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Resenha: Satan – “Earth Infernal” (2022)

Metal Blade Records

   

A NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal) foi o maior movimento de todos os tempos dentro do Heavy Metal e isso todos nós estamos carecas de saber, mas a pulga atrás de nossas orelhas é por conta do número realmente ínfimo de bandas participantes terem alcançado o famigerado sucesso. Algumas nem em atividade permaneceram depois do fim do movimento e outras se transformaram em nomes cult capazes de arrancar suspiros de alguns poucos fãs e apenas por conta de um ou dois registros lançados quase sempre de 1980 à 1983. O movimento literalmente mudou e abalou todas as estruturas do Metal, mas gerou um paradoxo em que se tirarmos fora o Iron Maiden, o Saxon e pouquíssimas outras que conquistaram um mínimo de glória, sobram diversos discos e bandas obscuras que um nicho muito restrito de headbangers revisistam até hoje e raros são os que se sentem à vontade para chamar estes trabalhos de clássicos ou algo do tipo.

Dentre as muitas pepitas de ouro com imenso potencial, mas que simplesmente não se viabilizaram comercialmente, estava o ótimo “Court In The Act”, disco de estréia do Satan, – adivinhem!? – lançado em 1983. Apesar do promissor início, demoraram quatro longos anos para apresentar o próximo passo e, infelizmente, perderam por completo o timing. Eles até tentaram, mas “Suspended Sentence”, de 1987, com o cantor homônimo do rei do pop naufragou. Que Michael Jackson e seus fãs me perdoem, mas sem Brian Ross nos vocais não é Satan e fim de papo. O Cramunhão jamais daria seu aval para que um vocalista com tal nome fizesse sucesso tocando Heavy Metal e a banda dos discípulos do coisa-ruim foi amaldiçoada a permanecer no ostracismo pela eternidade (ou quase isso).

Reprodução/ Divulgação

Sepultados para o mundo e trancados dentro da memória de pouquíssimos metalheads contemporâneos, a banda que carrega o nome do próprio tinhoso resolveu fazer as pazes com papai Lucifer e revelou que ainda tinham algumas coisas para mostrar ao mundo. Com alvará de soltura assinado pelo 7 Peles em 2013, isto é, 26 anos depois de ter lançado o seu último trabalho, eles voltaram do além túmulo para espalhar a palavra do Heavy Metal novamente. “Life Sentence” trouxe todos os integrantes clássicos, inclusive a voz brilhante de Brian Ross na linha de frente. O disco foi tão bem que empolgou demônios em todos os círculos do inferno. Logo, a liberação para que a obra profana do Satan continuasse foi concedida e “Atom By Atom”, de 2015, e “Cruel Magic”, de 2018, foram lançados e apreciados por seres das trevas e fãs do Metal underground ao redor deste mundo e outros.

Pois bem, no último dia 1 de abril (e não, isto não é uma mentira!), chegou às lojas “Earth Infernal”. Sem muita dúvida eu vos digo que talvez estejamos diante da melhor obra gravada pelo Satan depois do retorno. Somente “Life Sentence”, de 2013, me deixa com um resquício de incerteza, mas a cada nova audição me sinto mais encorajado a cravar tal afirmação. Apesar de não mudarem uma vírgula na execução de seu Heavy tradicional e a obra trazer uma sequência quase direta de “Cruel Magic”, “Earth Infernal” impressiona por diversos fatores. A voz de Brian Ross parece que não envelhece nunca e, talvez esta seja parte do acordo com o chefão lá de baixo, mas o que realmente me deixou impressionado foram as partes de guitarra da dupla Russ Tippins e Steve Ramsey. O que esses caras fizeram neste álbum é para ser enaltecido, ovacionado e aplaudido de pé. Da primeira até a última canção, a rifferama não descansa jamais. Os solos estão lindíssimos, com duelos e duetos de tirar o fôlego, e isso sem mencionar as linhas mirabolantes cheias de momentos surpreendentes que vão fazer o ouvinte mais atencioso blasfemar e questionar: “mas que diabos é isto?”, “Será que o anjo das trevas concedeu novos poderes às suas crias?”. Provavelmente, sim!

Reprodução/ Divulgação

O disco abre com a primorosa “Ascendancy”, uma bordoada que honra com muita dignidade faixas de abertura do passado como “Trial By Fire” ou “Time To Die”. A diferença desta aqui é a forma com que é conduzida, sem pressa em pular etapas, ela prepara todas as suas partes com uma precisão quase cirúrgica. Os riffs são despejados um a um com intensidade assustadora e os solos são daqueles sem pressa para acabar. Quase como se a banda tivesse os planejado antes mesmo da música ser composta e pensado, “não importa se terá uma parte instrumental longa, só precisa ser perfeita”. E esta é a sensação que ficamos não apenas nesta música, mas no decorrer de toda a audição. Sabemos que os músicos tiveram mais tempo para compor o álbum, já que tivemos a pandemia entre o lançamento de “Cruel Magic” e “Earth Infernal”. Talvez isto explique um pouco todas as nuances, camadas e toda esta dose extra de complexidade adicionada.

No single “Burning Portrait”, disponibilizado em fevereiro, temos uma canção perfeita de Heavy Metal clássico. Mais cadenciada que a faixa de abertura que soa como um “chute na porta”, mas com um refrão pegajoso e uma pegada oitentista que fará os saudosistas suspirarem, esta é uma séria candidata a novo hino da banda. Mais uma vez, os solos e riffs precisam ser destacados e outro ponto que não podemos esquecer é a performance da dupla incubida pela parte rítmica, Graeme English (baixo) e, principalmente, Sean Taylor (bateria), responsável direto por boa parte da identidade musical do Satan e quase sempre esquecido nas análises.

O álbum segue com “Twelve Infernal Lords”, uma canção que vai crescendo a cada nova audição e, se você não der muita bola pra ela na primeira ou segunda vez que a escutar, não se preocupe, conforme o registro for se transformando em audição corriqueira e obrigatória (e acredite, será!), esta será uma faixa que vai te fisgar. “Mercury’s Shadow” chega na sequência e mantém a tradição do quinteto em apresentar ótimos temas instrumentais. Neste em específico, encaixa muito bem na proposta do disco e serve como uma espécie de ponte para a matadora “A Sorrow Unspect”, uma canção veloz e que traz a essência da banda intacta, mas com doses generosas de criatividade e inspiração.

Chegando na metade da audição, nos deparamos com “Luciferic”, uma música mid-tempo com destaque para as linhas vocais de Brian Ross. Sem dúvida este é um dos refrãos mais pegajosos do disco e para não dizer que não falei das flores, é impressionante como as guitarras da dupla Russ/Steve encontram uma forma de brilhar mesmo em composições extremamente simples como esta. “From Second Sight” foi a escolhida para ser o segundo single e, talvez, por ser uma das mais curtas, tem uma vibração um pouco diferente das outras soando mais direta e sem muitas passagens “diferentes”. Já “Poison Elegy” faz você mergulhar de cabeça novamente no Heavy envolvente técnico e trabalhado, repleto de riffs matadores, linhas insanas e melodias cativantes. Aqui temos algumas mudanças rítmicas realmente interessantes que fazem a música sofrer metamorfoses que exploram muito bem toda essa miscelânea sonora.

Como em todo tracklist bem construído – e este é um ótimo exemplo de posicionamento estratégico e funcional das faixas – temos alternâncias entre as canções mais velozes e outras mais cadenciadas. O terceiro single “The Blood Ran Deep” é daquelas frenéticas que servem para você bangear loucamente e depois sofrer com as dores cavalares no pescoço e nas costas (é meus amigos, a idade chega para todos!). Para finalizar um disco que beira a perfeição, está lá a maravilhosa “Earth We Bequeath” com suas partes instrumentais impecáveis, climatizações inebriantes e ritmos altamente envolventes. Uma obra de arte esta última composição, daquelas que realmente te deixam com gosto de quero mais.

Se ficamos todos embasbacados no começo do ano quando o Saxon lançou seu poderoso “Carpe Diem”, precismos entender que o Satan chegou chegando e não deixou por menos. Com o lançamento de “Earth Infernal”, os ingleses mandaram um recado claro e nítido, em alto e bom som, para todas as bandas de Heavy Metal tradicional (novas e veteranas) que já lançaram ou pretendem lançar seus novos discos ainda em 2022: “Earth Infernal” é, sem dúvida, o disco a ser batido até o momento (pelo menos, dentro do Heavy).

   

Até pelo bom momento que o gênero vive e também pelos excelentes álbuns que estão chegando à cada dia em nossas mãos, não vou cometer o erro de cravar nenhuma sandice em pleno mês de abril, mas sendo um fã que acompanha fielmente os lançamentos há muitos anos e conhecendo a capacidade das muitas bandas que ainda apresentarão seus discos até dezembro, afirmo: quem quiser lançar um trabalho melhor que este vai precisar comer muito arroz com feijão e compor uma obra realmente acima de qualquer suspeita.

Nota: 9,7

Integrantes:

  • Steve Ramsey (guitarra)
  • Russ Tippins (guitarra)
  • Graeme English (baixo)
  • Sean Taylor (bateria)
  • Brian Ross (vocal)

Faixas:

  • 01. Ascendancy
  • 02. Burning Portrait
  • 03. Twelve Infernal Lords
  • 04. Mercury’s Shadow (instrumental)
  • 05. A Sorrow Unspent
  • 06. Luciferic
  • 07. From Second Sight
  • 08. Poison Elegy
  • 09. The Blood Ran Deep
  • 10. Earth We Bequeath

Redigido por Fabio Reis

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