Resenha: Speedslut – “Cimbrian Rites” (2026)

O touro dinamarquês das trevas, chamado Speedslut, surge por entre as sombras para anunciar sua nova jornada:

“O som ecoa com intensidade sob as chaminés de North Jutland Heath. Com energia avassaladora, o grupo libera a sonoridade crua e potente característica do cenário metal. Essa performance impactante domina o ambiente, canalizando uma força sonora que envolve e agita as massas de forma absoluta.”

Dessa forma, apresento ao público a banda dinamarquesa Speedslut, praticante daquilo que eu chamo de “Metal podre”, ou seja, uma sonoridade calcada na velocidade, nos dedilhados afiados, na energia impactante. Além disso, a bateria incessante e o rangido feroz e enferrujado da timbragem definem o estilo da horda escandinava. Do mesmo modo, o próprio nome da banda faz ligação direta ao energético Rock veloz.

O quarteto destila um Speed Metal empoeirado, carregado de cerveja, cigarro e muita maldade sonora. Ademais, o enxofre anti-sagrado permeia grande parte do encordoamento e do alicerce de cada música. Em resumo, o som do Speedslut executa um límpido e claro Blackened Speed Metal. Afinal, o som possui a aura que define o Blackened no pano de fundo, embora não sendo ligado diretamente à estrutura sonora. Portanto, eles unem essa atmosfera ao Speed mais caótico, enriquecido com Sazón de enxofre. No entanto, há uma receita especial que é espalhada por quase todas as composições, envolvendo pitadas de Heavy Metal tradicional, Black Metal, Black/Thrash Metal. Como resultado, gerando uma estrutura mais rica e sólida, além do Speed Metal mais puro, igual pinga de manhã antes do serviço.

Natural de Aalborg, Nordjylland, o Speedslut começou sua trajetória recentemente, em 2023. Posteriormente, a banda iniciou sua discografia em 2025 através do EP “Ferocity of Steel”, que funcionou como um aperitivo do que estava por vir. Sem perder tempo, o selo Listenable Records lançou o álbum de estreia, intitulado “Cimbrian Rites”, no dia 26 de junho deste ano. Para completar, a banda também disponibilizou os singles “Dark Night Riders” e “Pestridden Stallions” como parte do pacote promocional de divulgação.

Contudo, a citação que se refere à banda como um touro faz uma alusão direta à capa do disco de estreia dos representantes da Dinamarca.

A ancestralidade e o caos apocalíptico atual reunidos na receita do Speedslut

Em primeiro lugar, antecipo o veredicto ao afirmar que a banda entrega uma estreia brilhante e com recursos ascendentes. Dessa forma, o grupo oferece a clara visão de um próximo trabalho ainda mais atrativo e poderoso. Enquanto as letras do álbum constroem um conceito que une um passado bárbaro a um presente calamitoso, a música leva você direto ao inferno.

De antemão, o ouvinte nota que os caras resgatam o timbre de bateria completamente voltado aos anos 80. “Pestridden Stallions” dita o tom do álbum com andamento veloz, riffs cavalgados e muita energia. Logo de início, seu ímpeto arde em chamas e levanta a poeira do asfalto através de uma consistência estrutural exuberante. Frederik Klitte destila bases ríspidas de guitarra e vocais ásperos que lembram Schmier (Destruction), mas com total personalidade. Além disso, o ritmo e os dedilhados emulam o Slayer da era “Show No Mercy” (1983). A banda usa uma pausa proposital para abrir caminho a uma jornada cadenciada, onde os solos melódicos e breves de Tomas Dikinis surgem por entre as cinzas. Em seguida, esses solos ficam ainda mais afiados e caóticos, tornando o Speed Metal elegante e obliterador.

Na sequência, o quarteto apresenta “Asbestos Born Wrath”, uma música curta e direta com menos de 3 minutos de duração. A faixa foca amplamente na fúria inspirada pela decadência industrial e poluição tóxica. O refrão traz palhetadas excepcionais e específicas, o que oferece ainda mais destaque à elevação sonora por entre os versos. A velocidade dita o negócio e não dá espaço para hidratação.

Logo depois, “Dark Night Riders” chega com toda a pompa e circunstância para manter vivo o espírito clássico do Metal sobre rodas. Os solos iniciais jogam a sua alma na gangue das duas rodas, de modo que o inferno astral sonoro passa a correr em suas veias carcomidas. Os riffs clássicos destilam o veneno do Rock veloz oitentista, enquanto o refrão com os backing vocals adiciona ainda mais violência, em uma alusão direta aos refrãos do Thrash Metal. Novamente, os solos tornam a música mais vibrante e ganham um tom “motorheadiano”.

A morte é inevitável, mas o som é permanente

“Into the Grave” chega sem conversa mole: violenta e focada na inevitabilidade da morte. A respeito da influência do Motörhead, o baixo de Andreas Holst Reinholt se destaca logo no início ao ditar o ritmo do som. Portanto, ele dita as regras antes mesmo que seus comparsas encontrem o compasso e sigam adiante com amplo ímpeto. Ademais, a trepidação resplandecente da bateria aumenta a riqueza de todo esse portfólio.

Dando continuidade, “No One Escapes Death” apresenta uma explosão rápida de agressividade junto a palhetadas precisas. O baixo agressivo contorna a faixa e aparece nas emendas do escape da morte. A bateria de Malthe Ørvad Jacobsen decola com facilidade, ao mesmo tempo em que os pedais duplos surgem no momento certo para elevar o som. Os solos gratificam essa passagem sonora, enquanto os vocais executam o serviço sujo com muito bom gosto. Entretanto, os riffs principais e o ótimo alicerce sonoro garantem o maior destaque da composição.

Compassos mais densos e contraste com o som áspero

Por outro lado, o álbum reserva um espaço para “Stench of Evil”, uma das composições mais longas e cadenciadas de “Cimbrian Rites”. A faixa prepara o ouvinte para o clímax do disco com riffs mais densos e sombrios, carregando a alcunha de um dos grandes ápices deste proveitoso trabalho. Riffs cavalares assumem a linha de frente e ganham corpo graças ao compromisso das linhas de bateria. Assim que Frederik Klitte silencia os vocais ao término do verso, a banda mantém o ritmo aposto e evoca uma aura intimadora.

Como resultado, os quatro cavaleiros sombrios convocam o ouvinte para um percurso longo e repleto de batalhas difíceis. Pouco antes dos 2min40s, a banda entra em um turbilhão sonoro. A banda usa o Black/Thrash Metal como uma arma secreta e ativa uma bateria incessante, até aplicar uma frenagem proposital que simula um falso final. No entanto, as palhetadas incendiárias retornam e promovem uma junção de Black, Thrash e Speed Metal que dificulta qualquer rótulo.

Da mesma forma, a crítica considera “Armageddon” uma das melhores faixas do trabalho. A música apresenta uma pegada que une a veia caótica do Speed/Thrash do Metallica da época do “Kill ‘Em All” (1983) a melodias precisas. Ademais, os músicos injetam solos repletos de luminosidade marcante dos anos 80. Essa luminosidade passeia pelos compassos seguintes, estende os solos por mais partes e conclui a faixa com toda a imponência necessária.

A busca por um hino que antecede o rito final

Como não poderia faltar, todo álbum de som podre traz um hino voltado à cultura de couro, rebites e aço. Neste caso, o hino atende por “Whores of Speed”. A banda dedica o som à velocidade e a todo esse mundo infernal. No momento em que os vocais cessam e antecedem os solos, os riffs rugem como verdadeiros motores de arranque.

Por fim, a faixa-título “Cimbrian Rites” idealiza o encerramento da primeira jornada em estúdio. A introdução transporta o ouvinte para tempos remotos da história e conecta o conceito dos guerreiros da Jutlândia ao massacre sonoro. Merece destaque o refrão categórico, reforçado pelos vocais de apoio. As palhetadas cavalares despejam todo o seu ódio sonoro, antes de mudarem para uma atmosfera mais densa e com intervalos maiores. Essas mudanças de andamento são breves, mas funcionam muito bem, pois tiram o som da zona retilínea. O Speedslut encerra a obra através de um refrão empolgante e pela ponte final.

Considerações velozes e cortantes finais

Os cimbros dinamarqueses finalmente cravaram seu nome na távola de bandas emergentes do Metal amaldiçoado e apontam o seu navio para um horizonte bastante promissor. Contudo, a banda ainda está naquele estágio de encontrar o seu hit para os shows. Pode até ser que ele já tenha surgido, mas talvez seja cedo para apontar alguma música que se destaque bastante das demais. Não que isso seja ruim, pois o disco é bastante coeso, honesto consigo próprio e divertido de ouvir. O bravo touro escandinavo começa muito bem a sua discografia e torço para ouvir mais sobre esse quarteto, detentor de receitas a serem muito mais exploradas.

Significado de Cimbrian

Os cimbros (cimbri, em latim) foram uma antiga tribo germânica ou celta que habitava originalmente a península da Jutlândia (a região onde hoje fica a Dinamarca). Por volta do ano 113 a.C., devido a inundações e escassez de terras, eles deixaram sua terra natal e iniciaram uma migração em massa rumo ao sul da Europa. Essa movimentação desencadeou a Guerra Címbrica (113–101 a.C.), uma das séries de batalhas mais sangrentas enfrentadas pela República Romana antes de sua queda. Vale uma leitura mais estendida sobre esse assunto. Mas sem deixar de ouvir o belo debut do Speedslut!

Nota: 8,6

Integrantes:

  • Frederik Klitte (vocal, guitarra rítmica)
  • Tomas Dikinis (guitarra solo)
  • Andreas Holst Reinholt (baixo)
  • Malthe Ørvad Jacobsen (bateria)

Faixas:

  1. Pestridden Stallions
  2. Asbestos Born Wrath
  3. Dark Night Riders
  4. Into the Grave
  5. No One Escapes Death
  6. Stench of Evil
  7. Armageddon
  8. Whores of Speed
  9. Cimbrian Rites
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