pelo fato de a banda se inspirar abertamente em duas lendas do cenário alemão.
Para a minha grata surpresa, são reinterpretações. São músicas calcadas nas faixas clássicas de ambas as bandas, mas que possuem alguns elementos próprias. Elas se aproximam da sonoridade original, mantendo o mesmo espectro e adicionando pitadas de pedais duplos em trechos que não têm nas versões clássicas originais, por exemplo. Embora carreguem os mesmos títulos exatos dos clássicos do Destruction (Eternal Devastation, 1986) e do Kreator (Pleasure to Kill, 1986), trata-se sim de covers para ambas as faixas clássicas. Portanto, é uma homenagem e direta à era de ouro do Thrash Metal germânico.
A versão do Thrash Attack para “Eternal Ban” se encaixa perfeitamente bem nessa posição, enquanto o cover de “Under the Guillotine” atravessa os alto-falantes para fechar a obra de Thrash Metal com DNA europeu, de maneira amplamente digna.
Para finalizar, menciono que o Thrash Attack até poderia ter mais uma música de impacto no disco para não depender muito dos dois covers ao término da audição. Poderia ter mais alguma faixa para realmente encerrar a obra e até ligando com a faixa de abertura após a introdução curta, ou até mesmo ligando com a própria intro. Contudo, vale e muito a audição desse novo trabalho dos thrashers chilenos!
Nota: 8,4
Integrantes:
- Rodrigo Jarufe (baixo)
- Naldo Roca (bateria)
- Sebastián “Piraña” Rivera (guitarra)
- Jorge San Martin (vocal)
Faixas:
- Intro
- Apostasy from Christianity
- Mental Torture
- Soul Hunter
- I Will Kill You
- Death Dealer
- Thrash Attack
- Eternal Ban (Destruction cover)
- Under the Guillotine (Kreator cover)
