Resenha: Rosa Nocturna – “Angels & Beasts” (2022)

A indicação da vez é a banda tcheca de Symphonic Metal chamada Rosa Nocturna, com seu álbum “Angels & Beasts” (2022). Quando um novo trabalho é oriundo da República Tcheca, minha curiosidade aumenta em querer saber do que se trata. Afinal de contas, é quase certo de vir algo positivo graças ao número mais restrito de lançamentos, se comparado com países vizinhos – lugares emergentes em se tratando de Metal.

Com esse pensamento e estudo sobre alcance mais restrito e reservado, fica notório o menor número de lançamentos de um país como esse – o chamam de Tchéquia (ou Chéquia) atualmente, mas ainda não me acostumei com isso. Nomes oficiais modificados à parte, o Rosa Nocturna surgiu como mais uma aposta voltada para o Metal de atmosfera orquestral. Para reforçar o poder de tal novidade, o álbum conta com a ilustre participação da vocalista Viktorie Surmøvá ( Bohemian Metal Rhapsody, Surma, Xeneris, entre outras). O Rosa Nocturna se junta ao After Evolution para fazer frente dentro do Metal sinfônico local, visando o mercado externo.

Andělé a bestie

Lançado em 1 de setembro de forma independente, “Angels & Beasts” é uma versão do trabalho anterior a qual foi construída e gravada toda em tcheco. O álbum apresenta as principais ramificações pertencentes ao já citado Symphonic Metal. Sobre o trabalho anterior, “Andělé a bestie”, foi lançado em 2020 e o idioma natal da banda torna o disco mais natural e sombrio do que o material refeito na língua popular mundial, vulgo inglês. Essa versão também foi gravada no estúdio Sonidos, em Brno, República Tcheca.

Confesso que não fiz um comparativo mais profundo e abrangente sobre os álbuns, ouvindo um seguido do outro, mas entendo que os idiomas eslavos tornam o clima mais inóspito, o que funciona muito bem para esse estilo. Isso acaba tirando o tom bastante adocicado das linhas sinfônicas. Isso, quando de fato, buscam o fator comercial com mais força. Quanto a essa questão, ela será revelada durante o percurso dessa história.

Sobre o disco, inicialmente, o enredo parte do ponto logo após a queda de portador da luz ao submundo. Lúcifer foi consumido pelo orgulho e por desafiar o Senhor Sagrado. Se antes fosse o guardião da paz, agora serve a este lugar envolto por terror. A velha rixa entre céu e inferno, anjos e bestas, está em voga novamente. Quanto a nós, somos os representantes dos meros humanos que apenas podem observar e reportar cada condição e cada acontecimento, além das próprias questões humanas.

Bandcamp / Rosa Nocturna – “Andělé a bestie” (2020)

Entre ápices de luz e escuridão plena

Neste campo, trarei os principais brilhos lunares da versão inglesa do álbum dos tchecos. Após as justificativas referentes aos destaques identificados, citarei alguns pontos que não me cativaram tanto assim. Entretanto, este trabalho dos conterrâneos do After Evolution possui pontos de muito acerto e que não são encontrados em muitos discos que ouço por aí.

Sobre o primeiro sopro de relevância e elegância, temos em mãos a faixa de abertura “Lightbringer“. Essa música é o principal single da banda e foi ela que me chamou a atenção, principalmente por contar com a presença da Viktorie Surmøvá. Ela, como a vocalista competente que é, traz todo o seu charme musical para a trama e, caso você já conheça os outros trabalhos dela, se familiarizará com esse som.

Como se trata da faixa que abre o disco, é muito importante que ela possa se destacar e causar a curiosidade em ouvir o álbum inteiro. Afinal, se fosse de outra forma, o impacto negativo poderia ser bem grande. Apesar do início conduzido por linhas sinfônicas leves, os dedilhados e a levada diferenciada oferecem aquela sensação de querer saber o que vem a seguir.

O lado gótico entra nessa seara, acrescentando mais poder de fogo à parede sonora sinfônica. Vocais guturais entram em cena e contribuem para a inserção de tensões musicais. Dessa forma, a estrutura acaba ganhando mais enxerto para que a música não soe como um fantasma de si mesma. Pedais duplos trepidantes enfeitam as arestas finais da canção, oferecendo mais variações a essa atmosfera orquestral.

Outros voos mais altos dentro da obra

“Pharmacist” preenche bem esse espaço seguinte, embora traga ideia semelhante à sua antecessora. Seus dedilhados principais em meio às bases contidas ajudam a trazer a obra mais para frente do palco. A sonoridade busca alternativas para acelerar o passo, porém sem deixar de lado a sua configuração tradicional.

Ao lado de Viktorie, Aneta Zatočilová também entrega versatilidade, carisma, leveza e competência junto aos versos da música. Ao prosseguir com o andamento, as bases oferecem mais espaço para que sua voz ecoe mais forte e livre. Em seguida, o som muda novamente a sua direção, apostando em tons mais espaçados – a linha sonora ganha pausas e reserva mais dinamismo para o fraseado final.

Em “Desires in Mist” temos guitarras mais distorcidas e invocadas, em contraste às orquestrações límpidas. Linhas vocais masculinas e femininas preenchem cada espaço da composição, dando um toque à la Therion para a cintilante canção. Os solos aparecem em excelente hora, trazendo um charme extra para a faixa. Todavia, isso ativa o modo veloz dela, deixando a bateria mais rápida e imponente. Riffs cavalgados surgem e ganham terreno ao avançar pelo desfiladeiro sonoro. Nesse aspecto, podemos ficar mais seguros quanto ao andamento de “Angels and Beasts”. As participações especiais contribuem bastante para o resultado positivo dessa e outras faixas destacadas.

Rosa Nocturna / Bandcamp

A melhor música e a maior concentração do Folk no disco

Encontrei a melhor música do disco e ela faz jus ao nome. “Intruders” puxa uma linha mais próxima do Heavy, mas não fica apenas dando acenos breves. Acaba mergulhando nisso e em outras passagens já conhecidas. A pitada certeira do Gothic oferece um andamento classudo ao som que, por sua vez, até ameaça olhar com mais profundidade ao Metal da morte. No entanto, as guitarras flertam apenas através das frenagens e da bateria mais cavalar.

O baixo passa a ser o xerife do condado sonoro e libera as guitarras para dedilharem, enquanto a bateria traz aquele arrasto bonito, como um verdadeiro jipe 4×4.

O último dos maiores destaques do álbum é a música “Letters to the Front”. Ela é, decerto, a música com a faceta mais voltada ao Folk Metal do que qualquer outro subgênero. Tanto que, seria capaz de figurar em algum disco do Tuatha de Danann ou até mesmo de um Korpiklaani, por exemplo.

Você indagaria: “Sei da importância na variação do set. Mas e quanto a essa mudança drástica?” – eu também me preocuparia, mas ao ouvir o álbum completo, você consegue notar que a mudança faz sentido dentro da obra. Perto dela, seus outros brilhos são menores, como se anãs vermelhas disputassem com gigantes azuis uma posição de destaque. A música ganha mais ímpeto próximo de sua metade, se assemelhando ao que o Eluveitie vem realizando nos últimos trabalhos. Os cantores que participam da trama deixam a canção com cara de hino para ser cantado em frente a uma fogueira.

Considerações “nocturnas” finais

Conforme havia mencionado no início deste papiro virtual, “Angels and Beasts” possui um brilhantismo específico e notório, principalmente se visto por quem é mais habituado com esse estilo de som. Eu, apesar de gostar de discos e bandas escolhidos por uma lupa mental e auditiva precisa, considero que faltaram músicas mais fortes e influentes na reta final da obra. Decerto, isso acabou tirando o impacto que a primeira parte (dividindo o álbum por lado A e B, como em um LP) causa.

Por consequência dessa ausência, coube a “Intruders” garantir um resultado melhor para a obra durante a sequência da jornada. Isso trouxe um fôlego extra para a folkiana “Letters to the Front”, já que ela vem logo na próxima curva.

Pois bem, em resumo, digo que vale e muito a audição desse disco e também da versão em dialeto local, pois a sonoridade ganha uma camada mística e densa maior que essa versão. Pode seguir, de forma breve, uma fórmula gótica e também Folk, mas o Rosa Nocturna cabe bem mesmo na prateleira do Symphonic Metal. Um bom Symphonic Metal tcheco e com muito a aprender e a explorar dentro de sua musicalidade.

“Na noite, eles invadem a casa dos inocentes
Para despertar crianças de olhos brilhantes de seus doces sonhos
Para tirá-las de seus pais, para humilhá-las
Em nome de sua fé distorcida, eles vão destruir sua mente

Estranho na noite, quem é você?
Por que cobriu o rosto?
Explique agora suas intenções
Você não pode esconder a verdade sob disfarce”

Nota: 8,1

Integrantes:

  • Viktorie Surmøvá (vocal)
  • Aneta Zatočilová (vocal)
  • Dan Havránek (bateria)
  • David Koudela (baixo)
  • Petr Vosynek (guitarra)
  • Tonda “Gabriel” Buček (guitarra)

Artistas Convidados:

  • René “Perry” David (vocal)
  • Shirley Tracanna (vocal)
  • Lenka “Ereis” Šíková (vocal)

Faixas:

  1. Lightbringer
  2. Pharmacist
  3. Falling
  4. Desires in Mist
  5. Fear
  6. Once
  7. Skinchangers
  8. Intruders
  9. Letters to the Front
  10. Periculum
  11. Of Love, of War, of Blood
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