Resenha: Sorcery – “The Immaculate Sin” (2026)

O império pantanoso do Sorcery está em voga. A sua sonoridade imaculada permanece e apresenta um novo capítulo aos amantes do Death Metal sueco. O nome da joia é “The Immaculate Sin” e vem para corromper os espíritos amaldiçoados por música ruim. A solução está aqui e, para melhor salientar isso, mergulharemos faixa após faixa para que o banho lamacento seja completo e rejuvenescedor de espíritos.
Eu já adiantei que o disco é ótimo propositalmente, pois ele foi uma das nossas dicas em live. Durante a apresentação de mais um MM News através do canal Mundo Metal, no YouTube, colocamos à mesa o Sorcery e também a banda norte-americana The Noctambulist. Nesse caso, resolvi destacar em resenha a nova obra do Sorcery.
40 anos de devoção do Sorcery ao Death Metal
Foram quatro décadas de formação e consolidação do Swedish Death Metal e os representantes de Sandviken, Gävleborg, participaram dessa empreitada em dado momento – a banda teve um hiato de 1997 a 2009. Apesar da curta discografia, várias joias raras podem ser encontradas. Agora, a banda sueca acaba de lançar o seu quinto álbum de estúdio, no dia 1º de outubro via Xtreem Music. Sucessor de “Necessary Excess of Violence”, lançado em 2019, o novo artefato sonoro contém dez faixas, totalizando quase 46 minutos de duração.
Ola Malmström nos vocais e Paul Johansson na guitarra são os membros fundadores remanescentes. Completam o time, Johan Vikholm na guitarra, Mikael Carlsson no baixo e Tommy Holmer na bateria.
A banda não economizou esforços para divulgar o novo trabalho e apresentou três singles em antecipação ao lançamento do álbum. Depois dizem que banda de verdade não liga para marketing. Aprendam a lição com o Sorcery!
Antes do lançamento, o Sorcery apresentou “Shadowborn” e depois veio “Terminate”, seguida por “Die in Retribution”. Esta última é a faixa derradeira do novo disco. Ou seja, foi uma alçada corajosa para medir a temperatura do final da tracklist.
Para quem conhece a banda, pode ficar tranquilo, pois esse álbum passa longe de qualquer tentativa em soar moderno. Apenas são usados equipamentos atuais para gravação, mixagem e masterização do trabalho. Portanto, a honra oitentista segue intacta. Além disso, o próprio selo cita o álbum como um trabalho diretamente enraizado na primeira geração do Death Metal local.
A mixagem ficou a cargo de William Blackmon, no Overlook Studio, enquanto a capa foi mais uma vez idealizada por Juanjo Castellano Rosado. O artista assinou as artes dos dois trabalhos anteriores do conglomerado sueco.

Um parecer breve sobre o novo arsenal musical do Sorcery
O próprio Sorcery afirmou que a nova mixagem deixou a banda “melhor do que nunca”, sem sacrificar o caráter cru que sempre fez parte de sua sonoridade. Diante dessa informação, fica mais perceptível o direcionamento que a banda escolheu para levar a sua nova obra de arte. Dessa forma, o ato de trabalhar com conceitos mais tradicionais acaba sendo facilitado devido ao alinhamento das engrenagens com esse enredo. Se a ideia é preservar uma produção mais orgânica, a chance de obter sucesso com ideias voltadas ao estilo old school pode e deve prevalecer, desde que não seja uma simples repetição da história.
Sobre o andamento de cada música contida no disco, trata-se de um carrossel bem alinhado ao passado e às tradições, tanto da própria banda quanto do estilo. Os riffs úmidos e lamacentos, típicos do cenário sueco, com passagens aceleradas, blast beats nos momentos propícios, além de melodias descendentes e gélidas em meio ao caos sonoro — tudo se volta para uma definição mais visceral e bem mais “na cara”, por assim dizer.
O resultado disso é o tapete apodrecido estendido para a construção de uma sonoridade equilibrada, fazendo prevalecer toda a estrutura que merece holofotes. Agora, vamos entender melhor cada faixa contida em “The Immaculate Sin”.
Incendiando o mundo ao nascer das sombras
A jornada serrilhada, vibrante, comovente e rastejante é iniciada pelo som agressivo, profano e direto de “Shadowborn”. Dedilhados se emaranham às bases como os galhos caídos das árvores, dando um toque melancólico ao alicerce sonoro. Enquanto a bateria exala seus gases, provocando a luminosidade do fogo-fátuo, as guitarras e o baixo se ajeitam para serrar a tampa do caixão umedecido e apodrecido por conta da climatização e da atmosfera local. Alinhado ao Dismember e ao Wombbath, temos uma putrefação em forma de música.
Os primeiros toques na caixa revelam a fumaça que brota da matéria em decomposição contida em “Set the World Ablaze”, tornando-a tão impetuosa quanto sua antecessora. O ritmo incessante mantém a banda sueca na trilha de vegetação alta e densa que esconde o que está no fundo. Nesse percurso assustador, são encontradas áreas de terra movediça que puxam a vítima para baixo. A condução dos pratos permite ver um pouco riacho adentro, mas o baixo gorduroso revela uma água turva e quase sem visibilidade para o fundo. O lado agressivo se funde às melodias putrefatas e formam uma camada espessa em estado úmido e sufocante.
As divisões devem ser exterminadas
“Stand as One or Fall Divided” aposta em algo mais diversificado dentro do terreno úmido e disforme, acrescentando mais peso e desfilando um andamento médio. A fumaça batida se espalha no campo de visão, conforme as cordas enferrujadas do baixo tremulam. Dedilhados soam como rachaduras no barco do viajante ao percorrer o rio de sonoridade lamacenta. O ar se torna rarefeito, já que as ondas de matéria decomposta permeiam o lugar. No entanto, ainda há a força da natureza para se guiar. O arrasto pesado da bateria — semelhante a um rinoceronte — provoca tremores nesse solo infértil. A pausa nas movimentações soa de forma providencial para que o viajante retome o caminho com mais afinco e decidido a seguir até o fim deste pântano musical.
“Terminate” oferece uma visão mais detalhada para observar com clareza tudo o que morre e apodrece lentamente sob a água. Junto a isso temos blast beats que evocam os seres noturnos para fortalecer as arestas desse lugar, sem que qualquer intruso apareça. O chamado por mais velocidade ocorre e aqui temos uma criatura abissal se movimentando rapidamente em solo pastoso com vários pontos de areia movediça. Os dedilhados fazem com que a figura não se distraia e siga impondo o seu ritmo e suas questões dentro da obra. Todavia, a submersão é inevitável e você é totalmente engolido pela lama.
Um corte paralisante que deixa em pedaços
“Paralyzed” recebeu o nosso selo de qualidade e passou a figurar no Radar de Novidades, playlist do site e canal Mundo Metal no Spotify que destaca os grandes lançamentos do ano vigente. Na faixa, a decomposição espalha o lodo diretamente nos tímpanos do ouvinte, infectando-o com uma morbidez expressa em linhas asfixiantes e opacas. É como se alguns galhos fossem cortados por um facão afiado, revelando um céu púrpura amaldiçoado. Os pedais duplos preenchem perfeitamente as arestas, enquanto o timbre da guitarra se espalha como um puro miasma viscoso.
O compasso funerário de “Slice It Up” acena para o abismo, consolidando mais um som rastejante como crocodilos e salamandras. A estrutura regente alterna entre ímpeto e cadência para que os corpos decompostos sejam jogados de um lado para o outro e ajudem a elevar os gases de enxofre. Diante desse movimento constante, a faixa ganha mais lodo putrefato e submerge o ouvinte como um tremedal de pura distorção. Ora mais veloz, ora mais cadenciado, o que importa é que as variações formam esse som cavernoso e indestrutível.
O exorcista da minha alma negra
O recorte inicial de bateria de “The Door to My Black Soul” é simples, porém bastante preciso e completamente profano. A tensão e o andamento moderado são características que preenchem as lacunas e despejam uma sequência brutal de peso e avanço rumo a novas áreas. Próximo da metade da música, o som se molda e abre possibilidade para outros caminhos. A cadência se torna primordial adentra os espaços deixados pelos vãos do solo. Enquanto a estrutura vai apodrecendo, os insetos necrófagos entram em cena para devorar os dejetos que ficam pelo caminho.
“The Exorcist” libera as almas presas que atraem os vivos para o lodo. Sua correria intensa não abre qualquer caminho para diálogo algum. O comboio sueco enterra o viajante incauto ao achar que ele já se foi — uma punição severa para quem caiu ali sem ser fã da banda ou do estilo. A valsa apresenta parasitas que drenam a vida silenciosamente na água escura, enquanto a bateria sofre transformações. As palhetadas incendeiam o pântano e nenhuma alma se atreve a interromper o percurso da figura central.
A inundação causada por uma morte retribuída
Com o peso similar a um saco de cimento, “Flood” chega para aterrorizar ao contar com sua linha de comando suja e afiada na medida correta. A atmosfera densa e o ar pesado do lugar preenchem muito bem o cenário sufocante e catastrófico em favor do Death Metal lamacento. Vocais embolorados e magistrais contornam a jornada e trazem mais ímpeto para a “múzga”. As linhas melódicas lamuriantes geram uma sensação pesada ainda maior, mas sem que largue o mapa sonoro das mãos.
“Die in Retribution” representa o trecho final desse pântano sombrio, misterioso e repleto de armadilhas para o marinheiro de primeira viagem. Os dedilhados iniciais se assemelham ao Unleashed — embora, sejamos francos, toda banda sueca antiga que não se mudou para o apartamento do Melodic Death Metal acabe guardando alguma ligação com a sonoridade do Sorcery. Aqui, os versos recebem a companhia de riffs velozes que cortam a névoa, enquanto as emendas trazem mais cadência e pedais duplos que afundam os pés no atoleiro.
O refrão possui a potência necessária, aliado a linhas mais agudas que ecoam sobre a turfa. Citando os versos novamente, estes se provam os condutores de uma valsa intensa, terminal e submersa. Além disso, as guitarras principais recebem o apoio de uma bateria ainda mais destrutiva que revolve os sedimentos do fundo. Depois que a poeira baixa, a cadência retoma o seu posto de estagnação, tornando o final da obra ainda mais especial e anestesiante — em especial nas últimas e arrastadas notas, que sepultam o ouvinte logo após uma bela virada de bateria.

Considerações finais turvas e fétidas como enxofre
A abrangência da sonoridade tradicional das bandas suecas de Death Metal é notória e perdura firme até os dias atuais. Certamente, esse legado jamais será esquecido e merece ser reverenciado a todo instante. Se depender do Sorcery, a preservação dessa herança está mais do que garantida — e o recém-lançado “The Immaculate Sin” é a prova cabal disso.
As garantias para a perpetuação dessa podridão musical estão bem divididas entre seus artífices:
- As guitarras de Paul Johansson e Johan Vikholm urram como motosserras enferrujadas, prontas para serrar a tampa apodrecida de um caixão umedecido pela atmosfera local;
- O contrabaixo espesso de Mikael Carlsson se infiltra no solo, espalhando o bolor denso e puramente putrefato necessário para sufocar a trama;
- Os vocais cavernosos de Ola Malmström oferecem o tom fúnebre ideal, exalando o clima de morte definitivo para quem se atreve a cruzar todo esse pântano sombrio;
- A bateria — comandada com maestria também sob os alicerces rítmicos de Tommy Holmer — funciona como um rolo compressor que esmaga corpos em decomposição, abrindo caminho para o Death Metal sueco triunfar e ancorando na morbidez sempre que a marcha exige lentidão.
A total devoção do Sorcery ao Metal da morte
Por fim, o resultado é um disco que entrega capítulos viscerais perfeitamente atrelados às origens mais profundas do subgênero, sem se render ou sequer flertar com as tendências plásticas atuais. Um Death Metal lamacento até a tampa, sujo, catastrófico, magnânimo e perspicaz continua sendo a receita imutável do Sorcery. Portanto, aproveite para embarcar sem medo nessa jornada pantanosa e certifique-se de usar suas melhores botas para tentar sobreviver a esse lago sonoro espesso, traiçoeiro e repleto de ótimos mistérios.
Para espalhar ainda mais essa névoa tóxica, a banda confirmou uma turnê pelo norte da Europa entre outubro e novembro, celebrando simultaneamente o lançamento da nova obra e seus 40 anos de história na estrada. Um marco histórico para a velha guarda escandinava.
Nota: 9,0
Integrantes:
- Ola Malmström (vocais)
- Paul Johansson (guitarra)
- Johan Vikholm (guitarra)
- Mikael Carlsson (baixo)
- Tommy Holmer (bateria)
Faixas:
- Shadowborn
- Set the World Ablaze
- Stand as One or Fall Divided
- Terminate
- Paralyzed
- Slice It Up
- The Door to My Black Soul
- The Exorcist
- Flood
- Die in Retribution
