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Resenha: Sutura – “Dawn Of Cursed Souls” (2021)

Indicação BR Especial

Passados dois anos após o lançamento do ótimo debut, “Clasta”, os fluminenses de Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, aproveitaram a maré favorável quanto às composições e lançaram o seu segundo full length via Awakening Records. O álbum foi lançado no dia 24 de abril com a intenção de ampliar seus horizontes e elevar ainda mais o patamar do Metal nacional. Sendo uma banda que ousa seguir por caminhos mais tradicionais de acordo com suas convicções sonoras, o que vem à mente ao falar desse novo disco é de que venha a ser uma continuação da ideia oferecida em seu álbum de estreia. Calcada na junção entre o Death e o Black Metal, as influências escandinavas e daqui da nossa terra se sobressaem, sendo que até o momento mostraram como o Sutura sabe o que está fazendo quanto a esse nobre desafio de unir duas grandes forças dentre as vertentes mais extremas do Metal. Não é algo simples de se fazer e que vá se encontrar por aí com qualidade suficiente a ponto de receber vários elogios. E quando você consegue unir mais de uma vertente sem apresentar aquelas emendas forçadas no som e também coisas piores como paradas meio que obrigatórias por não saber unir as duas receitas pode conseguir alcançar resultados muito positivos. Essa tem sido a ideia passada pelo baterista William “Delta X” Toledo e seus asseclas que estão sempre prontos a estremecer as estruturas planetárias com seu som catastrófico e visceral. Quanto à capa, esta sim já se pode dizer que é superior à anterior. E nesse caso é muito bom, pois a capa do debut é ótima.

   

A apresentação de “Dawn Of Cursed Souls” reforça a ideia dessa continuidade ao que fora construído antes e para os amantes dessa sonoridade acaba soando como um prato cheio de alegrias. Dentre as características apresentadas, consta a afinação baixa com palhetadas rápidas, distorção pesada ao estilo motosserra, vocal gutural grave e agudo e uma boa combinação de baixo e baterias bem marcadas. Isso sem contar os modelos de equalização, timbre e reverberação voltadas aos moldes utilizados nos anos 80 e 90. Se isso é uma verdade absoluta ainda não sabemos, pois estamos prestes a mergulhar nesse novo universo e investigar tais elementos. Pode até acontecer de encontrar outras coisas, outros detalhes, e o ambiente ainda ser bastante propício para o que está sendo proposto. Da parte do dono do nanquim digital que lhe oferece tais informações, este pressente que algo realmente bom está por vir e você está convidado a percorrer esse bueiro maravilhoso que guarda aquelas “podreiras” sensacionais das quais só encontramos nesses lugares escondidos da sociedade comum e mentecapta. O Sutura honrou o bueiro com o álbum “Clasta”, e agora vamos averiguar se honram novamente com o lançamento de “Dawn Of Cursed Souls”.

Sem nenhum tipo de surpresa experimental ou que possa causar algum impacto diferente, “Dawn Of Cursed Souls” abre as entranhas da caverna amaldiçoada com a sua faixa-título. Seguindo a cartilha de instruções de como exercer as funções de uma boa sujeira, esta se inicia de forma vagarosa para logo em seguida começar as suas explosões de velocidade e peso. O caminho para a alvorada das almas amaldiçoadas está logo ao horizonte, e é por onde o Sutura gosta de preencher seus lamentos e suas indignações perante o mundo real insano. Os trabalhos de guitarra e baixo trazem confiança ao ouvinte para que o mesmo continue desfrutando de boas interpretações sonoras com direito àquele espaço garantido para algumas doses de baixo. Uma abertura condizente com as informações obtidas e bastante sensatas. “Sacramental Bleed” possui uma veia inicial acelerada com vocais que aproveitam o espaço para ampliar o poderio rasgado/gutural e esganiçar de modo correto para que a faixa fique ainda mais estrondosa e destruidora. Muitas bandas que percorrem tais caminhos vêm à mente, mas citar apenas uma ou outra acaba sendo um pouco injusto. O que posso dizer que é ao ouvir você poderá relembrar vários outros sons de bandas marcantes como grandes influências. Em alguns momentos é possível notar a presença de um pouco de Heavy Metal tradicional em meio ao som característico da banda, o que a torna ainda mais versátil e sabedora do que está promovendo. As variações de riffs tornam esta que foi a primeira faixa apresentada antes do lançamento do material completo como uma escolha acertada não só para isso, mas para figurar no início da pedra filosofal giratória.

Sob uma climatização breve bastante sombria, “Under The Black Mark” começa sua jornada honrando a marca citada em seu nome. O demônio está à solta pronto para ampliar o seu clã e destruir os fracos e oprimidos com seu imenso poder. Pancadaria é o que eles dizem e isso fica ainda mais encorpado graças às mudanças de tempo e clima musical sem que perca o propósito real da coisa. O solo que enfeita a fileira de acordes amplia o marcador em favor do time de Nova Friburgo, fazendo com que o álbum receba mais condições para ser apreciado sem nenhuma moderação, mas com muita atenção. E sob a marca negra é que a emenda parlamentar funciona ao ligar este hino com a faixa instrumental acústica “Death’s Fathom”, que traz o clima ideal para a sequência do artefato giratório antidivino. Uma trilha misteriosa e macabra permeia o centro do mapa astral musical para fazer o ouvinte refletir sobre cada momento catastrófico e se tudo isso aqui é real e se realmente vale à pena. Vale à pena viver mesmo que se possa morrer em vão? Melhor ouvir mais “porrada” e deixar a morte bailando em seu lugar.

“Haunted By Old Ghost” chega com tudo, assim como no game “Destruction Derby” (jogo de corrida e arena de carros do Playstation) a pancadaria come solta sem deixar ossada sobreposta na morada do senhor das sombras. Assombrado pelo velho e clássico fantasma que custa a acreditar que quem está presente é alguém que servirá de algo bom. Se esta criatura possuir ouvidos de porcelana, é melhor que seja assombrado e nunca mais retorne a este lugar. Assim como nas canções anteriores, temos guitarras proferindo insultos sensacionais através de breves solos durante as transições de som até chegar ao ponto de descer a lenha novamente. Nos momentos mais diretos, soa como aquele Death Metal mais sujo e simples que eu, particularmente, gosto um bocado. E aqui temos os solos mais bem construídos do disco, o que torna “Haunted By Old Ghost” uma das melhores canções do álbum sem sombra (assustadora) de dúvida. “Where Shadows Of Death May Lie” é a sexta marcha fúnebre, e sua marca inicial é contada por passos mais vagarosos que servem de abertura para uma nova sequência de pancada nos tímpanos sem nenhum perdão. Você procura tanto saber e poder revelar os mistérios mais sombrios e ocultos que acaba encontrando onde as sombras podem estar. Com isso acontecendo, a chance de sobreviver é zero, exceto se você possuir um cardápio musical que envolva coisas pertencentes ao mundo cadavérico de Metal sujo e obscuro. As sombras observam atentamente cada passo e se o próximo passo for dado em falso, elas estarão lá para te fazer sofrer por toda a eternidade.

O caos já está acontecendo e o fim de tudo o acompanha em “Chaos And Demise”, faixa esta que possui uma intro bem competente de modo que faça se criar uma roda gigante para que um senhor mosh possa aparecer na pista. Tenebrosa e horripilante, a canção de ninar ao contrário desperta a sensação de estar realmente em um mosh no inferno com todos os amigos daquele mundo reunidos. Acha que não tenho amizade com o povo de lá? Eles também são legais, cada um ao seu jeito. Igual lá em cima… Ou quase! Bem, o que dizer do solo de guitarra aqui? Apenas que poderia se prolongar e deixar o som mais épico, não com o significado de Power Metal, mas com o significado de um som destruidor que possui um final mais digno. Senti que ela simplesmente vai perdendo a força e acaba por si só. “Suffering Cage” traz consigo uma sonoridade completamente voltada para o seu título. Toda a camada constituída e distribuída diante de seus versos é amplamente sofrida e angustiante na medida certa. Preso em uma jaula descrevendo tudo o que passou e ainda passará preso e sem direito à condicional. É assim que somos capazes de absorver toda essa energia escura e pútrida para resistir à chuva de lava incandescente causada pela bateria e às guitarras agonizantes que destilam toda a lamúria incompreendida e a repulsa aos costumes sociais e nada educativos. A nova ordem abissal está evidente e cristalina de tão presente, o que faz o amante da música feia e suja vibrar com mais esse hino maquiavélico.

“Worms In Disguise”

Dona do videoclipe promocional, “Worms In Disguise” entrega aos diabretes e gárgulas toda a organização sonora primordial para que um novo ataque ao mundo carnal seja dado com eficiência. Possuidora dos mais diversos elementos e características que envolvem o circuito do Death Metal, ela proporciona ao ouvinte um misto de “quero ouvir de novo essa música” com “devo colocar no modo ‘repeat’ o álbum todo assim que este terminar”. E quando isso ocorre, é sinal de que as coisas funcionaram muito bem principalmente em suas bordas iniciais e finais. Visto por cima é algo próximo ao que fora descrito, mas ao ouvir do início ao fim, sabe-se bem que o álbum como um todo funciona em nível alto. Os solos ficaram mais evidentes e apresentaram um devido cuidado para funcionassem de maneira a engrandecer ainda mais a canção. E realmente tudo o que foi anunciado condiz com a obra. Afinal, para quem aprecia um bom Death / Black Metal de qualidade e com aquela sujeirinha característica de tal união de vertentes este é o chamado disco certo para se ouvir de verdade. Eu que tive o prazer de descrever o debut, posso comprovar que a banda está no caminho mais do certo e já consigo enxergar aquele que fechará a primeira trinca de ases do já glorioso Sutura.

Ao término da audição percebe-se que houve uma notória evolução na composição do quarteto de soldados infernais em relação às nuances apresentadas neste novo álbum. Dentro da própria junção de estilos puderam explorar mais detalhes ao elaborar cada “múzga” sem dar margem para nenhum tipo de experimentalismo barato. A bateria de Delta X soa mais encorpada e com linhas um pouco mais robustas sem que perca suas origens, apenas acrescentando elementos condizentes com o híbrido de Death / Black Metal. As linhas de guitarra de Luciano e Nathan dão todo ar da desgraça (no bom sentido) colocando mais frases, solos e diferenciais para que as canções ganhem ainda mais identidade. Somado a isso temos o baixo de Erik fazendo aquela condução com momentos propícios e essenciais para ficar mais atrativo e tornando toda a viagem especial longe de qualquer aspecto que envolva igualdade entre os sons contidos em “Dawn Of Cursed Souls”. Se em “Clasta” já conseguiram trabalhar muito bem junto à proposta sonora oferecida, dessa vez conseguiram se superar e mostrar um trabalho ainda mais completo que deve figurar nas listas e prateleiras de quem aprecia uma boa e qualificada “podreira”. O bueiro está em festa com mais um lançamento digno de respeito e nada mais condizente do que ouvir no modo repeat para a mensagem chegar cada vez mais longe, e acordar aqueles que, de acordo com aquele meme da piscina, se afogam no raso ao bradarem aos quatro cantos da internet que o Rock e o Metal morreram. Quem morreu foi esse tipo de ser, pois se depender de bandas como o Sutura, isso nunca ocorrerá.

“When the void calls you
Like a hammer to your skull
Your life is just a sigh
You live and then you die”

Nota: 8,9

Integrantes:

  • William “Delta X” Toledo (bateria)
  • Luciano Galvão (guitarra, vocal)
  • Erik Amorim (baixo)
  • Nathan Azevedo (guitarra)

Faixas:

  • 1. Dawn Of Cursed Souls
  • 2. Sacramental Bleed
  • 3. Under The Black Mark
  • 4. Death’s Fathom
  • 5. Haunted By Old Ghost
  • 6. Where Shadows Of Death May Lie
  • 7. Chaos And Demise
  • 8. Suffering Cage
  • 9. Worms In Disguise

Redigido por: Stephan Giuliano

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