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Resenha: Razor – “Cycle Of Contempt” (2022)

Determinadas bandas passaram anos gerando expectativa para o lançamento do próximo full length e o canuck Razor é uma dessas bandas que passou grande período com a promessa de vinda do sucessor de “Decibels”, álbum de 1997. Demorou um bocado, mas a espera acabou. Via Relapse Records, “Cycle Of Contempt” foi lançado no dia 23 de setembro e marca a assinatura do nono álbum de estúdio dos caras. O quarteto de Guelph, Ontario, amante do Rock Veloz, está de volta para ensurdecer a vizinhança mais uma vez e o fã pode exaltar suas emoções diante dessa grata notícia. Junto a isso, a banda lançou dois EPs neste mesmo ano, “Fast And Loud” e “Violent Restitution”, sendo esse último batizado com o mesmo nome do quinto disco, outro clássico da desgraceira.

O momento trágico de 2020 causou uma ânsia gigantesca nos artistas para voltarem aos palcos e muito disso serviu de inspiração para gravarem novos trabalhos, tendo inclusive, bandas que retomaram o rumo das gravações, incluindo o próprio Razor, que por sua vez, decidiu se concentrar em novas composições para mostrar ao público que ainda possuem muita lenha para queimar. O quarteto sempre apostou na rispidez suja e afiada para conduzir suas construções sonoras. O que veremos a seguir é a sequência natural disso.

   
Razor/Divulgação

Ao ligar a tradicional e poderosa motosserra canadense, damos de cara com Flames Of Hatred”, faixa que inaugura o marcador em favor da música rápida. A ideia parece que foi a de manter o que fora constituído até então, sendo perceptíveis os elementos do último álbum nesse início de jornada. A pegada mais Thrash com variações em velocidade e quebras curtas ditam o tom da canção. A abertura dela acontece de modo similar ao início de um show: guitarra emitindo aquele ruído caracterísco após ser ligada e testada, contida pelo instrumentista, que deixa o som ser emitido e oferecendo espaço para a platéia interagir aos gritos de: “Razor! Razor! Razor!…”. Tal forma como a faixa inicia, acaba por lembrar de “Take This Torch”, música inaugurativa do debut, o excelente “Executioner’s Song” (1985). O som possui uma pausa pouco adiante que te faz pensar que o disco esteja com defeito. Mas, após o susto você percebe que se trata de pausas e quebras de um estilo visceral e tocado a plenos pulmões. Determinado trecho em que os acordes são brevemente mais sustentados durante a correria frenética, se assemelham ao que os russos do Ария (traduzindo para o ocidente, Aria) fazem ao praticarem seu destemido e contagiante Heavy Metal. Os solos festejam o retorno do triturador de ossos canadense que possui em suas estrofes mensagens sobre um mundo observado e controlado pelos poderosos. Estes só enxergam o lado da ganância e a exploração de todo tipo de riqueza. A seleção de quem vive e quem morre está cada vez mais desnivelada, na qual um genocídio diário acaba se tornando algo normal. O mundo já teve suas épocas frutíferas e nunca mais viveremos estes tempos, pois ninguém estará vivo para contar essa história.

A sequência é realizada pela “Jabroni”, faixa que considero a transição para o Speed, que desse modo, acontece em “Off My Meds”.

A segunda música mostra uma curiosidade muito interessante em seu nome, pois “Jabroni” é um termo que foi muito utilizado pelo ator Dwayne “The Rock” Johnson durante sua carreira no wrestling. O termo era usado para colocar medo nos adversários e fazê-los se sentirem fracos e insignificantes. O significado é algo como um tipo de pessoa tola. O discurso através da letra diz sobre um desafiante que se acha durão que pensa ser o número um. Os versos montam a trama para a luta e vale mencionar um dos dizeres finais: “Jabroni, aí vem o caminhão, meu punho!” – Jabroni está sem sorte e terá seu pescoço quebrado, dentre muitas outras coisas condizentes ao desafio. A sonzeira parte para a ida através do mapa da velocidade insana e cheia de vibração como a de um carro que explora seu velocímetro em busca da ativação do nitro para que o veículo decole de uma vez. Os solos ligam as turbinas e entregam a potência devida para completarem mais uma volta em favor do astro The Rock! Chegando até a terceira porrada na fuça, temos “Off My Meds”, que coloca à frente a junção poderosa chamada Speed/Thrash, da qual apreciamos com a maior das devoções. Está mais do que na hora de citar o nome dele: Rider Johnson!!! Este baterista vem triturando em seu kit desde a abertura do disco ao lado de seus respectivos compatriotas e parceiros de banda. Os riffs envolventes entregam a verdadeira junção já citada acima e que contornam uma situação da qual é quase impossível de se libertar. A dependência de remédios faz com que a pessoa altere e piore seu comportamento, ocasionando algo grave consigo mesma ou com pessoas próximas. Confira o poderoso refrão:

“Off my meds
That’s what you get
Off my meds
You lost the bet
Off my meds
You’re not so brave
Off my meds
Into your grave”

“A Bitter Pill” mantém a ideia anterior firme e apresenta Dave Carlo esmerilhando sua guitarra com riffs, variações e solos amplamente certeiros. Bob Reid vocifera de modo a lembrar de Chuck Billy (Testament) em determinados momentos, sem jamais soar como cópia. Afinal, cada um possui sua plumagem vocálica. Ou melhor, sua linha vocal e sua personalidade dentro do que se propõe a executar. Quando uma pessoa comete um erro grave ou até mesmo um crime, o que vem a ser extremamente pior, esta passa por uma condenação verbal e gestual perpétua, sem direito a fiança ou à piada do cumprimento de 1/3 da pena para que seja liberado. As pessoas não perdoam e dependendo do grau de erro, exigem punição extrema ao alvo. Essa pessoa envelhece sozinha sem que qualquer parente a visite. Muitos querem que este morra. Havendo crime hediondo, é justo pensar assim. As pausas magistrais da canção revelam o crime que não foi prescrito. “Crossed” consolida o título Rock Veloz, mostrando que os bravos canucks estão mais firmes do que nunca! A breve intro altamente frenética leva o ouvinte desavisado ao colapso auditivo. O riff principal é simplesmente um dos melhores do disco. O guitarrista Dave Carlo e o baixista Mike Campagnolo eletrocutam seu aparelho de som ao despejarem seu arsenal super sônico, em que é falado sobre um lance catastrófico bastante atual. Ao conferir este trecho fica fácil entender sobre o que se trata. “Como isso aconteceu bem debaixo do meu nariz / Com uma pessoa que eu achava que era um amigo” – esse tema é bastante atual e vem acontecendo com frequência, na qual a pessoa descobre que aquele ser de confiança era na verdade mais sujo que bota atolada no esterco. E o pior é a pessoa achar que você não se recuperará disso, porém a reviravolta acontece e você se sobressai, sagrando-se vitorioso, embora tenha perdido um contato que parecia importante. E isso fica bem evidente ao somar com os vocais mais limpos e quase falados em modo de sermão/explanação, além das partes mais rasgadas e menos graves, cortesia de Bob Reid.

Relapse Records

“First Rate Hate” traz consigo toda a aura do Speed/Heavy mais carregado e desenvolto, com compassos mais contidos em questão de velocidade. Isso coloca um ar mais técnico ao novo trabalho, mostrando a versatilidade dos músicos para com suas canções, tendo destaque para o baixo de Mike Campagnolo. Porém, não é apenas isso que demonstra a canção. Após o ótimo solo de guitarra e os principais riffs de volta, a mesma te coloca no mundo do trem-bala logo em seguida, como se te perguntasse: “Você gosta de velocidade com cobertura de morango ou caramelo?” O formato desse som remete ao incrível álbum, “Shotgun Justice”, de 1990. “Eles vão à igreja no domingo / Fingindo ser doce / E ainda assim eles acham fácil / Para mentir e roubar e enganar / A podridão religiosa os corrompe / Não é algo que eles podem sentir / Eles passam a vida alheios / Para o que sabemos é real” – pastores impostores, vermes obsoletos, traidores da humanidade, farsantes e golpistas, aniquiladores da esperança, cortejantes do dízimo em troco de nada, estes são os falsos guias bíblicos. Eles te venderiam por amendoins se isso é o que mais lhes convém. Mas, o castigo está chegando para aqueles da qual detestamos. Eis que chega a vez da faixa-título dar as caras. O ciclo do desprezo acaba uma hora e é quando o narcisista, que se achava o maioral e te humilhava a ponto de você se sentir pior que um lixo radioativo, passa a se degenerar e em seu leito de morte, não desiste de tais pensamentos, além do que você jamais o perdoará. “Cycle Of Contempt”. Seu início é cadenciado e contínuo, lembrando um pouco a ideia constituída pelo Slayer no clássico álbum, “South Of Heaven”, de 1988. O baixo de Mike indica que é hora do desprezo à música ruim e fraca entrar em cena. Os riffs violentos com agudos tirados da alavanca, desmoronam monumentos em segundos. A canção possui uma segunda intro a partir de sua metade e acrescenta mais variações sonoras sem dar chance à rotina sonora, lembrando a receita do segundo full length, “Evil Invaders” (1985). E mais uma vez os solos fazem a diferença, dessa vez servindo de forma apoteótica.

O “Setup” da máquina altera a senha para sonoridade infernal e catastrófica, ocasionando uma explosão em seu aparelho. Tudo vai pelos ares ao ouvir o kit de Rider Johnson em ampla combustão. Percebe-se um mergulho em álbuns como “Malicious Intent” (1986), “Custom Killing” (1987) e até mesmo o espetacular “Violent Restitution” (1988). Os solos novamente abrem as portas para os anos 80, enquanto o baixo de Mike Campagnolo brilha novamente. Outra aula de Speed, de Thrash, de Rock n’ Roll. “Quando mentirosos empurram suas mentiras / Não quero ver outra guerra / Isso leva à nossa morte” – é quando o lucro vale mais que a própria honra e o ato de mentir torna o ser inútil mais poderoso perante às massas. Alguns detratores que apontam o dedo sem se limpar antes, merecem uma boa sova. Em “Punch Your Face In” isso ocorre de forma honrosa e digna. Bob Reid vocifera seus versos de forma agressiva completamente esplêndida, apoiada por ótimos backing vocals. A pancadaria frenética e despojada carrega tremolos ao término de cada fraseado, oferecendo um cardápio imenso ao curto som. Rider não economiza na porrada e desce o braço nos tons, bumbos, surdo, caixa, pratos e o que mais for preciso para elevar a qualidade do soco sonoro desferido com a tradicional paixão pela boa “múzga”. As linhas de baixo são um primor, principalmente quando aparecem isoladas, trazendo um diferencial muito gratificante para o som, junto a outro solo de guitarra de destaque.

Razor/Divulgação

All Fist Fighting” te avisa que estamos perto do fim dis trabalhos por aqui e pede para a luta prosseguir. Por falar em luta, a trama é sobre uma briga de bar que envolve quase todo mundo presente até que um segurança com braços de urso começou a apartar a briga de forma viril e de simples resolução. Até que este toma um sopapo e ençouquece. O “braços de urso” se torna um urso com sede de sangue e vontade de matar. Quem relata o desfecho é a garçonete, enquanto o personagem central está sentado atrás do bar, conferindo tudo. O ritmo intenso apresenta uma banda ainda mais insana. Vocais agressivos com fraseados rápidos, acordes que acompanham e ampliam o giro no registro de água até sumir o ponteiro de vista! Tremolos espalhados como se o mestre Tony Iommi aparecesse em cena por breves momentos, tudo isso em constante viagem sem freio, no melhor dos sentidos.

As primeiras notas apontando para o norte musical, insinuando o ouvinte para que o mesmo se prepare…

A penúltima voadora na têmpora atende por Darkness Falls”, que coloca em primeiro plano a rispidez e o jogo de pedais instigantes e provocadores de um memorável mosh. A descarga elétrica sonora evidencia o poderio clássico e marcante de um Razor revigorado e pronto para seguir com mais lançamentos dos quais seus adeptos tanto aguardaram. Dave Carlo ajeitou seu boné e despejou muito do seu conhecimento sobre as seis cordas. “Todos nós protegemos nossos rostos, da explosão nuclear / Eles nos avisaram sobre isso, agora é passado / Corpos deitados em todos os lugares, basta olhar para o que fizemos / Partículas radiantes, bloqueando o sol” – o processo de destruição global segue em andamento desde o século passado. Perecer em guerra sem sequer fazer parte dela se tornou um hábito comum e corriqueiro do dia-dia. Você reza para não perder mais um ente querido, mas mal que o bilhete “premiado” pode estar contigo. O sol se põe mais cedo e que sobra no céu são cinzas da sua vizinhança, da sua cidade, seu país…

Relapse Records

Nada como um reinado de merda para encerrar toda a sujeira deixada por seus súditos. Nesse caso, King Shit é o lado bom da podridão que não é tão podre quanto um Venom ou alguma banda de Black/Thrash, mas é a sujeira e rispidez canadense entregando mais uma chuva de cortes e dilacerações provocadas por sua motosserra musical. “Depois da campainha você vai tomar uma cerveja / Para apagar as memórias de todos aqueles anos perdidos / Você nunca vai se recuperar do que eu imponho / Você trabalha até cair só para pagar suas roupas” – o fato é que o vazio te enche, entretanto a verdade te machuca muito. Já as escolhas que você fez te deixaram desesperadamente triste. você pede ajuda, mas ninguém pode ouvir. Um legado surge de uma vida vivida com medo do ser dominante que menospreza toda sua capacidde. O Rei Merda é quem domina o certame e mostra que você não tem escapatória. O álbum termina como a apoteose de um show. E mais gritos de: “Razor! Razor! Razor!…”, para a alegria do ouvinte.

Razor/Divulgação

Considerações finais sobre os bravos canucks:

Ao longo do tempo, o Razor construiu dois caminhos bem explorados e assertivos para elaboração completa de seu som e toda sua trajetória para tal. Dito isso, fica tranquilo de dizer que, enquanto a sonoridade frequenta o universo mais afiado, ríspido, do tipo que espirra catchup ao encostar na lâmina pontiaguda, esta homenageia os primeiros discos que são o puro suco do Speed Metal massacrante e devastador. Por outro lado, quando a sonoridade busca se banhar em horizontes com quebras, riffs com ronco de motor ultra potente, viradas insanas, pausas e variações com intervalos nos pedais duplos, esta se aproxima dos discos mais recentes. Isso resulta naquela receita de sucesso a qual chamados carinhosamente de Speed/Thrash Metal, tendo o Rock Veloz com mais destaque e envolvendo o pano de fundo das canções também. Outro fato a ser destacado são as linhas vocais de Bob Reid, que em seus momentos mais graves lembram o vocalista/baixista Paul Speckmann (Master). E que esse retorno aos lançamentos de estúdio sejam definitivamente para valer!

“Human race assembles
To make a final stand
Their pleas will go unanswered
No time for weak demands
The world as we once knew it
Will no longer survive
Stamped out for eternity
There’s no one left alive”

Nota: 9,3

Integrantes:

  • Dave Carlo (guitarra)
  • Mike Campagnolo (baixo)
  • Bob Reid (vocal)
  • Rider Johnson (bateria)

Faixas:

1. Flames Of Hatred
2. Jabroni
3. Off My Meds
4. A Bitter Pill
5. Crossed
6. First Rate Hate
7. Cycle Of Contempt
8. Setup
9. Punch Your Face In
10. All Fist Fighting
11. Darkness Falls
12. King Shit

Redigido por Stephan Giuliano

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